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Os sertanejos no topo


Por MARISA LOURES

10/05/2015 às 06h00

Juntos há seis anos, Fabrício & Gabriel estão entre as duplas de maior destaque na cidade

Juntos há seis anos, Fabrício & Gabriel estão entre as duplas de maior destaque na cidade

Leonardo de Freitas & Fabiano contam com uma equipe de 16 profissionais envolvidos em suas produções

Leonardo de Freitas & Fabiano contam com uma equipe de 16 profissionais envolvidos em suas produções

Demetrius & Joziel comemoram um ano de parceria neste domingo, no Ibiza

Demetrius & Joziel comemoram um ano de parceria neste domingo, no Ibiza

Felipe & Ruan realizam uma média de 15 shows por mês

Felipe & Ruan realizam uma média de 15 shows por mês

De caipira (aquele que é oriundo do campo ou da roça e que tem hábitos rudes), o sertanejo não tem mais nada. Os acordes das guitarras ficaram mais pesados, e os ritmos, mais acelerados. A mistura invadiu o Brasil, domina Juiz de Fora, e os artistas locais agradecem o sucesso. “Ele hoje é rock, é balada, é arrocha, é bolero”, sentencia o cantor Fabrício, parceiro de Gabriel nos palcos. Juntos há seis anos, os dois músicos lotam as casas noturnas da cidade e se destacam como um dos nomes mais promissores das bandas de cá. Com a Júnior Produções por trás, uma equipe de 16 profissionais envolvidos e estrutura que conta com van e caminhão para transporte dos equipamentos de som, a dupla vive desse filão. No mês, realizam, pelo menos, 20 shows com repertório composto por canções dos dois CDs autorais e músicas de artistas consagrados.

“Nascemos em bares e pizzarias. Começamos tocando para dez, 15 pessoas, e, graças a Deus, foi passando uma semana, duas e aqueles espaços foram ficando pequenos. O pessoal curtiu a proposta, e tivemos que procurar local mais amplo. Depois vieram as casas noturnas”, relembra o músico, que um dia foi motorista de caminhão. Fabrício comenta que, para agradar o público, as duplas daqui seguem influências nacionais, mas cada uma possui certas particularidades. No caso dele e do amigo, o segredo está no instrumento empunhado por Gabriel. “As pessoas precisam ser diferentes, porque tem muita gente procurando projeção nacional. Colocamos o saxofone, que é um instrumento clássico e superexpressivo, no sertanejo. Essa é uma característica nossa. Também fazemos adaptações de músicas de outros cantores. No mais, nos diferenciamos pelo nosso timbre e vocal. O público percebe”, aposta Fabrício.

Quando o empresário do ramo musical Fernando Cunha lançou o projeto “Sertanejo retrô”, com Leonardo de Freitas & Fabiano interpretando clássicos de outros tempos com uma nova roupagem, ele não imaginou o alcance da empreitada. Foram três edições no German, e já tem uma fechada em Goiânia e em Brasília. A intenção é chegar a São Paulo. “Achei que teríamos somente a faixa etária de quem viveu o passado, mas, para minha surpresa, a plateia era eclética”, conta ele, empresário de Maurício & Mauri, irmãos de Chitãozinho e Xororó.

“O rock, o sertanejo e a MPB não vivem um momento, oscilam. Um ou outro costuma estar na crista da onda. Há duplas de outras gerações que ainda têm uma agenda muito grande, atraem plateias e influenciam os novos nomes. Eles popularizam o movimento”, observa Fernando. E podemos falar que a cidade está sabendo aproveitar os bons ventos que sopram? “Juiz de Fora tem muita influência do Rio, e, por ser uma cidade com diversas faculdades, o sertanejo universitário reativou esse mercado. Surgiram novas duplas, e as casas de shows passaram a tê-las na programação”, completa Fernando.

Mesma popularidade de sempre

Por trás de Leonardo de Freitas & Fabiano, existem Fernando Cunha, cinco músicos, dois artistas, um produtor, um iluminador, um operador de som, dois motoristas, dois montadores e uma assessora de imprensa. Dentre as dezenas de duplas sertanejas que surgem na cidade, eles estão entre as que apostam em ultrapassar as montanhas de Minas Gerais. Não é raro saber que os juiz-foranos farão a abertura ou o fechamento de um show de Victor & Léo, Guilherme & Santiago, Michel Teló, Skank e Detonautas. “Sempre procuramos atingir o Brasil inteiro. Claro que nem sempre isso é possível, porque tem que ter investimento muito forte, mas procuramos fazer sempre o melhor para não deixar nada a desejar a um artista nacional. Tudo tem seu momento, e acredito que a nossa vez vai chegar”, espera o cantor Fabiano, certo de que não é possível alcançar resultados positivos sem recursos próprios.

