O anjo mal-compreendido
Patas, e repito: patas. O ‘bom gosto’, a palidez, a correção, a cerimônia – não tem função na obra de arte. É preciso agredir. E essa agressão contínua é a marca de todo o meu teatro. A frase forte e polêmica disparada por Nelson Rodrigues ecoa no inconsciente coletivo, que acredita enxergar na produção do dramaturgo a figura de tarado e obsceno, que ele, intencionalmente, construiu. A pornografia em Nelson é mais fogo de artifício, é uma forma de transformá-lo em sucesso, em escândalo. Ele queria chocar mesmo – e conseguiu, observa Maria Lúcia Ribeiro, especialista na obra do autor. Assumidamente puro e avesso ao palavrão, o garoto pernambucano, que se sentiu um pecador por ter espiado pelo muro uma menina tomar banho no tanque, tornou-se o responsável por desnudar a hipocrisia de uma sociedade reprimida pela religião e forte código moral, mas possuidora de vigorosos desejos sexuais. Como ele mesmo disse, o sexo sempre o inquietou e o perseguiu como um grilhão.
A convite da Tribuna, atores, diretores, professores e críticos teatrais discutem a pertinência ou não do nu e do sexo em sua obra. Será que o teatro rodrigueano é possuidor de todo o erotismo a ele computado, ou as montagens que lançam mão desse recurso apelam para o sensacionalismo? O texto é apimentado, tem um conteúdo erótico, e isso faz com que você, ao ir assisti-lo, espere encontrar cenas picantes, afirma Dirceu Alves, crítico teatral da revista Veja. No teatro, quando se põe cena de nudez, normalmente, é justificável, pois é utilizada para provocar o espectador. O trabalho do Antunes Filho em ‘Toda nudez será castigada’, em São Paulo, tem mulheres com os seios de fora, que está totalmente dentro do contexto, complementa.
No ano em que completariam 100 anos do nascimento do ‘anjo pornográfico’ (23 de agosto de 2012), multiplicam-se, em todo o país, espetáculos que buscam homenagear ou pegar carona em sua visibilidade. Em Juiz de Fora, só neste segundo semestre, quatro encenações foram levadas a público: A vida como ela foi, montada pelo Teatro Obsessivo compulsivo (TOC), Valsa nº 6, que ganhou nova roupagem com os integrantes da GTMG Cia. Tralia, a leitura dramatizada de A falecida, realizada por integrantes do projeto Sesc dramaturgia: Leituras em cena, e A mulher sem pecado, apresentada pelo grupo Arlecchino, de Belo Horizonte.
É preciso refletir a obra de Nelson Rodrigues para entender que o autor fala da alma humana, que a nudez e as cenas de sexo são apenas sugeridas e não impostas. Recursos que devem ser utilizados com um propósito maior, conforme apontam, em unanimidade, os estudiosos. O erotismo e a sexualidade, perceptíveis na poética rodrigueana, muitas vezes perdem a própria potência em função da ausência de outras questões importantes, como a crítica social e as latências de matriz expressionista, salienta o professor de interpretação e improvisação da Unicamp, Matteo Bonfitto. O erótico acaba sendo explorado de maneira excessiva em muitos espetáculos somente para chamar público, atesta.
Na montagem A mulher sem pecado, da trupe da capital mineira, o diretor Kalluh Araújo optou por abrir a peça com Olegário, interpretado pelo ator Paulo Rezende, nu. Essa cena não é sugerida no texto, fui eu quem coloquei. Representa a abertura do nascimento da personagem. É como se ele estivesse nascendo de um parto, conta. Não pode ser considerada um atrativo, pois o Paulinho é um senhor, e nem tem um corpo maravilhoso, justifica, ressaltando que os escritos rodrigueanos o impactaram, mesmo sem ter a exigência da falta de vestimenta. É uma burrice abissal achar que as peças do Nelson têm que ter nudez. Achei que não era grotesco. Na minha percepção, havia uma assexualidade na cena. Contudo, se enxergasse a necessidade de pôr algo relacionado a sexo, colocaria tranquilamente. Isso depende do ato de criação. Anteriormente, à frente da Cia. Luna Lunera (Belo Horizonte), Araújo já havia posto Glorinha, de Perdoa-me por traíres, totalmente despida no palco. A montagem foi apresentada em Juiz de Fora, no Forum da Cultura, em uma das edições da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. Ali também não tinha nu, coloquei porque achei que era pertinente durante o encontro do tio com a sobrinha. Era um momento de despir a personagem.
