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Outras ideias com Sebastião de Assis


Por MAURO MORAIS

10/05/2015 às 06h00

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São 12 blocos. Do A ao L. São159 apartamentos, três andares, mais a famosa passarela, ligando os blocos. Considerando uma média de três moradores por casa (de dois ou três quartos), são quase 500 pessoas. As janelas são tantas que sou incapaz de contar. O condomínio Parque Encosta do Sol, na Rua Santa Catarina, no Bairro São Bernardo, é mesmo superlativo. Conhecido como “Minhocão” – numa alusão ao famoso e semelhante prédio carioca, localizado na Gávea e construído por Reidy -, o gigante juiz-forano também é imenso pela visão que oferece. Do Bloco L, é possível ver toda a extensão da Rua Halfeld, enquanto, do outro lado, perde-se de vista o Paraibuna em seu curso. Sempre acompanhado pelas muitas chaves que carrega entre os dedos, Sebastião Assis, o Tião Papa, é quem administra o que, à primeira vista, parece impossível de organizar.

Com a voz tranquila, de camisa, bermuda e chinelos, o homem de 59 anos diz já não se assustar. “O condomínio hoje pode ser administrado confortavelmente. Nossa arrecadação é boa. Um prédio como esse é como uma cidade pequena”, orgulha-se. Resolvo, então, procurar a receita tributária de municípios do entorno. Uma das menores da região em número de habitantes, Coronel Pacheco, com seus 2.983 moradores (segundo informações do IBGE), tem a previsão de arrecadar, esse ano, pouco mais de R$ 400 mil com impostos municipais, valor próximo ao que o Minhocão consegue recolher com a taxa de condomínio. “Acho que o síndico desse prédio precisa ter tempo para se dedicar integralmente, vivendo 24 horas para o trabalho, por que tem muita coisa para fazer”, comenta Sebastião, apontando para a pintura de todos os blocos, tarefa que está prestes a concluir.

Promotor de rodeios

Há 17 anos, o síndico cujo mandato se encerra em julho, entrou pela primeira vez no prédio, construído no início da década de 1980. “Eu morava em outro bairro, no Santa Luzia. Tinha uma companhia de rodeio, vendia shows e tinha boi, e sempre começava os rodeios do ano lá. Numa dessas festas, conheci minha companheira, que morava aqui. Me lembro de quando a trouxe um dia e disse: ‘Sinceramente, você é de muita coragem, porque eu jamais moraria aqui'”, recorda-se. Desde então, estreitou os laços com ela e com o lugar. E descobriu que o receio inicial não passava de boato. “Ouvíamos umas histórias que, depois de entrar, nunca se confirmaram. Acho que tudo não passava de uma lenda. Tem moradores que são da época em que o prédio foi inaugurado e nunca ouviram ou viram bagunça alguma. Cada dia que passa, gosto mais de morar aqui”, emociona-se ele, que recebe um salário mínimo para gerenciar todo o complexo, com suas duas quadras, um playground deteriorado, nove funcionários, além do eterno dilema de ter apenas 71 vagas de garagem. “Essa é uma de nossas grandes dificuldades”, lamenta, pontuando que, por vaga, cada um paga apenas R$ 8, e existe, hoje, uma longa fila de espera.

Do campo para o concreto

Nascido em Santa Bárbara do Monte Verde, onde hoje mantém uma fazenda com gado de corte para compra e venda, Sebastião saiu da zona rural aos 14 anos, junto dos pais, produtores de leite, e dos oito irmãos. “Meus pais se mudaram para Juiz de Fora com a intenção de que viéssemos estudar, mas acabou que cada um foi trabalhar e seguir a própria vida”, conta. Sebastião também traçou o próprio percurso, começando como empacotador, depois ajudante de caminhão, recruta do exército, concursado do Ministério da Agricultura (“Saí por conta própria”, diz), motorista de tanque de leite, representante de uma famosa marca de pó de café, vendedor de gado de corte, e, por fim, promotor de rodeios, exercício que tomou conta de mais de dez anos de sua vida. Síndico, no entanto, ainda era um desafio desejado. Pai de dois filhos na casa dos 30, frutos de seu primeiro casamento, e de um menino de 9, ele, também avô de três, só não imaginava o trabalhão que enfrentaria.

Proibido namorar

Ao andarmos pelo condomínio, Sebastião me conta sobre algumas regras. “É proibido namorar na passarela”, afirma. O que mais não pode ser feito?, pergunto. “Tudo. Só não é proibido chegar, passar e ir embora para dentro de casa”, ri. “Não vou dizer que as regras são tão rigorosas, mas são muitas coisas com as quais precisamos ter cuidado e cautela. Qualquer coisa que deixar vira descuido, bagunça”, completa, mostrando uma guarita no meio do caminho, onde fica um vigia das 18h às 6h, com visão de todo o trecho da passarela. Grandes problemas? Ele nega. “Só conheço uma história de confusão, que era um casal que sempre brigava entre si”, resume. Por fim, resolvo perguntar se, diante desse panorama já íntimo para ele, pensa em continuar. “Se fosse responder hoje, diria não. Mas ainda não decidi”, desconversa. O gigante assusta, mas também acolhe.