“Investimos no nosso próprio trabalho. Não se trata somente de um investidor financeiro”, afirma Fabiano. Na estrada há oito anos, a dupla marca ponto toda sexta-feira no Univershow e se reveza aos sábados entre o German e as apresentações fora da cidade. Em nove anos de estrada, são dois CDs gravados e um DVD. Atualmente, eles saboreiam a repercussão, no YouTube, do clipe da música “Coração pede socorro”. “Mais de um milhão de acessos. São os detalhes que fazem com que a gente se mantenha na mídia. Sempre ouvimos nossos fãs e colocamos um tempero só nosso, um arranjo diferente. Temos uma fórmula de tocar própria e um pouco de irreverência”, completa o cantor.

Volta do romantismo

Formado em canto e filosofia, Ruan, parceiro do sertanejo Felipe, com quem faz uma média de 15 shows por mês, descreve qual é a cara desse gênero que faz com que ele e tantos outros locais sigam a onda de Lucas Lucco, Luan Santana, Cristiano Araújo e Gusttavo Lima. “É o sertanejo que está nas novelas, o sertanejo do arrocha. Tem a valorização da balada, da bebida, do amor sem compromisso, e, em compensação, tem o ‘sofrência’ falando da pessoa que foi embora. Está voltando um pouco do que acontecia nos anos 1990, do sertanejo mais romântico. É um momento de transição”, defende Ruan, que também é professor. Valendo-se das mudanças ocorridas na história da música brasileira, ele palpita quanto à duração desse período.

“Não temos uma bola de cristal, mas acho que dura mais uns três anos. Antes o sertanejo era discriminado, ouvido por caipira e por quem tem baixo poder de compra. Hoje, quem tem dinheiro também escuta. Vamos para as classes A, B, C e D com o mesmo repertório. Na década de 1990, tínhamos Leandro & Leonardo, Zezé de Camargo & Luciano, uma música bem chorosa mesmo. Depois, veio o declínio, e agora retorna com as novidades. Sempre rola uma repaginada. O axé, por exemplo, está num momento moribundo, isso acontece na literatura, na moda”, acrescenta Ruan.

Felipe & Ruan são a atração fixa das quintas-feiras do Bar da Fábrica e dos domingos no Gângster Pub. “Estou tendo uma vida que escolhi viver”, ressalta Ruan, cujo nome de batismo é Edson Freitas. “A minha renda é a dupla sertaneja e dou aula. O Felipe ainda trabalha com outra coisa, mas o cerco está se fechando, e precisamos de mais tempo para atender a demanda de apresentações. Comecei a tocar sertanejo por causa do meu pai, depois fui para o rock por questões de escolha e mais tarde para o sertanejo porque dá uma renda muito maior.”

Embora a formação Demetrius & Joziel seja recente, Demetrius Lugon acumula experiência de longa data tocando com outras duplas sertanejas. Enquanto ele é guitarrista, Joziel se destaca entre os sanfoneiros da cidade. “Somos dois cantores e instrumentistas gabaritados. O cantor que toca tem um diferencial. Eu fiz Bituca, e Joziel está se formando em voz agora”, diz Demetrius. Na visão dele, falta quem aposte no sertanejo em Juiz de Fora. “As pessoas não dão muita preferência para as duplas que estão começando. Apesar de haver muita demanda de shows, poucos enxergam os talentos e querem levá-los para fora daqui. Conheço umas 15 duplas, e só cinco têm espaço para tocar.”

Segundo o guitarrista, a possibilidade de ganhar mais dinheiro o atraiu para o sertanejo, contudo, o amor ao gênero falou mais alto. Por falar nisso, os sertanejos comemoram um ano juntos em apresentação hoje, às 19h, no Ibiza, onde se apresentam todos os domingos. “Sempre tive proposta de montar uma dupla, queria ser cantor e não tinha ainda achado um parceiro certo. Sou fã mesmo, sempre gostei”, finaliza Demetrius.