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Ao pé do ouvido


Por JÚLIA PESSÔA

10/03/2013 às 07h00

O som está em todos os lugares, independentemente da nossa vontade. Podemos fechar os olhos e deixar de ver o cenário que nos cerca, mas ainda que tapemos os ouvidos, sentiremos a vibração do som. Falando sobre o papel dos estímulos audíveis na construção da memória coletiva acerca de um espaço urbano, o professor da Faculdade de Música Daniel Quaranta parece descrever literalmente a relação do som com a história de Juiz de Fora.

Experimente passar no Calçadão da Rua Halfeld, perto da Galeria Pio X, ao meio-dia. Pontualmente, o apito que faz parte do cotidiano do Centro da cidade desde 1927 soará, ainda que a Joalheria Meridiano, que instalou o dispositivo na época, não opere mais no local há cerca de um ano. Fragmento importante da vida do juiz-forano e registro de momentos históricos marcantes, como o fim da Segunda Guerra Mundial, o alarme foi o primeiro bem imaterial registrado no município, em decreto sancionado pelo então prefeito Tarcísio Delgado.

Para Yussef Campos, pesquisador do Laboratório de Patrimônios Culturais da UFJF e autor do livro Percepção do intangível: entre genealogias e apropriações do patrimônio cultural imaterial, reconhecer o apito do meio-dia como patrimônio imaterial é promovê-lo como um dos pilares da coletividade local. Ele assume seu posto, ao lado de outros bens culturais, como ícone da identidade juiz-forana. O som nos permite perceber a dimensão intangível desta identidade inserida no espaço urbano.

No Centro mesmo, perto de onde ecoa o tradicional alarme, diversos outros elementos ajudam a construir a paisagem sonora de Juiz de Fora diariamente. O barulho da movimentação de pessoas é muito marcante nas ruas centrais da cidade e característico desses locais, onde o comércio está concentrado. O silêncio, comum em feriados, quando tudo está fechado, causa até um certo estranhamento, diz a orientadora educacional Regina Galo.

Comuns ao ambiente urbano, sirenes, motores de carro, freadas e outros barulhos do trânsito também são lembrados. Sempre me incomodam, apesar de serem algo do dia a dia, relata a vendedora Eliana Barbosa. Outros sons, ainda que possam parecer incômodos, não causam desconforto aos ouvidos mais habituados. É o que acontece com o sino da Catedral Metropolitana, que desperta amor e ódio nos cidadãos. Me atrapalha muito a dormir, porque moro ali pertinho, reclama o estudante Matheus Ferreira. Nem escuto mais. É uma coisa tão presente no meu dia a dia que quando estou fora da cidade estranho sua falta. Ouvi-lo faz com que eu me sinta em casa, conta a comerciante Cida Castro.

Segundo o professor Daniel Quaranta, estas diferentes impressões sobre o mesmo estímulo auditivo se devem às interpretações que cada pessoa faz dele. Há sons que pertencem ao universo sonoro de toda a população e são mais icônicos, têm interpretações mais restritas. Mesmo assim, existem vinculações pessoais, particulares, que cada indivíduo faz sobre eles. Há estímulos tão comuns ao dia a dia que deixamos de escutá-los, apesar de os ouvirmos. Com isso, a construção da memória sobre uma mesma sonoridade será distinta de pessoa para pessoa e possivelmente relacionada a percepções afetivas e/ou cotidianas.

Seguindo esta lógica, os ruídos que mais remetem a Juiz de Fora, para a funcionária pública Maria Helena Franco, são os da natureza. Moro no Jardim da Serra, que é mais arborizado e afastado da área urbana. O barulho das árvores e dos pássaros é o que mais escuto aqui. Em outros pontos, como o Parque da Lajinha, o Museu Mariano Procópio e a UFJF, também é possível ouvir esta Juiz de Fora verde.

Já a passagem do trem, que corta a cidade de ponta a ponta, é uma das lembranças que mais chega aos ouvidos e à lembrança dos juiz-foranos. Dá para ouvir de qualquer lugar da cidade, é uma marca registrada, de tantas vezes que temos que esperar o trem passar. Com o alarme de segurança, e o movimento de pessoas que se acumulam dos dois lados da linha, é como se fosse uma música que estamos muito acostumados a ouvir, reflete o comerciante Antônio Mendes.

Na trilha sonora de Juiz de Fora entra também um coro de vozes. O som dos bares faz sempre lembrar que estamos em uma cidade jovem, universitária, aponta o técnico em informática João Pedro Ferreira Schimidt. Na feira da Avenida Brasil, é aquela loucura: tem música tocando, tem gente falando, tem vendedor anunciando produto, fica tudo misturado em um som só, que não tem como esquecer, destaca a universitária Fernanda Moreira Melo.

Neste coral descoordenado, vez ou outra algumas vozes assumem papel de solistas. Quem conhece Juiz de Fora há um tempo não tem como pensar no Centro sem pensar na Dona Maria do Calçadão, no vendedor de biju ou no Seu Antônio com sua viola, opina o empresário Guilherme Alvarenga, lembrando que certos sons ecoam muito além do que os olhos podem ver.