De coração aberto
Iludido aquele que pensa estar livre do sofrimento por não se entregar às emoções. "Amar é solução", constata Djavan em "Triste é o cara", uma das 13 canções autorais de "Rua dos amores". O show homônimo da nova turnê que acontece nesta quinta no Central marca a volta do músico alagoano à cidade, após uma longa temporada. Também extenso foi o período de quatro anos sem compor, necessário à produção do trabalho anterior "Ária" – que conta com canções de diversos compositores consagrados -, e rompido com "Vive", faixa escrita para Maria Bethânia que acabou por ser incluída na nova obra. "Foi muito difícil para mim, porque sou essencialmente compositor. É uma afirmação visceral, é vital para mim compor", conta o músico por telefone, em entrevista cedida à Tribuna.
"Preciso, periodicamente, me revelar sob novas palavras, novas harmonias", prossegue Djavan, com seu reconhecido tom melódico e sereno. "Mas se compusesse uma canção, certamente faria outra e outra, até ter 12 delas e gravar mais um disco autoral", garante. "Também fiquei morrendo de medo de que quando voltasse a tentar compor não conseguisse." Felizmente, os receios não encontraram fundamentos. "Consegui voltar a compor com facilidade", conta.
Aos 64 anos e após lançar seu 21º álbum, Djavan ainda se envereda na busca pela diferença. "Essa é uma busca que não atende à vaidade, mas à sobrevivência", diz. "Preciso pelo menos da ilusão de que estou trazendo algo de novo. É isso que me move, o que me mantém", pontua o cantor, avaliando que o novo CD traz esse viço de novidade, a partir de alguns arranjos e letras diferenciados.
A banda que sobe ao palco com Djavan – composta por Carlos Bala (bateria), Glauton Campello (teclados e vocal), Jessé Sadoc (flügel horn e trompete), Marcelo Mariano (baixo e vocal), Marcelo Martins (flauta, saxofone e vocal), Paulo Calasans (teclados) e Torcuato Mariano (guitarras e violões) – marca mais um reencontro proporcionado pelo trabalho. A retomada da formação após 15 anos foi casual, segundo o cantor. "Estava no carro, indo de um estado para outro, já na final da turnê do ‘Ária’, quando ouvi ‘Boa noite’ (do disco ‘Coisa de acender’, de 1992), gravada na época deles. Fiquei com saudade daquela sonoridade, mas principalmente daquela convivência", diz. Quando voltou ao Rio de Janeiro, o músico contatou os amigos, que, prontamente, toparam integrar o novo trabalho. "A gravação do ‘Rua dos amores’ durou mais de sete meses. Acho que durou tanto porque estávamos nos divertindo muito. Talvez, nem precisasse levar tanto tempo", ri.
O cuidado com cada etapa da produção das novas obras é traço essencial na carreira de Djavan. Das letras das composições às melodias, aos arranjos, harmonias e interpretações, lá estão os toques pessoais – facilmente identificados em alguns casos – do músico que transita entre diversos gêneros, a exemplo de samba, blues e jazz. "Acabei abraçando de maneira definitiva todas essas etapas, que são importantíssimas para o resultado final, no afã de ser íntegro à minha ideia", avalia.
Em alguns momentos de sua trajetória, o músico diz ter se visto em situações de difícil resolução. "Você pede a um amigo extremamente talentoso para fazer um arranjo de uma composição sua, ele elabora um arranjo belíssimo, mas que não é adequado à letra que fiz para ele, não é fiel ao que eu havia imaginado. Veja que difícil. Como dizer isso a ele?", indaga com sinceridade o artista, que confessa, em alguns casos, ter gravado determinadas canções apenas para evitar magoar um amigo. "E, para ser sincero, eu adoro fazer arranjos. Quando estou escrevendo uma letra, muitas vezes, já tenho a ideia da melodia, da harmonia. É um trabalho gigantesco, sim. Fico exausto no final, mas feliz. Para mim, isso é o que importa."
O trabalho anterior, "Ária", revelou ao músico diversas facetas de sua vida, segundo ele, até então desconhecidas. "Para um autor, fazer um repertório autoral é, de certo modo, fácil, porque ele busca as referências que precisa em si mesmo", reflete. "Mas dar vida a um repertório com músicas de outros artistas é muito difícil, causa muita insegurança." O primeiro álbum como intérprete foi cercado pelas memórias afetivas do cantor, que durante anos atuou como crooner, em bares e boates. Ao contrário do que esperava, fechar um repertório e dar novos contornos às músicas estimadas foi um trabalho doloroso, mas de vital importância a sua carreira. "O desafio é a motivação."
Os traços pessoais chegam ao ápice em duas canções que trazem elementos autobiográficos em "Rua dos amores". Em "Quinze anos", Djavan fala do casamento, do encontro de "duas vidas enredadas de bem querer". "Já ‘Reverberou’ é um episódio da minha adolescência, sobre um pessoa que queria tanto. Fala do baile vespertino semanal, ponto de encontro da garotada", lembra, com carinho.
As pesquisas para "Ária" também se refletem em outras canções como "Acerto de contas", que traz pegada inspirada na harmonia de Cartola, e "Triste é o cara", com sua filosofia que remete a Vinicius (Triste é o cara/Que de amor não morreu). Encontros e desencontros também permeiam a obra, em "Anjo de vitrô", "Ares sutis", "Já não somos dois" e "Bangalô". De modo geral, as canções trazem temas inventados, segundo o compositor, que não falam necessariamente de sua vida, mas carregam inspirações legítimas. "É evidente que tem um sopro de mim em cada uma delas."
Para o show de amanhã (com "fórmula" já testada em diversas partes do país e também do exterior), Djavan interpreta sete músicas do novo disco, além de clássicos de todas as épocas da carreira, como "Flor de lis" e "Samurai". "Para essas canções antigas fiz arranjos novos", diz. "O show é pensado para que as pessoas gostem e interajam, o que é essencial ao espetáculo. Vou fazer de tudo para que o público de Juiz de Fora goste."









