A vida em ponto de cruz
Angélica Castello Branco Ribas encontrou na arte uma superação. Aos 74 anos, concluiu que precisava ocupar o tempo ocioso com a singeleza dos bordados. "É uma terapia. Se ficamos sem uma função, temos que procurar algo para distrair, senão acabamos doentes", reflete. Durante mais de três décadas, teve que ter pique para se dividir entre a escola de sua propriedade, a sala de aula e o cargo que ocupava no funcionalismo público. Em março deste ano, já aposentada de todos os seus afazeres, resolveu fazer da linha, do tecido e da agulha seus instrumentos do dia a dia. "Me ajuda muito sobre todos os aspectos, porque fico feliz de fazer algo bonito", conta. "Todas as pessoas deveriam pensar em preencher a vida com a arte", sugere, acrescentando, orgulhosa, que também se dedica ao patchwork e às aulas de hidroginástica.
Acostumada a bordar somente para a família, a artista é a responsável, ao lado de mais 11 amigas, também alunas do Atelier Ponto com Arte, por reproduzir imagens da cidade por meio de seus traços. Contando somente com quatro meses de curso, abusou de vermelho, marfim e verde na releitura da fachada do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM) ornada com enfeites natalinos. As obras, que estampam o calendário 2013 da Funalfa, integram a exposição "Juiz de Fora de ponto a ponto", em cartaz até 9 de dezembro – de terça a sexta-feira, das 9 às 21h, e aos sábados e domingos, das 10h às 16h, no CCBM.
Não foi surpresa para Valléria Gouveia, professora que supervisionou as atividades, o resultado dos trabalhos. Apesar de a aluna mais antiga bordar há pouco mais de um ano, ela garante que não é necessário muito tempo de prática para se fazer uma obra-prima. "Basta ter habilidade e força de vontade", avisa. "A pessoa que bordou o Cristo Redentor, por exemplo, só tinha dois meses de curso. Ela usou os recursos que conhecia."Pós-graduada em artes pela UFJF, Valléria lamenta que a técnica tenha sido relegada a um segundo plano, devido ao advento do feminismo, que associou o ofício à mulher que ficava reclusa em casa. "O trabalho artesanal está longe de ter o valor que merece, mas acredito que as coisas estejam melhorando. É preciso resgatar o que nossas avós faziam", observa.
Ganharam novos contornos o Centro Cultural Dnar Rocha (Maria Auxiliadora Pereira Amadei), Cine Theatro-Central e Usina de Marmelos (Margareth Costa Sousa), Morro do Cristo (Maria Carlota Melo de Paula), ponte no parque do Museu Mariano Procópio (Maria Izabel Fraga da Rocha), Parque Halfeld (Lúcia Rosa Martins), Paço Municipal (Maria de Jesus Ribeiro), Parque da Lajinha (Denise Oliveira Santos), Igreja Melquita e Catedral Metropolitana (Valléria Pinto Gouveia), Ponte sobre o Rio Paraibuna/Rua Halfeld (Heloisa Maria dos Prazeres), Relógio da Praça da Estação (Leila Francisco) e fogos no Morro do Cristo (Lúcia Rosa).
Missão acalentadora
A missão não foi nada fácil, mas acalentadora, conforme a professora. A vontade de fazer um calendário ou um livro de bordados era antiga, mas inviável, devido ao alto custo. "O maior desafio foi o pouco tempo. Tivemos apenas três meses para debater e entregar tudo. Foi uma colaboração gostosa", atesta. A ideia do projeto nasceu da Funalfa, que em maio deste ano promoveu, na cidade, uma oficina, ministrada pelas irmãs Sávia e Marilu Dumond, do grupo Matizes Dumont. "O entusiasmo das mulheres que participaram era tão grande e contagiante que inspirou a proposta que agora se materializa", afirma Toninho Dutra, superintendente da instituição.
O primeiro passo foi escolher os pontos que seriam retratados e passá-los para o papel. Incumbência que ficou a cargo do artista plástico Daniel Rodrigues. Munido de lápis, desenhou e ampliou 18 pontos da cidade. Em seguida, ao ser decidido quais monumentos ganhariam as páginas da publicação, Valléria aquarelou as imagens, utilizando uma técnica bem artesanal. Lançou mão de uma caixa de sapato com uma lâmpada dentro, colocou o desenho por baixo e o tecido por cima, e assim foi dando cor aos monumentos locais. Ao final da seleção, cada aluna escolheu o trabalho que queria realizar, de acordo com afinidades.
Ponto de cruz, haste, corrente, matiz, nó francês, rococó, renascença e sombra ao avesso são apenas algumas das técnicas utilizadas pelas artistas, que não economizaram nos recursos. As nuvens que compõem o céu do Cine-Theatro Central, por exemplo, são feitas de uma lã especial. O Paço Municipal não só ganhou inúmeras cores, como também foi coberto com um céu feito de tecido azul sobre a aquarela, com miçangas aplicadas. A Igreja Melquita, que originalmente é branca, ganhou tons de azul e rosa. As árvores que estão a seu redor tiveram suas folhagens enriquecidas com o patchwork.
Com 41 anos, Leila Francisco não possuía qualquer profissão. Até se enveredar pelos infindáveis traços da arte milenar, ficava em casa, cuidando do marido e das duas filhas, uma de 8 e outra de 14 anos. Quando já pensava que terminaria seus dias como dona de casa, encontrou no bordado uma ocupação. Um outro elemento motivador foi o desejo de realizar um sonho perdido ainda na infância. "Quando criança, via minha tia bordando em casa e ficava encantada. Ela não usava muitas técnicas, mas já ficava maravilhoso", diz. "Associei o meu bordado às minhas bolsas artesanais – acessório que também comecei a fazer recentemente – e que é minha fonte de renda", salienta. "O trabalho artesanal tem um valor mais emocional que financeiro, pois a peça é única. As pessoas não dão importância, porque as máquinas tomaram conta, mas quem gosta valoriza como arte", acrescenta Leila. Para bordar o relógio da Praça da Estação, a artesã abusou dos pontos e das cores, sem descaracterizar a arquitetura, de modo que qualquer pessoa a reconheça. Segundo ela, nunca esse monumento da cidade foi ‘tão mostarda’ quando agora. "É a licença poética", diz Valléria.
Já nos casos da dona de casa Maria Auxiliadora Pereira, 59, e da professora, aposentada precocemente por problemas de saúde, Heloisa Maria dos Prazeres, 50, o bordado foi indicação médica. "É a forma que encontrei para fugir dos remédios para depressão. Tinha que fazer algo de que gostasse e me distraísse, e o resultado está na capa do calendário", destaca Maria. "É uma terapia ocupacional que dá prazer. As pessoas precisam entender que nos aposentamos do trabalho, mas não da vida. A vida é renovação o tempo todo", observa Heloisa, que bordou a ponte sobre o Rio Paraibuna. "Antes de começar, passei no local, vi a vegetação e a capivara na beira do rio, achei tudo muito malcuidado. A partir da nossa obra, tenho certeza de que os juiz-foranos vão olhar para o patrimônio com mais carinho", finaliza.
JUIZ DE FORA DE PONTO A PONTO
Hoje e amanhã, das 9 às 21h, sábado e domingo, das 10h às 16h. Até domingo.
CCBM
(Avenida Getúlio Vargas 200)









