Ser alternativo virou padrão
A moda hoje é ser independente. No mundo da música, não é diferente. Durante a semana, o Festival Sem Paredes reuniu uma enxurrada de atrações artísticas, tentando alcançar o posto de marco do cenário independente local. Hoje e amanhã, a Concha Acústica da UFJF vai receber uma gama de bandas e músicos (ver programação em http://festivalsemparedes.wordpress.com/programacao/), cujo filão é não estar ligado à iniciativa privada ou pública para acontecer. De forma resumida, trata-se do famoso "faça você mesmo".
"As bandas independentes não ganham dinheiro, mas têm prestígio. As gravadoras, por exemplo, querem bandas que rendam dinheiro, por isso ficam com aquelas que têm mais potencial. Elas (gravadoras) escolhem o artista, investem nele e, caso não tenha retorno quase que imediato, encerram o contrato", ressalta W. Del Guiducci, frontman da banda Martiataka, responsável pela abertura da sequência de apresentações do Sem Paredes hoje, às 15h, ao lado de Fabrício Barreto (guitarra), Thiago "Jim" Salomão (baixo), Victor "Frango" Fonseca (bateria) e Fausto Coimbra (guitarra). Hoje, ainda sobem ao palco as bandas Mekanos, Silva Soul, Acidogroove, El Efecto, Dibigode, Rael da Rima e Garotas Suecas. Amanhã, será a vez de Lumière, Glittermagic, Suíte Para os Orixás, Matilda, Aeromoças e Tenistas Russas, Quinteto São do Mato, Do Amor, Black Sonora e BNegão.
Hoje em dia, segundo Del, é possível trafegar neste mercado independente e sobreviver dele, lançando disco e realizando shows, o que, tempos atrás, não se conseguia. "Estamos vivendo num cenário contemporâneo em que, inclusive, algumas apostas tornam seus produtos indigestos para o mercado", pondera. "Numa dessas, tem grupos que não alcançam um sucesso pop estrondoso, mas se mantêm sob a égide da independência", afirma o músico, cujo próximo – e terceiro – lançamento, independente, está em fase de produção.
Ser independente não impede que haja patrocínio, o conceito é o mais importante. Para o jornalista e crítico André Mesquita, o que é independente e transgressor pode virar mainstream nas mãos dos marqueteiros e dos engenheiros das "novas sensações" da indústria musical. "Não se trata de afirmar apenas que o ‘independente’ está na moda, mas saber como e porque este processo acontece e quais são as nossas escolhas para continuar fazendo as coisas de forma justa e honesta", define, por e-mail. "O grunge ou o chamado ‘som de Seattle’ foi um belo exemplo de como o ‘independente’ virou, logo depois, ‘hegemônico’ na cultura comercial, por exemplo. O caso é que qualquer manifestação subcultural, queira ou não, corre o sério risco de ser ‘recuperada’ (como diziam os situacionistas nos anos 60), ou melhor dizendo, cooptada. O capitalismo não vende conformismo, mas ‘diferença’. Grafiteiros contratados pela Nike para uma nova campanha de tênis, emocore chegando à Rede Globo, comerciais tipo guaraná Kuat com gente ‘descolada’, ações de marketing de guerrilha etc", pontua.
Mudança de foco
Uma banda que viabiliza seu trabalho sem gravadora quer produzir não para o que o mercado dita, mas para o que o segmento cultural exige. Canastra, Walverdes, Rock Rocket, Wander Wildner, Fábio Góes, Mundo Livre, Vanguart, Lucy And The Popsonics, Mallu Magalhães, Cachorro Grande, Autoramas e Matanza são alguns exemplos dessa seara.
O produtor Aluizer Malab revela, em seu site, o interesse pelas bandas que se destacam no cenário. "Hoje, há uma grande sintonia com o que está acontecendo em tempo real. Quando você tem acesso ao material do grupo e é bom, bem cuidado, você pesquisa mais e acaba descobrindo seu reduto. Tenho tido surpresas agradáveis a todo momento. Ao contrário do que tem acontecido com as bandas lançadas pelo mercado, que tocam nas rádios. Não está aparecendo nada novo", observa.
Vencedora da categoria aposta MTV em 2008, a banda Garotas Suecas, além de independente, é conhecida pela ousadia de misturar rock, funk, soul e MPB, como mostrarão, mais uma vez, por aqui. Incumbida de encerrar a bateria de shows do Sem Paredes hoje, a trupe, formada por Guilherme Saldanha (voz), Tomaz Paoliello (guitarra e voz), Irina Bertolucci (pianos e voz), Perdido (baixo e voz), Nico Paoliello (bateria e voz) e Sergio Sayeg (guitarra), tem na produtora Pamela Leme a garantia de "total independência". "Não é moda, é consequência das mudanças que a indústria fonográfica sofreu nos últimos anos, motivada especialmente pela difusão da internet e pela forma como as pessoas descobrem, consomem e compartilham música hoje em dia", pondera. "Ser independente pode ser uma opção, claro. Mas é também uma condição inevitável para muitos artistas numa época de descentralização das grandes gravadoras."
O cantor e compositor Mário Costa, radicado em Los Angeles (EUA), por e-mail, informa que é muito mais fácil publicar, espalhar, contrabandear, mas muito mais difícil se destacar. "A divulgação online é um exercício de agulha no palheiro. As gravadoras estão tentando virar agentes monopolizadores, com seus contratos 360º. Ou seja, querem o CD, o DVD, a edição musical e o management da carreira do artista. A razão é óbvia, o mercado de discos não existe mais", assegura o músico, que vem ao Brasil nos próximos dias 24 e 25, para lançar o CD "Total unknown" no Teatro Café Pequeno, no Rio.
Para não perder espaço frente ao circuito independente, as gravadoras, segundo Pamela, pararam de investir muito dinheiro na produção de música e estão procurando desesperadamente novos modelos de negócios para se adequar a esse novo cenário. "Hoje, por exemplo, elas investem muito mais em marketing que em produção, já que muitos artistas têm seus próprios estúdios. Elas também estão apostando mais em artistas segmentados, de olho no consumidor que quer qualidade."
Quanto à reviravolta gerada dentro do que alguns consideram como o "esquemão" das gravadoras, Mário Costa acredita que milhares de outros "esqueminhas" vêm sendo criados. "No caso de artistas consagrados como Radiohead e Prince, não existe mais vantagem em pertencer a um ‘label’ (selo). Eles utilizaram a máquina quando ela era poderosa e corporativa e já são tão conhecidos que, como independentes, lucram muito mais vendendo diretamente para o consumidor ou fazendo contratos apenas de distribuição", cita. "O talento ainda é o que vale. Se o seu trabalho, mesmo que independente, tiver apelo suficiente para criar um grupo de fãs devotos, este é o primeiro passo da sua carreira profissional. Mas a verdade é que a indústria ainda não achou uma alternativa sólida sem a máquina das gravadoras."









