Sinais da evolução

Casarão de 1894 deixou de exibir as marcas da degradação causada por ações do tempo e vandalismo
De férias no mês que se foi, não deixei de notar que, por trás dos tapumes, se anuncia a promessa de dias felizes. Logo, logo, se as perspectivas se confirmarem, as portas do casarão que abrigava o Diretório Central dos Estudantes (DCE), na esquina da Rua Floriano Peixoto com Av. Getúlio Vargas, serão reabertas. Os sinais de degradação já não mais existem. Segundo a Universidade Federal de Juiz de Fora, as obras, orçadas em pouco mais de R$ 1,9 milhão conforme contrato, serão finalizadas em fevereiro de 2015, dois meses após o previsto. Na última sexta-feira, pude ver de perto o que há quase dois anos só conhecia no papel (em janeiro de 2013, a Tribuna publicou as fotos do projeto de reforma, de autoria do ex-professor da UFJF Júlio Sampaio). A utilização do edifício está sendo estudada pela universidade, que, na gestão anterior, previa um ponto de cultura com sala para exposição e pesquisa, miniauditório, café, além de um espaço para o movimento estudantil.
Para tentar se aproximar ao máximo das características da época em que o prédio principal foi erguido, 1894, os 20 homens envolvidos nas atividades de restauro tiveram que improvisar um molde de borracha de silicone e outro de fibra de vidro. A meta é confeccionar os ornamentos que irão para a fachada, tombada como patrimônio municipal. Tendo uma peça como modelo, a única que sobrou com a passagem do tempo, produziram outras sete em concreto. Se o passante olhar com cuidado, ele consegue ver da rua o lugar reservado a elas. Fiscal de obras da UFJF, o arquiteto Aristides Perobelli Fonseca conta que os tons de vermelho e palha do exterior foram mantidos após pesquisa.
“Na prospecção, tiveram que decidir pela época do prédio que gostariam de resgatar”, diz ele, esperando que o patrimônio presencie momentos mais felizes a partir de agora. “Esse imóvel é quase um símbolo do descaso aqui nesta região central, e agora está novo. Que essa presença do Poder Público dentro da malha urbana possa mudar isso, e que a própria pessoa se sinta compelida a não vandalizar.”
Fases do edifício
Em agosto de 2013, quando foi dada a largada para o início da empreitada, o espaço apresentava pisos, esquadrias e telhados danificados, além de muitas pichações – estas, já nem de longe visíveis depois que as paredes do interior foram pintadas de rosa claro. Na sala principal, foram conservados os ladrilhos da Construtora Pantaleone Arcuri. Onde já não havia mais o revestimento, a opção foi manter o cimento que passou a ocupar a área em período ignorado. “Nossa intenção é mostrar a evolução do patrimônio. Em alguma fase na história do prédio, ocorreu essa intervenção”, explica Lina Malta Stephan, arquiteta da Permear, ONG que presta assessoria para a construtora Ribeiro Alvim, à frente da reforma.
Da entrada, avistamos uma laje em formato abobadado, um detalhe que se destaca do restante do teto, que é forrado. “Ela é construída em tijolo maciço com vigas metálicas, diferentemente do que é feito hoje”, comenta o engenheiro responsável pela obra, Luiz Eneas. O engenheiro também conta que os tijolos estilizados das paredes exteriores tiveram que ser praticamente refeitos.
Quem conhecia as antigas instalações dos estudantes vai sentir falta do espaço onde até bem pouco tempo funcionava uma gráfica, com entrada pela Rua Floriano Peixoto. Ao lado, o prédio que servia de sede para o Sindicato dos Trabalhadores Técnico-administrativos em Educação das Instituições Federais de Ensino no Município de Juiz de Fora – MG (Sintufejuf), com acesso pela Av. Getúlio Vargas, também foi abaixo, sendo substituído por uma construção nova, de tijolos aparentes. Embora sua arquitetura seja diferente do conjunto, o espaço foi idealizado com a proposta de estar em harmonia com o edifício de fins do século XIX.
Sem surpresas
Aquela história de que durante a execução de um trabalho desta natureza algumas surpresas podem surgir não vale para a obra em questão. “Tivemos pequenas interferências por se tratar de reforma, mas mantivemos o projeto original”, ressalta Aristides, destacando que os gradis da lateral foram confeccionados seguindo o modelo já existente. Erguido em estilo eclético para abrigar a Inspetoria Municipal de Higiene, o prédio sofreu intervenções nas décadas de 1940, 1950 e 1980, conforme consta em dossiê arquivado na Divisão de Patrimônio Cultural, da Prefeitura de Juiz de Fora. A hipótese é que as mudanças tenham sido realizadas para atender a Faculdade de Engenharia, que também ocupou o espaço.








