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Niemeyer de todos os cantos


Por JÚLIA PESSÔA

07/12/2012 às 07h00

"Arquitetura é isso – invenção." Simples, leve e singular – sem perder a ternura jamais -, a definição de Oscar Niemeyer sobre seu trabalho reflete a própria personalidade do arquiteto, que deixou o mundo e suas curvas, tão retratadas por ele, na quarta-feira (5), aos 104 anos. Dono de um traço característico, avesso às linhas "duras e retas", em suas próprias palavras, Oscar acreditava que a arquitetura deveria sempre surpreender. "E ele atingiu este objetivo até o fim da vida, em sua postura arquitetônica, política e como pessoa. Niemeyer mantinha uma coerência, uma fidelidade imensa a seus ideais em todos estes aspectos, e ainda assim, sempre se superava na capacidade de surpreender as pessoas", observa o arquiteto Marcos Olender.

Com suas linhas sinuosas, Niemeyer tropicalizou a escola modernista da arquitetura e afirmou o nome do Brasil em escala global. "Dentro de uma época em que a estética modernista estava lançando suas premissas, Oscar conseguiu uma expressão muito singular, que salta aos olhos do país e do mundo, reformulando as bases da própria arquitetura." Lembrado por tantos projetos consagrados pelo Brasil afora, como a construção de Brasília; o conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte; o Edifício Copan e o Parque do Ibirapuera, em São Paulo; os Cieps (Centros Integrados de Educação Pública) e a Passarela do Samba, no Rio de Janeiro, entre tantos outros, o "professor", como gostava de ser chamado, teve uma relação mais íntima com Juiz de Fora do que muitos imaginam.

Um destes laços – e o mais óbvio deles – pode passar despercebido no corre-corre costumeiro da Rua Halfeld: o prédio da agência do Banco do Brasil, na esquina com a Avenida Getúlio Vargas. "Por limitações do próprio espaço, já que o edifício fica em uma esquina, em um terreno e uma localização difíceis de serem trabalhados, este talvez seja o projeto mais singelo do Oscar. Ainda assim, o prédio é uma aula de modernismo: com a utilização do ‘brise-soleil’, uma espécie de veneziana, que fica na fachada, e dos ‘pilotis’, colunas características desta vertente. A fachada curvilínea marca o traço identitário de Niemeyer, que mantém uma leitura nova dos pressupostos modernos, usando, por exemplo, tijolos de vidro anexos às colunas", pondera Olender.

Para ele, a estreita amizade com o engenheiro e arquiteto juiz-forano Arthur Arcuri se confunde com a relação de Niemeyer com a própria cidade. "A ligação entre os dois pode ser um caminho interessante para investigar a relação que Oscar teve com Juiz de Fora." Uma das trilhas deste caminho está no abandonado Marco do Centenário, situado na Praça da República, no Poço Rico, projetado por Arcuri e com mosaico de Di Cavalcanti. "O Niemeyer disse para meu pai que conhecia um artista muito bom que estava precisando de trabalho, e sugeriu que todos se encontrassem para discutir a possibilidade em seu escritório. No dia do encontro, papai ficou surpreso ao ver que o tal artista era ninguém menos que Di Cavalcanti", relembra Alice Arcuri, filha de Arthur.

Segundo Alice, Niemeyer teria chegado a traçar um projeto arquitetônico para a represa se São Pedro, algo que, segundo Arthur Arcuri, se assimilava ao trabalho feito na Pampulha. "Isso foi nos anos 50, e este projeto chegou a ser apresentado à Prefeitura, mas há anos ninguém sabe que fim levou. Ninguém sabe, ninguém, viu." Marcos Olender relata que a Prefeitura da época expôs os croquis de Oscar e também lamenta o desaparecimento do trabalho. "É algo que alguém da representatividade dele ofereceu à cidade, não pode ficar perdido assim. Acho que os órgãos públicos e a própria sociedade precisa se mobilizar para tentar resgatar esse legado."

 

Cidadão juiz-forano, com título entregue em 2008 em sua casa, no Rio, Oscar teve algumas passagens por Juiz de Fora. "Algumas pessoas têm a proeza de ter uma importância em escala local e mundial, e o Niemeyer foi uma delas, não apenas por seu trabalho arquitetônico, mas por sua solidariedade com o ser humano e sua luta política", opina o vereador Flávio Cheker, que propôs e entregou a honraria ao arquiteto. Suas inabaláveis convicções políticas chegaram a fechar portas em uma de suas visitas à Manchester mineira. Em plena ditadura militar, Niemeyer foi convidado pela Faculdade de Engenharia da UFJF para ministrar uma aula magna, mas, na última hora, foi impedido de comparecer ao evento. "Poder abrir os braços de Juiz de Fora com ele salda esta dívida histórica com um homem tão importante, mostrar que a cidade o receberia como se fosse daqui", completa o vereador.

Anos depois, a própria UFJF viria a aparar as arestas com Niemeyer – tão repudiadas por ele na arquitetura e na vida. Em meados dos anos 90, Oscar apadrinhou o recém-criado curso de arquitetura da instituição, ao ser convidado para assumir a aula inaugural. "Foi emocionante. Enchemos o anfiteatro do ICE de alunos, professores e gente de todos os cantos. E ele, tão grandioso, era extremamente simples, generoso… e autografou os croquis de todos que pediram. Só o fato de ele ter aceitado nosso convite já demonstra essa humildade", relata Olender, coordenador da graduação na época.

Talvez por conta dessa humildade, Oscar tenha nos deixado um tanto contrariado. Em uma entrevista concedida em 2001, o arquiteto se descreveu como se via: "um homem comum, que trabalhou como todos os outros. Passou a vida debruçado sobre uma prancheta. Interessou-se pelos mais pobres. Amou os amigos e a família. Nada de especial. Não tenho nada de extraordinário. É ridículo esse negócio de se dar importância." A contragosto, Niemeyer morreu como menos desejaria. Ridiculamente importante.