Simplicidade intensa
A barba espessa, cultivada por anos, e os óculos de aros escuros não eram capazes de esconder o sorriso largo. Dono de uma personalidade serena, como contam os amigos, Renato Stehling cativava por seus traços únicos e por sua simplicidade, estética e pessoal. Simplicidade que nunca impediu o artista de ser "intenso" e "imenso" em sua obra, segundo o pró-reitor de Cultura da UFJF e também artista plástico, Gerson Guedes. Gerson é o idealizador da mostra "Tributo a Stehling", inaugurada hoje na Galeria Renato de Almeida do Centro Cultural Pró-Música/UFJF. Composta por 21 obras de Stehling, em sua maioria inéditas, a mostra marca os dez anos de morte do artista.
Basta se ater por alguns segundos aos quadros do pintor para mergulhar no universo de Stehling, conforme avalia o pró-reitor. "Os traços, que poderiam parecer simples à primeira vista, revelam-se de extrema profundidade em suas muitas cores", diz Gerson, que conviveu com Stehling nos corredores do Pró-Música.
Lecionando na sala ao lado do pintor, Gerson brinca que talvez tenha frequentado mais a oficina de Stehling que a própria. "Em sua sala, os suportes em branco pareciam-me planos infinitos à espera de seus gestos manuais certeiros, que explodiam em cores enigmáticas espalhadas por flores, árvores, caminhos e montanhas intermináveis, revelando sua paz e a sabedoria de que a felicidade, como ele mesmo dizia e vivia, estava nas coisas simples e geralmente muito próximas a nós", escreve Gerson no texto de apresentação da mostra.
As representações de dois cenários específicos – o campestre e o urbano – eram fiéis à vida de Stehling. "Ele morava em Filgueiras, na época um bairro bem menos habitado, mas se deslocava diariamente para o Centro da cidade. Ele vivia o que produzia, era a essência do que um artista deve ser", diz o pró-reitor. "Ele quebrou todos os estereótipos em relação ao artista. Não havia nada de melancólico ou boêmio. Tinha sempre um sorriso sincero e vivia para pintar e para a família", completa Gerson, que credita um certo esquecimento do autor à sua maneira despretensiosa de fazer arte. "Ela não pretendia ir ao exterior ou aparecer na sociedade. Era arte pela arte. Foi um dos poucos pintores da cidade que conheço que conseguiram sobreviver exclusivamente da sua pintura."
Amor pela cidade
Nascido em Juiz de Fora, Renato Stehling desenvolveu por aqui mesmo sua carreira, sendo um dos membros da emblemática Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, instituição que reuniu os mais ávidos pelos ensinamentos artísticos da época e viveu seu tempo áureo entre meados das décadas de 1950 e 60. Pertenceu a uma geração de nomes expressivos, como Carlos Bracher, Nívea Bracher, Dnar Rocha, Roberto Gil e Claro de Campos. Embora viajassem por vezes para outras cidades, Stehling e a mulher Marta só se sentiam em casa em Juiz de Fora. "’Gosto de estar na minha terra’, era o ele que sempre dizia", conta a viúva.
"Estou emocionada com essa homenagem", diz Marta Stehling, que se recorda com alegria dos tempos em que o marido lecionava pintura no Pró-Música. "Era muito bom, muito gostoso ver os amigos. Eu estava lá quase todos os dias", compartilha a viúva, mãe de três filhos, dos quais nenhum optou por seguir carreira nas artes.
Entre as obras expostas, resgatadas do acervo da família, estão exemplares que destacam o bucólico das paisagens representadas pelo artista, em árvores esguias pintadas em tons de verde e amarelo, margeadas por azuis, vermelhos e ocres. Além disso, as cenas urbanas trazem uma Juiz de Fora tradicional, que se expressa em prédios únicos como a Igreja da Glória e a capela do Colégio Stella Matutina.
Datados de um período que vai da década de 1970 a 2002, os óleos sobre tela e eucatex estavam danificados pelos efeitos do tempo e pelo ataque de cupins, tanto nos chassis (suportes para as telas) e nas molduras, quanto nas próprias telas. Para a realização dessa exposição, a UFJF, por meio da Pró-reitoria de Cultura, patrocinou a recuperação integral das obras, que passaram por tratamento especializado no Laboratório de Conservação e Restauração de Pintura e Escultura do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm). "Preservar um conjunto como esse é muito difícil quando não há o apoio de alguma instituição. Ele precisa de cuidados especiais, de manutenção constante. Recuperar essas telas cumpre a função de preservar a memória de um grande artista, além de resguardar a identidade da cidade", conclui Gerson Guedes.
Após o mapeamento dos danos, as pinturas foram submetidas a tratamento. Segundo o conservador e restaurador do Mamm, Valtencir Almeida, adotou-se o critério de mínima intervenção, optando-se pela conservação, que teve início com higienização e limpeza mecânica e química das obras. Os chassis foram substituídos por novos. A recuperação dos óleos sobre tela envolveu o preenchimento dos orifícios causados pelos cupins com enxertos de linho especial. Também foram feitos o reforço das bordas das telas, a remoção de verniz oxidado, o nivelamento de lacunas e a reintegração cromática, com tinta especial, importada, específica para trabalhos de restauração. Por fim, as obras receberam uma camada de proteção para a tela e novas molduras. Recuperados, todos os trabalhos reunidos em "Tributo a Stehling" estarão à venda.
TRIBUTO A STEHLING
Abertura hoje, às 20h. De segunda a sexta, das 8h às 22h, sábados e domingos, das 13h às 18h. Até 29 de maio
Centro Cultural Pró-Música
(Av. Rio Branco 2.329)









