Ouça agora

‘Todos os caminhos que percorri davam na engenharia’


Por RENATA DELAGE

09/05/2012 às 06h00

A engenharia não é complicada, as pessoas é que são complicadas. É preciso começar pela essência para termos o domínio da coisa. Feito isso, acabou. A postura firme e tranquila, adotada, sobretudo, na iminência de desastres pelo engenheiro e professor Renato José Abramo, 77 anos, sempre intrigou aqueles que o rodeiam. Nasci engenheiro. Isto é um defeito de fabricação, não é escolha pessoal. Já nasci com essa inclinação, e todos os caminhos que percorri davam na engenharia, constata.

A trajetória do engenheiro acionado há mais de 15 anos nos momentos críticos vividos na cidade – tragédias provocadas por intempéries ou falhas humanas – é o tema do livro O engenheiro que gosta de ensinar, do jornalista Geraldo Muanis, que será lançado hoje na Faculdade de Engenharia da UFJF. Dos seis livros publicados por Muanis, o trabalho sobre a vida de Abramo aparece como o primeiro biográfico do jornalista, que trabalhou durante 17 anos em redações de jornais da cidade, como a Tribuna.

A obra é a primeira da série Engenheiros notáveis de Juiz de Fora, projeto idealizado pelo Clube de Engenharia de Juiz de Fora com o objetivo de resgatar e homenagear os profissionais que construíram – nos diversos sentidos da palavra – a história da cidade e da região. A escolha do nome de Renato Abramo para iniciar a jornada foi unanimidade na instituição, segundo o autor. Abramo é o grande ícone da categoria, exemplo de competência, ética e modéstia. Ele sempre negou ser remunerado pelos serviços prestados à Defesa Civil, conta o biógrafo, justificando que o engenheiro acredita estar apenas devolvendo à sociedade tudo o que recebeu.

Anjo da guarda

Os profissionais de engenharia e de arquitetura, tanto projetistas quanto construtores, têm o professor Abramo como o ‘anjo da guarda’. Muitas coisas que imaginamos, só colocamos em execução após consultá-lo, escreve o secretário do Clube de Engenharia – e ex-aluno de Abramo – Luiz Cezar Duarte Pacheco. O título de anjo da guarda foi citado por mais de um entrevistado do biógrafo durante a elaboração do livro, que traz o depoimento de 15 colegas, ex-alunos e amigos do engenheiro.

O trabalho de Abramo é silencioso e fundamental. É sempre ele que procuram para as decisões mais importantes e urgentes, independentemente de questões políticas. Inúmeras vezes, ele foi retirado da cama às 4h, debaixo de chuva intensa, e não recebeu os créditos nem cobrou nada por isso, avalia Muanis. Contudo, Abramo sempre contestou o posto de mestre. Quando você resolve a dificuldade de uma pessoa, ela considera que você é um mestre, mas você está apenas passando para ela um pouco do que aprendeu na vida. Na verdade, nós não somos mestres de nada, diz.

Fenômenos pitorescos

Além de resgatar as lembranças de quando as disputas eram acirradas entre as faculdades de engenharia e medicina nos Jogos Universitários, a biografia relembra alguns casos que contaram com o auxílio de Abramo para serem solucionados, como o episódio da benzeção no Clube Sírio e Libanês.

A reclamação vinha dos frequentadores do prédio situado na Avenida Rio Branco, que diziam que a estrutura balançava todos os dias, às 20h. Logo, Abramo estranhou o que lhe era contado, já que quando há algum fenômeno dessa natureza, não acontece com horário marcado, pois fenômeno não tem relógio, refletiu. O professor foi ao local averiguar e, conforme escreve Muanis, quando os ponteiros acusaram a hora fatal, o prédio começou a balançar.

O engenheiro, intrigado, visitou andar por andar na expectativa de encontrar a resposta para o ocorrido e, assim, matou a charada. Em uma das salas do edifício funcionava uma academia de capoeira. O pessoal marchava ao som dos berimbaus, compassadamente, dava uns tantos passos à frente, parava e abruptamente dava de marcha a ré, conta o engenheiro. Estavam, sem querer, mexendo com a frequência natural do prédio, que obedecia àqueles impulsos e ia aumentando a amplitude do movimento, porque todos os seus pilares eram retangulares, explica. Bastou a Abramo, embasado em seus conhecimentos de engenharia, mudar a posição da dança, para deter o movimento do prédio. A explicação dada pelo professor aos frequentadores do local pegou todos de surpresa. Fiz uma ‘benzeção’ lá, e está resolvido o problema. Ele quase foi canonizado, brinca Muanis.