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Um movimento novo no horizonte


Por MARISA LOURES

07/03/2015 às 06h00

Desde que a realização de uma primeira Bienal da Dança de Juiz de Fora começou a ser discutida, a cena local dá sinais de que está animada com as mudanças que se anunciam. O evento está programado para outubro, com mostra de coreografias locais e de fora, oficinas, fóruns, entre outras atrações, mas as companhias contempladas com o edital de incentivo à criação e pesquisa já começaram a se mover. “A bienal vem dar mais força para a dança de Juiz de Fora se olhar e se pensar. Não sou daqui e quando vim para a cidade encontrei um cenário completamente diferente. Estamos vivendo um momento bastante frutífero, principalmente, de muita disponibilidade.Todo mundo está a fim de ver outras possibilidades surgindo”, afirma a artista Leticia Nabuco, responsável por mediar os projetos agraciados com o valor de R$ 6.400, além de R$ 1.600, que devem ser investidos na troca de experiências com profissionais de outros grupos.

“Chegamos à conclusão de que aqui as pessoas não se frequentam em termos de trabalho e, sim, socialmente. Não existe muito intercâmbio, colaboração”, completa ela, que no último sábado realizou o primeiro encontro com os selecionados. “Temos pessoas superantigas na cidade, que fazem a história da dança de Juiz de Fora, danças de estilos bem diferentes. Nossas reuniões mensais não servem para a apresentação de relatórios. É mais um momento de discussões, de levantar propostas de práticas e dinâmicas para o material de criação. Até novembro, serão oito.”

Silvana Marques, Rita Viana, Sylvia Renhe, Saulo Silva da Silveira e Ana Paula Neves, da Corpus Núcleo de Dança, adiantaram para a Tribuna o que planejam apresentar para o espectador. Alguns ainda estão com os projetos em estágio embrionário, em fase de refletir sobre os caminhos que querem percorrer, outros, contudo, já têm bem delineado seus propósitos. Cada companhia tem total independência para definir dias e horários de ensaios. Segundo Leticia, para abril e junho, estão agendadas duas mostras de processo. Conforme anunciado pela Funalfa em 2014, a bienal será realizada nos anos ímpares, sendo avaliada após duas edições.

Memória do corpo

A proposta de Rita Viana, Carolina Oliveira e Camila Resende é de um teatro-dança. As quatro bailarinas profissionais faziam parte da extinta companhia Cos’é?. Afastaram-se por motivos vários, entre trabalho e maternidade, e agora se reuniram para apresentar uma composição dividida em quatro partes de cinco minutos cada. Segundo Rita, o primeiro número, que é de dança contemporânea, está sendo pensado em cima do desenvolvimento da filha da Carolina, a pequena Malu, hoje com seis meses de vida. No segundo, as dançarinas contarão com o ator Marcos Marinho, que unirá a simplicidade do palhaço à força do tango. Em um terceiro momento, a intenção é “dançar por dançar.” “Faremos uma jam session, convidando alguém para dançar no improviso. Será como um jogo, com algumas regras de ocupação do espaço”, comenta Rita, ressaltando que a bailarina Daniela Guimarães, ex-diretora da Cos’é? e convidada da proposta, encerrará o processo com uma videoaula. “O movimento é o elemento que vai ligar as quatro partes. Sabemos que existe muito a motivação do bailarino e que, às vezes, o espectador não identifica a dança, mas vê que tem conteúdo. Vamos trabalhar com a memória do nosso corpo.”

Na Corpus Núcleo de Dança, a turma de Ana Paula Neves – Isaac Freitas, Letícia Machado, Ana Cláudia Monteiro, Andressa Franklin, Ana Carolina Brando, Hugo Santiago e Amanda Gonçalves – se encontra três vezes na semana para os ensaios. Por lá, eles voltam a flertar com o filósofo Gaston Bachelard e seu livro “A poética do espaço”, obra revisitada pela companhia há um tempo. “Esse livro ficou em nossas vidas, por isso decidimos fazer essa releitura. Ele fala de imagens de diferentes espaços, faz uma análise sobre os lugares vividos pelo homem em seu cotidiano. Usando metáforas, o autor abre caminhos para uma reflexão da alma humana. Por exemplo, por meio do sótão, ele entra o mundo dos segredos. Ao falar da intimidade de uma gaveta, quantas coisas achamos ali. Ele trabalha o desejo ao falar do cofre”, comenta a diretora e coreógrafa, ressaltando o que está sendo planejado.

