Arte sem margens

Foto Marcelo Ribeiro/06-07-15
Morador do mundo”, escreveu Almir Barbosa, 45. “Se tudo fosse perfeito, não seria como nós pensamos”, redigiu Carlos Roberto Nogueira, 54. “Amanhã é um novo dia como todos”, acrescentou Alexandre Moraes, 20, que ainda completou: “Eu quero uma casa para sair da rua, mas eu espero com paciência”. Unidos pela linha, os finos tecidos, aos quais foram costurados pequenos bilhetes escritos à mão em papelão, guardam vozes por muito tempo silenciadas nas margens. Nos escritos, os assistidos pelo Centro Pop e pela Casa da Cidadania (serviços oferecidos numa parceria entre a Amac e a Secretaria de Desenvolvimento Social) se expressam na certeza de que, agora, serão ouvidos. Já não é mais tempo de “caras viradas”, de relentos, de duros abrigos, de vazios. “Rua, arte e fé”, exposição que inauguram nesta quinta, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, lhes oferece o que a vivência nas ruas lhes retirou: a dignidade.
Cidadão com casa
Quando a mulher saiu de casa com sua filha, Almir diz ter “perdido o juízo” e saído andando pelas ruas, de cidade em cidade. Em alguns momentos, acabou internado em clínicas. “Ao me deitar, ficava prestando atenção nas vozes que sempre ouvi”, conta. Passados quase quatro anos vagando, foi abordado pelo Centro de Referência Especializado para a População Adulta em Situação de Rua (Centro POP), depois transferido para a Casa de Saúde Dr. Aragão Villar, até chegar ao atual endereço, na Alameda Ilva Mello Reis 6001, onde funciona a Casa da Cidadania.
Faltava, porém, a Almir, uma identificação efetiva. Era urgente descobrir e ser eco. Em maio, conheceu o trabalho de Arthur Bispo do Rosário, interno por décadas da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Com as vozes que ouvia, Bispo do Rosário criou cerca de mil peças, tudo construído com materiais rudimentares, encontrados em seu cotidiano. Considerado um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, o homem diagnosticado paranóico-esquizofrênico, poeta dos acúmulos dos dias, é, assim, a inspiração para os próximos passos de Almir.
Da mesma forma, para Flávio Henrique Correia, 45, José Datrino, conhecido como Profeta Gentileza, também é a certeza de que as margens resultam em destinos de “cartão-postal”. “O que me chama atenção nele é que sempre conquistou e convenceu as pessoas a serem solidárias e sensíveis. Isso me comove. O mundo poderia ser assim”, comenta Flávio, que nas ruas sempre andou em grupos, protegendo e ajudando os companheiros de realidade. Gentileza, o andarilho que desenhou a capital fluminense com seus discursos de amor, também é fonte para Jorge Silva, o Cavaco, que vive a cantar músicas da folia de reis, tema do estandarte que produziu, semelhante aos que Datrino carregava em seus trajetos incertos.
‘Fé no homem’
Ao longo de um mês, 13 pessoas com vivências de rua, assistidas pelos dois equipamentos públicos, descobriram os universos artísticos de Bispo do Rosário e Gentileza. Nas oficinas de arte, desenvolveram suas próprias releituras das expressões mais íntimas desses dois homens, que, da marginalidade para as galerias, confirmaram o poder transformador do processo criativo. “A proposta é retomar as obras desses dois artistas, já que eles também têm uma relação com a rua. Houve muita identificação. O próprio material utilizado é do cotidiano, o que ajuda nessa sintonia”, aponta a coordenadora executiva da Amac, Maria Cláudia Siqueira Dutra.
“Pensamos muito nessa condição de ter que criar um mundo imaginário para suportar o real. A grande maioria das pessoas aqui tem família, mas encontra-se afastada. Conversamos sobre os sentimentos e de que forma esse trabalho pode nos modificar. O que, muitas vezes, não aflora no individual surgiu nesse processo coletivo”, comenta a pedagoga Josélia Maria Avelino, orgulhosa com os mais de 40 trabalhos prontos para serem expostos, entre esculturas e estandartes. “Eles não perderam a fé no homem, na vida. A rua eles já têm. Agora, querem melhorar, ter seu lugar na sociedade.”
Como Gentileza e Bispo do Rosário, esses homens e mulheres que se entusiasmam ao exibir suas criações – como João Luiz Paiva, 53, com sua almofada em forma de coração, com retalhos vermelhos e uma imagem de Nossa Senhora de Fátima ao centro – não têm a pretensão de ser artistas. Apenas criam, expressando para o mundo que estão prontos para novos olhares. Com o papelão que outrora serviu de cama, agora fazem desenhos, novos formatos para uma existência em nova forma.
RUA, ARTE E FÉ
Abertura dia 9 de julho, às 9h. De terça a sexta-feira, das 9h às 21h, e aos sábados e domingos, das 10h às 18h. Até 2 de agosto
CCBM
(Av. Getúlio Vargas 200 – Centro)