Fazendo coro com Bonfitto, a atriz Lucélia Santos, que, de acordo com Nelson Rodrigues, protagonizou a melhor cena de curra da televisão brasileira, no filme Bonitinha, mas ordinária, defende que as obras de Nelson, se analisadas corretamente, passam ao largo de concepções sensacionalistas. Nelson sempre ofende, porque é afiado como um bisturi, destaca. Na peça, ‘A falecida’, por exemplo, não tem nu. O que é forte nela é a questão do câncer e da raiva, da tuberculose e da desatenção do marido, acrescenta a eterna escrava Isaura, que acabou de dar vida à suburbana Zulmira, numa temporada de A falecida, em São Paulo.
Para a atriz do Grupo Divulgação Márcia Falabella, se por um lado o nu vende ingresso, por outro pode provocar repulsa no espectador. Em uma cidade como Juiz de Fora, certamente, não é recebido da mesma maneira que em grandes centros. Quando montamos Todomundo – adaptação de José Luiz Ribeiro para a moralidade medieval Everyman- , o Zé ficava ficava de cueca, pois muitos juiz-foranos ainda têm resistência ao nu. Ao apresentarmos em Sabará, ele fez a cena da morte completamente despido. Havia uma justificativa, pois quando uma pessoa morre, antes dos ritos funerários, tem aquela hora em que fica só o corpo nu esperando para ser vestido, explica.
Reputação adquirida no cinema e na TV
As primeiras produções teatrais de Nelson Rodrigues datam dos anos 1940. Até 1978, publicou 17 peças, divididas pelo crítico e professor Sábato Magaldi em míticas, psicológicas e tragédias cariocas. Era um outro mundo, culturalmente, socialmente e politicamente. Existia um departamento de censura que cuidava para que chegasse ao público somente o que não contrariava a moral vigente. Por isso, as reações da época eram em cima de um outro contexto, diz o crítico teatral carioca, que escreveu por mais de 20 anos no Jornal do Brasil, Macksen Luiz. Segundo o especialista, a visão que reverbera de um Nelson pornográfico pode ser creditada ao cinema feito entre as décadas de 1970 e início de 1980, intitulado de pornochanchada. Dentro desse gênero, entre outros textos, A dama do lotação, Bonitinha, mas ordinária e Os sete gatinhos foram readaptados. Neste último trabalho, uma cena emblemática traz Regina Casé, na pele de Arlete, correndo nua ao redor de uma piscina, sob os apelos do deputado, interpretado pelo ator Maurício do Valle, que continha uma peça íntima da integrante da família Noronha entre os dentes. Os filmes, sim, eram apelativos. Utilizavam a obra do Nelson, aproximando-o de um tipo de montagem cinematográfica com viés comercial, destaca.
Na concepção de Bonfitto, a cultura da nudez, impregnada nos brasileiros, está ligada à herança da lógica de mercado imposta pela televisão, que busca alavancar os índices de audiência. A sensualidade passou a ser uma ‘moeda’ do mercado televisivo, absorvido também pelo teatro, em muitos casos. Não me refiro aqui ao caráter dionisíaco que permeia a origem do teatro no Ocidente, mas sim à sensualidade ‘de sambódromo’, desprovida de visceralidade e de sua força de vida em sentido amplo, assevera. Acho que isso é consequência de um automatismo perceptivo que se cristalizou, uma mistura de preguiça investigativa e de estratégia imediata de marketing. Espero que a obra de Nelson gere experimentações menos previsíveis e mais vivas nos próximos anos, conclui.









