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Minas imune ao tempo


Por RENATA DELAGE

08/11/2012 às 07h00

Revisitar intensamente as obras de Dnar Rocha – ou simplesmente Dnar – foi tão doce quanto triste. Separando fotos, quadros, documentos e esboços, a viúva do pintor, Aída Célia de Andrade, pôde redescobrir traços peculiares ao mundo do artista. "Cada vez que se olha uma obra do Dnar, descobre-se nela algo diferente. Seu trabalho não é estático. A cada leitura, uma revelação: cores, pinceladas e novas formas parecem saltar-nos aos olhos", diz. Os 80 anos de nascimento do pintor – que seriam comemorados neste ano – seguem sendo lembrados com a abertura hoje da exposição "Dnar Rocha – 80 anos", no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM).

Com curadoria de Daniel Rodrigues e Tamires Fortuna, a mostra estampará a Galeria Arlindo Daibert e será composta por pinturas e desenhos pertencentes ao acervo da viúva do artista plástico. "A proposta da exposição é fazer uma releitura da trajetória artística de Dnar, passando por suas diversas fases", explica Rodrigues.

Na noite também será lançado o livro "Simplesmente Dnar", coletânea organizada por Aída. A reunião de diversos trabalhos do pintor em uma única publicação nos permite, segundo Rachel Jardim, "folhear uma Minas que está impressa em nossos espíritos, Minas que permanece eterna e imune ao tempo". "A Minas de Dnar exprime essa tragicidade, contida em suas montanhas de pedra, em sua terra arroxeada misturada com minérios, em seu ouro escondido e cobiçado, em sua procura por algo irrevelado, e sua aproximação com a morte", descreve a escritora em texto de apresentação do livro.

"O Dnar era, acima de tudo, simples", reflete Aída. E foi justamente a característica mais marcante do artista, falecido em 2006, que deu origem ao título da obra dedicada a ele. "Simplesmente Dnar" levou exatos nove meses para ser concebido. "Foi um verdadeiro ‘parto de ternura’", brinca a viúva, citando o trecho da canção que, para ela, sintetiza os anos de convivência com o marido pintor, "A paz do meu amor".

"A arte foi a única coisa capaz de mudar o meu destino", revelou certa vez Dnar. Decifrar em 140 páginas – que abrigam mais de cem obras – o artista, conhecido por sua participação marcante na escola da Associação de Belas Artes Antônio Parreiras (ABAAP) e pelas placas de acrílico leitoso que compõem, desde 1992, o mosaico no teto da Galeria Pio X, foi uma árdua tarefa assumida de maneira independente por Aída. "Além das obras que já tinha em meu acervo, recebi telefonemas de colecionadores, amigos, e fomos acrescentando todo esse material que chegava", conta.

Já na capa, o autorretrato pertencente à coleção de Nívea Bracher, realizado por Dnar em 1969, foi cedido ao projeto pela artista. "Dnar é irmão nosso, da família", escreve Carlos Bracher, em texto também dedicado à coletânea. "E a história dele confunde-se com a nossa própria no tempo, no paralelismo de vivermos as mesmas instâncias, as mesmas sondas e louças, as sendas e artes de um trajeto uníssono em evocações comuns. (…) Crescemos coligados uns aos outros numa espécie de sociedade de vivência a múltiplas mãos", escreve o pintor juiz-forano radicado em Ouro Preto, sobre o parceiro de Tabuleiro radicado em Juiz de Fora.

Três seções dividem a obra, que tem projeto gráfico assinado por Carlos Alberto Reis e maioria das reproduções fotográficas do filho de Aída, Vinícius Andrade Lopes, e de Lique Gávio: "Figuras", "Natureza morta" e "Paisagens". Pessoas conhecidas e vistas pela TV, porcelanas, tigelas, terrinas, vasos com frutas e flores, montanhas, estação de trem. "Ele observava tudo, e tudo virava arte", constata a viúva. Até mesmo os momentos mais íntimos do casal são retratados pelo lirismo do autor. Em "Saindo do banho", de 1999, Dnar desenha a esposa enxugando os pés. "Sempre com traços fortes e cores interessantes."

As 20 páginas finais de "Simplesmente Dnar" foram dedicadas ao que Aída intitulou como "Espaço memória". Fotografias, mensagens de amigos, retratos de Dnar elaborados por outros artistas, bilhetes endereçados à esposa, entre outras memórias compõem o espaço. "Temos que pensar que na arte não existe um crepúsculo. A arte é sempre um amanhecer. Meu trabalho está em aberto. Sou um pintor cuja história está em aberto", disse Dnar, como se soubesse da continuidade de sua obra.

O início das comemorações aos 80 anos de Dnar e o começo da perpetuação de seu trabalho se deram com o Centro Cultural Dnar Rocha (CCDR), inaugurado em julho deste ano, na antiga Estação Mariano Procópio, restaurada para receber o espaço. "As pessoas como mais de 30 ou 40 anos conhecem, pelo menos, alguma faceta da obra do Dnar, mas os jovens, não", avalia Aída. A viúva prossegue em sua missão de levar a arte e a memória do artista se dispondo a falar a crianças e jovens de instituições de ensino da cidade. "Posso compartilhar o que sei sobre a obra e a vida dele, além de apresentar slides e levar alguns quadros representativos, quando as escolas e universidades acharem interessante", diz.

Ainda segundo Aída, está sendo recolhido material para a elaboração de duas novas publicações, ainda sem data para chegar ao público, em função dos incentivos necessários. Uma delas trará uma compilação de desenhos do artista em preto e branco. A outra assumirá um tom mais romanceado. "Fui escrevendo muitas coisas ao longo dos anos, descrevendo nosso dia-a-dia. Quero mostrar ao público o Dnar que eu conheci", conclui.

SIMPLESMENTE DNAR

Lançamento do livro hoje, às 20h