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Valor em conjunto


Por RENATA DELAGE

08/09/2013 às 07h00

Valor inestimável. A adjetivação é recorrente no discurso de pesquisadores, curadores, professores e críticos de arte em suas observações sobre a relevância do acervo cerrado no Museu Mariano Procópio. Coleções raras, dispostas lado a lado nas salas históricas, mas invisíveis à sociedade desde o fechamento da instituição, em 2008. Na tentativa de tornar os laços de pertencimento entre juiz-foranos e obras, ainda que de forma sutil, mais estreitos, a série O Museu é nosso, trará, a cada domingo, uma peça de destaque do acervo na seção Conheça o Mariano Procópio (ver quadro), em meio ao universo de cerca de 53 mil obras abrigadas pelo prédio histórico. Objetos singulares por sua relevância artística, histórica e cultural, mas que são, sobretudo, valiosos por serem parte de um conjunto valioso.

O Museu Mariano Procópio é um caso raro, pois ele é, em si, uma coleção. Diferentemente dos museus nacionais, compostos por coleções isoladas, seu acervo é uma coleção formada por uma família, que chega aos dias de hoje com a mesma feição proposta pelo seu idealizador, destaca o diretor do Museu Imperial, de Petrópolis, Maurício Ferreira, resgatando um passado erguido por Mariano Procópio e transformado pelo apreço de seu filho, Alfredo Ferreira Lage, pelas artes.

Inúmeras linhas de pesquisa, estudo e reflexão podem ser desenvolvidas a partir desse acervo, como, por exemplo, a história do gosto e do próprio colecionismo no Brasil, prossegue o diretor da instituição petropolitana, cujo acervo é, a todo tempo, relacionado ao do museu juiz-forano. Há uma complementaridade dos acervos, que têm ênfase não só no período monárquico, mas também no período de formação do Estado brasileiro independente. O Museu Imperial, o Mariano Procópio e o Museu Histórico Nacional reúnem a mais representativa coleção de objetos de arte e históricos do período, avalia Ferreira.

Para a museóloga e ex-diretora do Museu Imperial, Maria de Lourdes Parreiras Horta, há que se desmitificar a ideia de que o Mariano Procópio seria o segundo mais relevante em relação ao acervo imperial. O acervo do Mariano Procópio é tão importante quanto o do Museu Imperial, assevera. Com exceção das joias imperiais, sua imensa coleção de mobiliário, prataria, porcelana, fotografias tem a mesma qualidade e é tão preciosa quanto a de Petrópolis. Entre as relíquias, estão três trajes de dom Pedro II, usados pelo imperador nas cerimônias de coroação, maioridade e casamento.

Apesar de Alfredo Ferreita Lage ser monarquista, o acervo apresenta essa dualidade entre Império e República. A figura de Tiradentes, mártir da liberdade, aparece em várias obras, ressalta o diretor-superintendente do Museu Mariano Procópio, Douglas Fasolato.

O Museu Mariano Procópio, na visão do historiador e crítico de arte Carlos Roberto Maciel Levy, representa uma época de grandeza do Brasil que não existe mais. Mas que poderia existir, se conservassem museus espetaculares, em todos os aspectos, como esse. No momento, o Brasil tem as elites mais burras que já teve ao longo de toda a sua história, dispara.

Grimm, Parreiras, Vinet, Américo. Seria impossível, segundo Levy, especialista em pintura clássica do século XIX, destacar apenas alguns nomes e obras representativas no que se refere às pinturas guardadas pelo museu juiz-forano. Uma das obras de maior destaque do acervo, Tiradentes supliciado, de Pedro Américo, é, para o especialista, uma das pinturas mais audaciosas de todos os tempos da arte brasileira. É uma das obras mais reproduzidas do acervo, presente em livros de história, catálogos de arte, assim como em livros didáticos, completa Fasolato.

Para Levy, não restam dúvidas a respeito da escolha da família de João Batista da Costa, um dos maiores paisagistas brasileiros, em doar boa parte de suas obras ao museu, conferindo a ele uma coleção ímpar do artista. Ele foi, por décadas, diretor da Escola de Belas Artes. Por que não doar essas obras a outras instituições? Porque tinham certeza que o Museu Mariano Procópio possuía um equilíbrio perfeito entre arte, cultura, lazer, ambiente, conteúdo.