“É uma pesquisa em dança contemporânea, e vamos explorar a imagem através de movimentos, habilidades, possibilidades dos bailarinos, trazendo também a projeção como uma ferramenta para o estudo cênico. Não é uma imagem muito nítida, e o público vai poder acompanhar esse processo da imaginação humana ali dentro. Talvez não da forma como será para cada um dos bailarinos. Vamos abrir caminhos, fazer com que o espectador seja livre para imaginar até chegar ou não no devaneio.” Quem vem como convidada da Corpus para contribuir com o andamento da pesquisa é Priscila Teixeira, dona da TEX Studio de Dança, do Rio de Janeiro.

“Nossa prática é a dança de salão, mas um dos objetivos da pesquisa é fazer uma desconstrução dela e absorver outras linguagens para criar uma linguagem própria, genuína, miscigenada e inclusiva”, conta a diretora Silvana Marques, destacando que sua companhia fará um recorte do livro “O banquete de Platão”. “Abordaremos questões muito pertinentes e inquietantes, como as questão de gênero, completude, origem do amor e como encenar um mito sem palavras. São temas diretamente ligados à minha prática de dança”, diz ela, que se entrega atualmente à fase que ela denomina de nutrição. Segundo Silvana, é o período de se alimentar por um grupo de estudos formado por especialistas e pensadores de diferentes estéticas da dança. Onze bailarinos da companhia se preparam para o projeto, cujo artista convidado é Isnard Manso, diretor da Cia. de Dança Centro Cultural Carioca.

Oportunidade de se perceber

De acordo com Sylvia Renhe, o ponto de partida de seu processo de pesquisa é o livro “Corpo poético”, de Vera Lúcia Paes de Almeida, que trata do movimento como um trabalho terapêutico. “Mas não estamos com a ideia fechada, estamos buscando outros autores para estender esse universo”, comenta a diretora. Ao lado dos também bailarinos Fernanda Oliveira e Ricardo Visciano, ela experimenta novos desafios, já que é a primeira vez que sua Companhia, a Inércia Zero, se lança em uma proposta solo. “A Inércia Zero sempre trabalhou com projetos autorais, porém em grupo. Dessa vez, queríamos saber como seria um trabalho individual.”

Durante os estudos, o grupo tem a ajuda do pesquisador da dança contemporânea de São Paulo Paulo César Silva e da psicóloga Gisela Barbosa. A intenção é ainda trazer um pesquisador da área do “Movimento autêntico”. “Quando você observa o bailarino, você não vê somente uma pessoa dançando, você tem a oportunidade de se perceber, de fazer uma leitura pessoal”, explica Sylvia.

O território explorado por Saulo Silva da Silveira é o da fronteira entre artes. “O campo do conhecimento da dança hoje nos permite uma liberdade tão grande de propor novas estéticas que atualmente é difícil dizer que nos encontramos em um território de dança específico, como dança clássica, moderna, urbana, pós-moderna”, sentencia o juiz-forano radicado no Rio de Janeiro há sete anos e que traz para a cidade uma investigação/criação baseada na vivência laboratorial criativa do Sistema Laban/Bartenieff of Movement.

“Esse sistema se propõe a focar a atenção na construção do movimento do dançarino e não nas questões estéticas da cena. Pretendemos relacionar diretamente a abordagem somática do Laban com a perspectiva da produção de subjetividade do artista cênico contemporâneo, com o enfoque contextual de entendimento do corpo enquanto experiência.”

Além de Saulo, se debruçam sobre o projeto outros seis bailarinos, podendo esse número aumentar de acordo com a necessidade. A convidada é a atriz e dançarina Joana Ribeiro, professora de Teatro da UniRio e autora dos livros “Klauss: do professor ao coreógrafo” e “O corpo cênico”. O bailarino retorna à cidade natal, após deixá-la para se qualificar, com otimismo em relação ao que se apresenta. “As pessoas trabalhadoras da dança estão começando a olhar para uma mesma direção no horizonte.”