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Críticas ao país: Luiz Ruffato desabafa na Feira de Frankfurt


Por Tribuna

08/10/2013 às 19h23

Após lançar "Domingos sem Deus", título que encerra a pentalogia "Inferno provisório", em 2011, Luiz Ruffato fez suspense quanto à continuidade de sua temática. Em entrevista à Tribuna, em fevereiro desse ano, o escritor foi enfático: "Quando decidi, em 2003, que iria escrever esses cinco volumes, eu sabia quando ia começar e quando iria parar. Não sabia delimitar o tempo, mas tinha a certeza de que, terminado esse ciclo, eu não queria mais trabalhar com esse tema". Contudo, na tarde desta terça, em Frankfurt, na Alemanha, o escritor mostrou que ainda se volta ao que o Brasil insiste em não enxergar. Em seu discurso na abertura da participação brasileira na Feira do Livro de Frankfurt, Ruffato não se inibiu diante das autoridades presentes e discursou, revelando um país contraditório sem meias palavras.

Ao lado dos amigos escritores, provenientes de uma polêmica lista de convidados divulgada pelo Ministério da Cultura, representado pela ministra Marta Suplicy, o escritor desabafou após dez minutos de leitura de um texto de aproximadamente três laudas. Ovacionado pelo público e por parceiros conterrâneos, Ruffato também viu as muitas vaias que se seguiram ao discurso do vice-presidente Michel Temer.

"Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças", iniciou, para em seguida falar da necessidade de se pensar no outro, ação ainda pouco vista pelas terras tupiniquins.

Abordando a história da chegada dos portugueses ao Brasil, Ruffato disparou: "Nascemos sob a égide do genocídio". Relacionando o passado com o presente, o escritor se rendeu aos números e falou sobre os altos índices de criminalidade, além da pouco tolerância do brasileiro. Apesar de elogiar programas como o bolsa-família, o jornalista por formação (ele graduou-se na UFJF) não poupou críticas à situação política e social em que vive: "Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns".

Justificando sua escolha pelas palavras, o cataguasense radicado em São Paulo concluiu seu discurso falando de sua própria vida: "Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade".

 

Confira o discurso, divulgado na página oficial do Facebook do autor, na íntegra.