Ainda em meio ao vasto acervo imperial da instituição, que se estende por todos os setores, encontram-se álbuns e coleções fotográficas. Destaco a expressiva coleção de retratos da família imperial, que já serviu de fonte de pesquisa para diversos trabalhos, inclusive para o catálogo Família imperial – álbum de retratos (2002), acrescenta Fátima Argon, pesquisadora do Museu Imperial. Durante a sua organização, a coleção do Mariano Procópio foi fundamental na descrição das imagens, trazendo elementos novos capazes de esclarecer, corrigir e ampliar as informações.

A vida do imperador é ainda mais presente nas buscas pelo arquivo histórico e pela biblioteca da instituição. Documentos, exercícios de caligrafia, correspondências, publicações do governo revisadas pelo próprio imperador são apenas alguns dos arquivos conservados por séculos. Arte é conhecimento, não é só sensibilidade, aponta o pesquisador e professor de história da arte de universidades do Rio de Janeiro, como Uerj, PUC e UFF, Elmer C. Corrêa Barbosa, que, durante a infância, morou em Juiz de Fora e foi frequentador assíduo do museu. Na escola, trabalhos sobre o prédio e seu acervo e visitas ao local eram frequentes, estabelecendo uma relação sólida e lembranças agradáveis da construção, das jabuticabeiras, dos cisnes, das obras de arte.

Mobiliário raro no acervo

Reunir em um mesmo local acervo tão expressivo do mobiliário brasileiro do século XVIII é algo extremamente raro, conforme o historiador, antropólogo e curador de coleções particulares Carlos Eduardo de Castro Leal. Muito do que se encontra por aí como mobiliário da época, na verdade, não é, afirma o especialista. Renegados até as primeiras décadas do século XX, os móveis acabaram virando moda, o que fez com que muitos exemplares não legítimos aparecessem. A verdade é que muito pouca gente podia adquirir os tais móveis, diz.

Como uma das peças mais importantes da coleção, na opinião de Leal, encontra-se uma papeleira, esculpida em jacarandá, de dom José, vinda de Portugal. O estilo de dom José também é exibido na cadeira dourada que pertenceu a dom João VI e que teria sido o trono do cerimonial do beija-mão do monarca.

A arte tida como estritamente decorativa, idealizada apenas para esse fim, também merece destaque, segundo o curador. Estamos falando do que havia de melhor na Europa. Não são objetos que vieram para integrar essas coleções anos depois. Eles foram importados na época de sua confecção, pontua. Entre as preciosidades, estão opalinas – peças de vidro colorido – produzidas na Europa por volta de 1830, porcelanas francesas também do século XIX – a exemplo de um par de vasos nos quais são retratados os pais da medicina -, um conjunto de porcelanas da Cia. da Índias, com destaque para a terrina (uma sopeira em formato de cabeça de javali), uma moringa que pertenceu ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em estilo art nouveau, da época da fundação do prédio. O museu tem em seu acervo uma tigela valiosa, que o imperador da China enviou de presente a dom João VI, lembra o especialista, destacando que esta seria um dos únicos serviços chineses marcados com o brasão português, algo incontestável em relação a sua legitimidade.

Infelizmente, cultura para o brasileiro é espetáculo. Algo efêmero, que se esvazia assim que acaba. Não se valoriza o patrimônio, ressalta o professor Elmer Barbosa. Conservar um acervo não dá voto. Pintar as paredes, trocar o telhado e pendurar logo os quadros não é preservar, insiste. Muitos dos chamados espaços culturais, que são inaugurados pelas autoridades, acabam se tornando cabides de empregos, não se atualizam, porque não são orçados.

O problema do museu tem que ser considerado como local, deve ser de responsabilidade do estado, com recursos diretos e não enrolações, acredita o historiador Carlos Roberto Levy. Qualquer capital, qualquer estado gostaria de ter um museu como esse. Não há dúvida de seu valor, nem de sua capacidade de elevar todos os setores da cidade. Cultura, enriquecimento e erudição são fundamentais às novas gerações, podendo compensar, inclusive, deficiências do sistema educacional.

A museóloga Maria de Lourdes Horta destaca como inadmissível o fechamento do local a visitações. Não importa o quão dedicado um grupo seja em relação ao acondicionamento de uma coleção. Um acervo fechado está fadado a se deteriorar.