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Nada novo, tudo novo


Por MAURO MORAIS

07/05/2015 às 06h00- Atualizada 07/05/2015 às 09h43

Mestres como Portinari, Frida Kahlo, Andy Warhol, Manet são vistos pela ótica das selfies

Mestres como Portinari, Frida Kahlo, Andy Warhol, Manet são vistos pela ótica das selfies

Em1923, Tarsila do Amaral foi convidada para um jantar em Paris, em homenagem ao também brasileiro Santos Dumont. A artista, reconhecida por sua elegância e seu refinamento, vestiu um sofisticado manto vermelho, de gola alta, num corte bastante atípico para a época. Afeita aos coques, mais uma vez mostrou-se ousada também nas roupas. Se houve repercussão entre os presentes na noite, a história não registrou. Mas Tarsila fez questão de pintar a si mesma e eternizou o traje em “Manteau rouge”, obra de 1923, medindo 73cm de altura, por 60,5cm de largura.

Hoje integrante da coleção de pintura brasileira do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, o autorretrato serviu de inspiração para uma das mais instigantes releituras de “Selfies portrait”, exposição que a galeria Sérgio Rodrigues – em homenagem ao famoso arquiteto e designer carioca -, no Centro de Ensino Superior (CES/JF), inaugura nesta quinta, às 20h30. Na imagem, um dos estudantes de comunicação da instituição veste-se com uma capa vermelha, de golas superlativas, e se deixa fotografar sobre um fundo azul. O jovem acaba por denunciar a força feminina no quadro de Tarsila, ainda que as formas da mulher não estejam evidenciadas.

Nos trabalhos que se espalham pela parede amarela idealizada para abrigar a produção prática dos alunos, a história da arte é confrontada com o hoje. Candido Portinari, Frida Kahlo, Andy Warhol, Édouard Manet e outros mestres da arte mundial são vistos pela ótica das selfies. Essas tais fotos que muitos tiram com o braço estendido, ou com uma vara, ou, ainda, com o reflexo do espelho, não são novidades. Surgiram nos autorretratos, num átimo de vaidade de pintores que também se registraram preocupados em dizer algo para muitos. “Eles (os estudantes) ‘descobriram’ que o autorretrato não é uma prática nova, perceberam que a pesquisa é enriquecedora para o processo criativo. É muito interessante ver esse diálogo que estabeleceram com os mestres da história da arte”, comenta a professora do curso de comunicação social do CES/JF, Letícia de Sá Nogueira, responsável pela indicação do exercício.

Paisagens referenciais

De acordo com Letícia, a história da arte ministrada é uma introdução ao assunto. “Pensei, então, em propor um trabalho estimulante e que se ligasse a outras disciplinas do curso. O autorretrato na forma contemporânea do selfie é mais do que uma obsessão. E, ao juntar o interesse natural que eles têm pela fotografia à prática do autorretrato, consegui estimulá-los para a pesquisa”, explica a idealizadora, contando ter apenas delimitado os períodos retratados, deixando os estudantes livres para escolherem as expressões e obras com que mais se identificavam. “A pop art é sempre muito atraente, porque eles se sentem próximos. O impressionismo também, por ter uma relação com a iluminação na fotografia. Além disso, a Frida Kahlo também foi uma artista muito frequentada”, aponta Letícia.

“A intenção é trazer a reflexão da arte para o contexto acadêmico”, defende o curador da mostra, o artista plástico e professor Petrillo, coordenador da galeria. Nesse sentido, os trabalhos feitos a partir da sala de aula chamam atenção para a urgência e relevância de se levar aos futuros jornalistas referências artísticas. E muitos desses novos artistas-fotógrafos que se multiplicam pelas galerias nacionais, saíram de faculdades de comunicação social, preparados para encarar o jornalismo ou a publicidade. É o caso dos premiados João Castilho, Pedro David, Pedro Motta e Gustavo Lacerda. Todos eles lidaram com a câmera enquanto universitários e fizeram da lente uma espécie de pincel, comprometidos a registrar e a dialogar com o passado, conscientes da trajetória das artes.

“O processo da construção das imagens foi muito importante, porque eles encontraram informações e descobriram que a inspiração não é gratuita, é preciso ter bagagem”, pontua Letícia, mostrando a multiplicidade das fotos, que vão da fidelidade absoluta à livre interpretação dos quadros históricos. “Van Gogh deixou mais de 30 autorretratos. Essa linguagem sempre foi muito presente na história da arte. E os alunos precisaram refletir sobre como fazer isso na atualidade”, conclui a professora.

“SELFIES PORTRAIT”

Abertura nesta quinta, às 20h30. Visitação de segunda a sexta, das 8h ao meio-dia e das 19h às 22h, até 20 de maio

Galeria Sérgio Rodrigues, no CES/JF

(Rua Luz Interior 345 – Estrela Sul)