Ouça agora

Tudo em família


Por Júlio Black

10/06/2015 às 04h00- Atualizada 10/06/2015 às 11h39

História sobre gêmeos em eterno conflito é transposta para os quadrinhos pela dupla vencedora do Prêmio Eisener com 'Daytripper'

História sobre gêmeos em eterno conflito é transposta para os quadrinhos pela dupla vencedora do Prêmio Eisener com ‘Daytripper’

Dizer que os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá são dois dos mais talentosos ilustradores de quadrinhos do Brasil e do mundo não é mais novidade. Desde que surgiram para o universo da Nona Arte em 1997, com o fanzine “10 pãezinhos”, a dupla já mostrou seu talento – juntos ou separados – em diversos projetos, casos de “O girassol e a lua”, “Daytripper” (vencedor de prêmios como Eisner, Harvey e Eagle), “Casanova” (em que os dois ilustraram a história de Matt Fraction) e a adaptação de “O ilusionista”, de Machado de Assis. Desta vez, os artistas paulistas encararam o desafio de criar uma versão para “Dois irmãos”, de Milton Hatoum, que chegou às livrarias e lojas especializadas em quadrinhos por meio da Quadrinhos na Cia., selo para HQs da Cia. das Letras.

O desafio não era fácil. “Dois irmãos” é o segundo livro de Hatoum, lançado em 2000, e que assim como seu trabalho de estreia (“Relato de um certo Oriente”, de 1989) foi agraciado com o Prêmio Jabuti, sendo traduzido em oito idiomas. A responsabilidade, como pode ser conferida nas 232 páginas da publicação, não inibiu os irmãos, que entregam ao leitor um trabalho denso, surpreendente, que vai colocar à prova – em termos de excelência – a adaptação para a TV a cargo de Luiz Fernando Carvalho, que terá o onipresente Cauã Reymond como protagonista.

A história de “Dois irmãos” é típica da obra de Hatoum, permeada por conflitos familiares e algum teor político, muitas vezes de caráter autobiográfico. No caso do livro em particular, o drama vivido por muitos durante a ditadura militar também está presente, mas é o relacionamento conflituoso de dois irmãos que marca profundamente as décadas esmiuçadas por Milton Hatoum. Nascidos na mesma Manaus que o escritor, os gêmeos Yaqub e Omar têm origem libanesa e são filhos de um próspero casal de comerciantes.

Apesar do desejo da mãe superprotetora de que eles fossem unidos até a morte, desde a infância, ficam evidentes as diferenças entre os irmãos: enquanto Yaqub é centrado, comedido, estudioso e trabalhador, Omar é irresponsável, festeiro e boêmio, nunca se importando com estudos e empregos.

Uma desavença ainda na infância gerada por um interesse romântico em comum leva à ruína o relacionamento dos dois e a vida de todos a sua volta, numa trama em que o ciúme, a morte, a melancolia e o ódio levam ao final inevitável dos protagonistas, que resulta na dramática desestruturação da família. A arte de Moon e Bá, em preto e branco, mostra-se perfeita ao retratar “Dois irmãos” de forma cartunesca. Ao contrário dos gêmeos do romance, o entrosamento dos artistas é tamanho que é difícil descobrir onde começam ou terminam os traços de cada um – algo completamente perceptível, por exemplo, nos três livros que compõem a série “Casanova”.

Sob todos os aspectos, uma obra imperdível para quem curte quadrinhos e literatura.