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Com o mesmo gás


Por RENATA DELAGE

09/03/2013 às 07h00

Afinal, os fãs dos Titãs têm sede de quê? "De cultura pop, de riffs dançantes e letras políticas. De canções estranhas, interessantes e inovadoras. De atitudes surpreendentes e não programadas. De catarse e transcendência." A resposta de Tony Bellotto, digna de um Titã – ou de uma letra de suas canções -, resume os anseios do público fiel à banda, que chega aos 30 anos com espírito renovado. "O gás está ótimo", prossegue ele, em entrevista à Tribuna. Cinquentões com o frescor dos 20 e poucos anos. "’Old indians never die’ diz um famoso anúncio de uma marca americana de motocicletas", dispara o líder da banda, uma das atrações da festa "Partiu", realizada pela Casa Cheia hoje.

O show "Novas instalações" leva ao público as novas composições dos roqueiros, reafirmando a vocação dos músicos para experimentações. Segundo Bellotto, a aceitação vem sendo boa. "Equilibramos as novidades com os sucessos, então o público fica satisfeito e numa vibração boa para assimilar as novidades", conta. As canções novas, como "Fala aí Renata", "Morto vivo", "Tradição" e "Duas torres", entre outras, mesclam elementos da música brasileira mais essencial – guitarradas, bandas de pífaros e música do Xingu – com a tradicional pegada cosmopolita e roqueira.

Tais influências, contudo, sempre encontraram brecha no repertório dos Titãs. "’Cabeça dinossauro’ tem como base harmônica e rítmica um ritual dos índios do Xingu – fizemos isso em 1986! – e também o disco ‘O blesq blom’ é muito influenciado por música brasileira de raiz", ressalta Bellotto.

No fim do último ano, os fãs puderam presenciar um show histórico dos Titãs em São Paulo. Arnaldo Antunes, Nando Reis e Charles Gavin se juntaram a Tony Bellotto, Paulo Miklos, Branco Mello e Sérgio Britto para relembrar clássicos como "Marvin", "Homem primata" e "Sonífera ilha". Os sete Titãs no palco, juntos, comemoraram o reencontro e as três décadas de sucesso, mas também homenagearam o oitavo membro da banda, o guitarrista Marcelo Fromer, morto em 2001. "Esse show é para ele", anunciou Britto, antes de "Epitáfio", em um dos momentos mais emocionantes da noite. Por hora, Bellotto é categórico ao dizer que não há planos para unir novamente os músicos em um mesmo palco. "Aquele foi um momento único, e assim deve ser lembrado."

Bellotto reforça ainda a ideia defendida em entrevista recente por Miklos, de que não acredita "nesse papo de que você cresce e vira solo". Para eles, ser grupo é um outro barato. "Barato de banda. É uma química muito particular. Você se estressa às vezes, se decepciona e se frustra outras tantas, mas o resultado final do trabalho é sempre superior ao que você pode fazer sozinho", conclui.

Os dois últimos anos, marcados pela volta de Toni Garrido aos vocais, também foram como os primeiros para o Cidade Negra, segundo o próprio vocalista. "Estamos com o mesmo gás", garante Garrido, que também conversou com a Tribuna. A banda também se apresenta no La Rocca neste sábado e traz à cidade os novos hits do CD "Hey, afro!". "A música é movida por um bom encontro e por uma energia boa. É isso que estamos sentindo. Dá vontade de ir para estrada, compor, trocar energias musicais", diz.

Para ele é tempo de celebrar o novo álbum e a nova fase da carreira, baseada em decisões maduras. "Mais importante que parar foi a decisão de voltar. O que não estava bem resolvido, pessoalmente, foi perdoado. Está tudo em paz", afirma o vocalista com voz serena e bem-humorada. "Hey, afro!", gravado no Rio de Janeiro e mixado na Jamaica (berço do reggae), traz aos fãs 13 faixas, entre composições próprias e releituras.

O álbum passeia por todas as vertentes do reggae que influenciaram o grupo. Também apresenta novas roupagens no som, como o reggae havaiano. "Estamos sempre ouvindo muita coisa. A tradição sempre nos move, mas também temos muita admiração por novas tendências, novos artistas", reflete Garrido. "No final das contas, somamos tudo. Nossa própria cultura, felicidades, angústias."

O que também permanece intacta, segundo o cantor, é a motivação de abordar temáticas como o amor e a conscientização política e social. "Como ficamos um bom tempo sem gravar, estávamos ansiosos para falar de muitas coisas que temos vontade, muitas reclamações para observar. Fazemos sempre canções que falam das emoções que estamos vivenciando", conta Garrido, destacando o discurso forte e até mesmo agudo do novo repertório.

Enquanto a turnê "Hey, afro!" não chega aos palcos brasileiros, Toni, Bino e Lazão apostam em mesclar o novo trabalho com os sucessos consagrados, como "Onde você mora", "Pensamento" e "A sombra da maldade". "Levaremos um tempinho para conseguir apresentar a turnê da maneira como a planejamos. É sempre interessante poder ver a reação do público, prepará-lo para a nova turnê, e também tocar canções que a galera já conhece de cor."

Sustentabilidade é a palavra de ordem da nova turnê do Cidade Negra. Para fazer a estrutura desejada ganhar vida, será usado apenas biocombustível. Além disso, serão distribuídos ao público sacolas plásticas e copos biodegradáveis, produzidos por uma cooperativa parceira da banda. "Está tudo ligado ao nosso bem-estar. Precisamos começar a ter hábitos saudáveis. É como cantamos na música, ‘a favor da comunidade’."

 

CIDADE NEGRA

E TITÃS

 

Sábado, às 23h30

 

La Rocca

(Av. Deusdedit Salgado 2.500)