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Força estranha


Por MAURO MORAIS

09/05/2013 às 07h00

Tradição é herança cultural, legado de crenças, de técnicas. Tradicional é tudo aquilo que permanece. Além de se conservar, o elogiado cinema francês também se renova. Existe aí uma força artística na história da França que supera até mesmo uma grande crise como a que acomete a Europa nos dias atuais. O vigor que se perpetua na jovem cena contemporânea é tão resistente quanto o passado glorioso da tela grande no país da Nouvelle Vague, movimento contestatório iniciado na década de 1960. Em mais uma edição, o Festival Varilux de Cinema Francês traz à cidade, de amanhã até o dia 16, 15 filmes representativos da produção atual, trazendo à cena atrizes prestigiadas, como Jeanne Moreau, Lea Seydoux, além de Juliette Binoche, Marion Cotillard e Monica Bellucci.

Segundo Cristina Villaça, diretora da Aliança Francesa em Juiz de Fora, uma das parceiras do evento, é importante observar a produção contemporânea francesa. "Ainda existe a ideia de que a Europa reserva a cultura no mundo. Apesar de toda a crise, ainda há muito interesse pela França", comenta, destacando a série de homenagens feitas pelos filmes da programação, que reverenciam desde a escultora Camille Claudel e o pintor Renoir, até o dramaturgo Molière, passando pelo escritor Victor Hugo. Exibidos no Cinearte Palace e no Cinemais do Alameda (confira programação), os longas serão exibidos em diversos horários e dias, com preços já praticados pelos espaços.

 

 

Sem crise e com diversidades

Reunindo um público cada vez maior, o cinema contemporâneo francês tem driblado a crise europeia e se fortalecido tanto como espaço de livre expressão, quanto como válvula de escape em um cotidiano rígido e opressivo. "O cinema é muitas vezes um refúgio para a crise. Além disso, o estado de incerteza dá muita condição para a ficção", comenta o curador do festival no Brasil Christian Boudier. De acordo com ele, o país europeu possui, atualmente, diversos mecanismos para conferir autonomia a sua produção cinematográfica.

"A datilógrafa", de Régis Roinsard, que conta a história da jovem Rose Pamphyle, cujo dom de datilografar em alta velocidade assustava os anos 1958, já ultrapassou a marca de um milhão de espectadores, e, na seleção do festival é um dos longas mais atraentes, segundo Boudier, que destaca a linguagem comercial do filme. Outro destaque, elogiado pela crítica especializada, é "Aconteceu em Saint-Tropez", de Danièle Thompson, com Monica Bellucci no elenco. A comédia conta a história de dois irmãos em pé de guerra, que se veem mais conflitantes quando a esposa de um morre justamente no dia do casamento do filho do outro.

Já "Ferrugem e osso", dirigido por Jacques Audiard, uma das sensações do Festival de Cannes de 2012, retrata o encontro de Ali e Sthéphanie. Quando a mulher se envolve num acidente e perde as pernas, a relação ganha contornos mais afáveis, mas, ainda assim, sem nenhuma compaixão. Apontado como uma metáfora aos tempos de crise, o longa é um dos mais inovadores, em relação à linguagem, no recorte feito pelo festival brasileiro. Para o jornalista e escritor Luciano Trigo, em sua página na internet "Máquina de escrever", "a Nouvelle Vague foi um fenômeno que, em termos de produção que chega ao público das salas de cinema, não deixou herdeiros dignos de nota. Isso não significa de maneira alguma que os filmes franceses contemporâneos sejam inferiores".

"Não há como fazermos revoluções a cada dez anos. Esse festival tende a mostrar que o filme francês não é só o cabeça, a Nouvelle Vague", analisa Boudier, certo de que a cena hoje é completamente diferente. "Hoje o cinema francês é bem diversificado. Há o filme autoral e o mais voltado para o grande público. Atualmente vários realizadores tem a chance de existir", completa, destacando que o Varilux é uma forma de jogar luzes para produtos que ainda deverão ser lançados no país, servindo como vitrine de um conjunto de obras que ainda não transita livremente pelas salas brasileiras.