Um centenário para ser lembrado
Em 14 de agosto de 1912, na pequena Curvelo, nascia Joaquim Lúcio Cardoso Filho. Católico e membro de uma família tradicional de Minas Gerais, o poeta, romancista, jornalista e dramaturgo faz parte de uma vertente da literatura brasileira caracterizada pelo subjetivismo. O autor é dono de uma biografia que inclui cerca de uma dúzia de livros publicados, entre romances e poesias. A construção de tramas insólitas o aproxima muito da escrita inquieta de Clarice Lispector, grande interlocutora e amiga do escritor, observa Luiz Fernando Medeiros de Carvalho – professor de literatura brasileira do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. Seus poemas lidam com o estranho, com o não previsto pela sensibilidade comum, como se fossem um laboratório de investigação do inconsciente através de superposições de planos do mundo onírico, botânicos e aquáticos, gerando combinações inusitadas que o aproximam do surrealismo pensado a partir da cultura mineira, sobretudo fluminense. Por meio de uma parceria entre o Museu de Arte Murilo Mendes e o Programa de Pós-graduação em Letras do CES/JF, nos dias 8, 9 e 10 de novembro, o Mamm vai abrigar o Seminário Lúcio Cardoso: tempo de celebrar e tempo de entender.
Na programação, que inclui quatro mesas-redondas, palestras e lançamento de livro, especialistas discorrerão sobre novos ângulos da escrita do dramaturgo. Aspectos da obra à luz de investigações psicanalíticas, os processos de composição da correspondência do poeta a partir da crítica genética, sua atividade como tradutor de textos ingleses, além de outros temas, serão discutidos. É uma oportunidade de conhecer este artista múltiplo e incansável. Sua obra é imensa e multifacetada. No final da vida, impossibilitado de escrever, ele pintava. Há muitos desenhos que constituíram capas de livros de outros escritores afirma Luiz Fernando. O conjunto da produção poética está afinado com o que de melhor se produziu no país a par de Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade. Para participar, os interessados devem se inscrever, até amanhã, na secretaria do Mamm. Entre os debatedores, está o professor irlandês William Redmond, especialista no romance de Lúcio, autor de vários trabalhos de pesquisa na obra do escritor.
De acordo com Luiz Fernando, a ideia do seminário nasceu do desejo de conhecer a poesia de Lúcio Cardoso, já que as novas gerações não dispõem da obra completa do escritor, apesar de haver uma grande produção de poemas publicados em periódicos. As efemérides em literatura contribuem para uma ativação da memória da vida e trabalhos de autores e para uma efervescência de atividades com o objetivo de fazer circular novos olhares para a obra.
Não foram poucas as vezes em que Lúcio Cardoso reclamava que não era lido. Contudo, sua obra Crônica da casa assassinada(1958) já foi traduzida para o francês, inglês e italiano. Em 1971, por meio das mãos do diretor Paulo Cesar Saraceni, a saga que narra a história de uma família decadente de Minas Gerais ganhou adaptação para a telona. Com o nome de A casa assassinada e trilha sonora de Antônio Carlos Jobim, a trama foi vencedora do Festival de Brasília, no mesmo ano de lançamento, levando os prêmios de melhor filme, ator, diretor, montagem e trilha sonora. Em 1973, no Festival de Gramado, arrebatou as categorias de ator, trilha sonora, além de ter sido indicada como melhor filme. Neste mesmo ano, levou o Trouféu APCA, também nas categorias de melhor diretor, ator, atriz, diretor de fotografia e atriz coadjuvante. Em 1966, Lúcio Cardoso recebeu da Academia Brasileira de Letras o prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra.
Confissões impressas
São uns dos mais pungentes diários já escritos em terras brasileiras, não só pela elegância e erudição, mas pelo conhecimento intrínseco da alma humana, revela à imprensa Ésio Macedo Ribeiro – organizador da obra Diários, que será lançada neste sábado, integrando a programação do seminário. Para evitar erros na ordenação dos textos confessionais do escritor, foi preciso fazer uma detalhada triagem e pesquisa do material. Em Poesias completas (2011), também organizada por ele, quatro poemas foram atribuídos equivocadamente a Cardoso. Publicada pela Civilização Brasileira, a obra trata do cotidiano do autor, de sua leitura do mundo, da literatura, das artes plásticas, da religião, da ciência, passando pela dor do existir e problemas decorrentes da profissão de escritor.
Através de suas leituras, compreendemos melhor as influências sofridas pelo autor e como elas aparecem e/ou desaparecem em sua obra, afirma Ribeiro. Reuni ‘Diário primeiro’ – publicado por ele -, uma continuação feita por Otávio de Faria, o material que encontrei na Casa de Rui Barbosa, além de publicações na imprensa. Nos textos, ele comenta leituras que fez, fala sobre encontros com personalidades, como Ferreira Gullar, e tem até algumas partes rasuradas, provavelmente censuradas por algum amigo.









