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Tão forte, tão perto


Por JÚLIA PESSÔA

07/05/2013 às 07h00

Belo Horizonte – Até a próxima vez. Lembro-me muito bem da promessa travestida sob despedida, feita já na madrugada do dia 23 de maio de 2011, em português duvidoso, que ouvi do gramado do Engenhão. Depois de um show histórico na Cidade Maravilhosa, foi assim que Paul McCartney, que eu via ao vivo pela primeira vez, deixou o palco diante dos mais de 40 mil fãs no estádio. Ainda que quisesse acreditar, duvidei um tanto das palavras, pensando que aquele encontro com Macca seria meu único.

Talvez só para me contradizer, Paul voltou ao Brasil mais duas vezes depois daquele dia, vindo cruzar meu caminho novamente aqui ao lado, em Belo Horizonte. Não apenas de volta, mas em grande estilo, o ex-Beatle abriu sua nova turnê mundial, Out there, no último sábado, na capital mineira, onde nunca havia se apresentado.

A falta de orientações para chegar ao estádio depois que se entra em BH me levou a algum lugar que, segundo um belo-horizontino era ‘Nussa, londimais’ do Mineirão. Apesar dos percalços, antes dos primeiros acordes lá estava eu, pronta para a visita anunciada de Paul, com o coração a mil na primeiríssima fileira.

Com entrada triunfal precisamente às 21h24, o ex-Beatle abriu a noite saudando o povo bão da cidade, iniciando brincadeiras em mineirês que se repetiriam ao longo do show com alguns Ô trem bão, sô e o clássico e tão esperado uai.

Já na entrada do músico, a psicóloga Roseane Mendonça, de Juiz de Fora, sabia que a longa espera na fila de entrada tinha valido a pena. Achei o Mineirão despreparado para o evento e faltou organização também. Mas todos os problemas desapareceram no momento em que Paul começou a tocar.

Contradizendo a previsibilidade presumida para um artista de 70 anos de idade e mais de 50 de carreira, Paul surpreendeu com o pontapé inicial da apresentação, dado com Eight days a week, tocada ao vivo apenas uma vez pelo quarteto de Liverpool, em 1965, em ensaio para um programa de TV. Meu deleite e o dos outros fãs dos Fab Four seguiu com o début de quatro canções no palco, jamais executadas fora do estúdio: Your mother should know, All together now, Being for the benefit of Mr. Kite!, and Lovely Rita.

Para Marco Antônio Malagoli, presidente do fã-clube Revolution dos Beatles, fundado em 1979, a surpresa foi uma retribuição ao carinho dos brasileiros. O próprio fato de abrir a turnê aqui é uma resposta à forma calorosa como ele tem sido recebido no país em suas últimas apresentações, opina ele, que marcou presença em todos os shows brasileiros de Macca e esteve pessoalmente com o ídolo. Quanto ao melhor show do astro? O último sempre será o melhor, responde Marco, sem sinal de dúvida, a que eu aceno a cabeça, concordando.

Entre ‘Yesterday’ e ‘Here today’

Se o passado foi revisitado e reinventado por Paul, o presente também não ficou de lado. Sentado a seu piano de cauda preto, Paul dedicou My Valentine, de seu último álbum Kisses on the bottom à esposa Nancy Shevell, enquanto o telão exibia o clipe da canção, em que Natalie Portman e Johnny Depp traduzem os versos em libras.

Com as mãos cruzadas sobre o peito – gesto que repito sempre que estou muito emocionada -, ouvi e cantei as esperadas homenagens a George Harrison, com Something, e John Lennon, com Here today. A reverência musical a Lennon foi executada do alto de uma plataforma que se elevou durante a belíssima Blackbird e foi descendo durante as honrasa meu amigo John, nas palavras do Beatle do palco.

O que era nó em minha garganta desaguou em lágrimas em Maybe I’m amazed, de 1970, dedicada a Linda McCartney, esposa do músico, levada em 1998 por um câncer de mama, mesma doença que levou a mãe de Paul ainda na infância. O clima mudou com a animada Obladi Oblada, que contagiou todo o público, inclusive a senhorinha logo atrás de mim, que não pensou duas vezes antes de pôr as mãos em meus ombros no estilo trenzinho para começar a saltar.

Fazendo jus à nobreza do título de Sir, McCartney ignorou um problema técnico que suprimiu o áudio algumas vezes enquanto tocava a vibrante Band on the run, de álbum homônimo dos Wings. O show continuou como se a falha não tivesse ocorrido, e o britânico teve o apoio de um coral de mais de 50 mil vozes, do qual não me furtei em participar.

O coro também não se ausentou enquanto o ex-Beatle entoava os versos de Let it be ao piano. Em todo o estádio, isqueiros, lanternas e celulares acesos fizeram do Mineirão um céu estrelado que, como o interlocutor da música tocada, acordou para o som da música.

O tradicional show pirotécnico que acompanha Live and let die encheu meus cabelos de fuligem, e, durante o esperado clássico Hey Jude, fui afogada por uma maré de cartazes com a inscrição thank you, enquanto engrossava os vocais do refrão na na na.

Se os cartazes de thank you expressaram o quão agradecidos estavam os fãs, a estudante Cecília Cury, de 21 anos, tem ainda mais motivos para dizer obrigada. Ela e mais três jovens, algumas das idealizadoras do movimento Paul, vem falar uai, foram chamadas ao palco pelo próprio Macca, que distribuiu abraços e autógrafos, legitimando o feito. Aqui estou eu, falando ‘uai’, reforçou o britânico, sob meu olhar um tanto quanto invejoso.

Fizemos contato com a produção pelo Facebook, mas jamais imaginei que isso ia acontecer. Estou completamente extasiada por realizar esse sonho, conta Cecília exibindo a assinatura de McCartney em sua costela, que virará uma tatuagem o mais rápido possível.

Transbordando energia, o bom e velho Macca retornou ao palco para mais dois bis, que, juntos, contabilizaram oito canções, todas dos Beatles, entre elas a aclamada Yesterday. Como tem feito há algumas turnês, o ídolo encerrou a noite com a tríade Golden slumbers/ Carry that weight/ The end e deixou o palco fazendo novo pacto comigo e os outros 53 mil fãs: até a próxima vez. Mal posso esperar, Paul.