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Dois a cantar


Por JÚLIO BLACK

06/11/2014 às 07h00- Atualizada 06/11/2014 às 08h27

Zélia e Zeca apresentam a turnê que roda o país, com seus violões, sucessos e inéditas no repertório

Zélia e Zeca apresentam a turnê que roda o país, com seus violões, sucessos e inéditas no repertório

Dois dos cantores e compositores brasileiros de maior sucesso na MPB nas últimas duas décadas se apresentam nesta quinta-feira no Cine-Theatro Central. Zélia Duncan e Zeca Baleiro se apresentam em conjunto pela primeira vez em Juiz de Fora com a turnê que vem rodando o país desde o início do ano – em que a dupla, acompanhada de seus violões, interpreta alguns de seus sucessos (com Zélia cantando Zeca, e vice-versa), composições de outros artistas e três músicas inéditas, criadas durante os ensaios do novo espetáculo.

Zélia e Zeca, porém, já estiveram juntos no palco em outras oportunidades, como no tributo a Raul Seixas na edição mais recente do Rock in Rio, no “Baile do Baleiro” (show do cantor maranhense em que ele e convidados interpretam clássicos de Jackson do Pandeiro, Itamar Assumpção e Genival Lacerda, entre outros) e no projeto em parceria feito por Zeca Baleiro com a poeta, dramaturga e cronista Hilda Hist. O trabalho com a artista paulista, inclusive, foi o que chamou a atenção de Zélia para o parceiro musical, ainda na década de 1990. “Lembro de ver Zeca na TV, com minha poeta Hilda Hilst. Fiquei louca pelo projeto que ele estava fazendo, com poemas dela. Nos esbarramos numa (emissora de) TV, e eu, bem oferecida, pedi para cantar no disco. Fui impulsiva, como nunca sou, mas ele, sempre um cavalheiro, absorveu e fez o convite. Cantei e tenho muito orgulho de estar ali e ter feito, assim, nossa amizade nascer”, conta a niteroiense. “Nos demos bem desde o primeiro contato, e a amizade se estendeu para uma parceria musical”, acrescenta Baleiro.

A parceria foi reforçada no início do ano, quando convidados para um projeto de duplas que acabou não vingando. Eles, entretanto, aproveitaram a oportunidade e resolveram fazer da apresentação uma turnê e vêm dividindo o palco desde janeiro, quando se apresentaram em Salvador, como explica Baleiro. “Gostamos tanto de fazer que seguimos com a turnê, de modo casual, do tipo ‘quando der a gente faz’. Zélia é uma companhia muito agradável, logo, se rolar de ficar um ano com esse show na estrada, não vou achar nada ruim” (risos). “Zeca e eu temos pontos de contato importantes. Gostamos de ser múltiplos e gostamos um do outro. Somos parceiros e gostamos de ‘lados B’. Esse show tem tudo isso, inclusive nossos ‘lados A’. Foi uma escolha livre e deliciosa. Vai de inéditas a alguns sucessos nossos, cantados com vozes trocadas, fora as que cantamos pela primeira vez”, emenda Zélia, lembrando que três canções foram compostas durante os ensaios.

Quando dois artistas com suas carreiras já estabelecidas sobem ao palco, é normal que o público que acompanha a turnê não tenha apenas os fãs que curtem ambos os trabalhos, mas também os seguidores exclusivos de Duncan e Baleiro. Situação que os dois encaram com naturalidade – assim como os fãs. “Há uma curiosidade cúmplice”, filosofa Zélia Duncan. “Também temos curiosidade de ver a cara desse público da dupla, e tem sido linda!”. O autor de “Heavy metal do Senhor” concorda com a parceira. “A junção desse povo todo resulta numa coisa muito interessante e diversa.”

O que aproxima e completa

Zeca e Zélia fazem parte da nova geração da MPB que surgiu nos anos 90, mesmo que já trabalhassem com música na década anterior, unindo o pop e suas influências particulares à Música Popular Brasileira, não se prendendo ao cânone que muitas vezes acorrenta outros colegas. Por esse motivo, o atual espetáculo pode ser visto como um passo natural na amizade que os dois cultivam há tanto tempo, com a admiração mútua sendo marcada não apenas pelo que têm em comum, mas também naquilo que um pode complementar o outro artisticamente.

“Zeca gosta de se aventurar, tem a cabeça aberta para coisas desconhecidas, e nisso a gente combina demais. E é um cara extremamente espontâneo, um compositor fluido, com uma abrangência ilimitada. A convivência é divertida e consistente”, elogia Zélia. “Temos um gosto musical muito abrangente, que é algo que nos aproxima. Gostamos de Gonzaga e George Harrison, sem conflitos”, arremata Zeca.

Além da turnê em conjunto, os dois artistas seguem com seus projetos particulares. Zélia Duncan segue com a turnê “Tudo esclarecido”, em que interpreta canções de Itamar Assumpção, e até o meio do ano também corria o país com o espetáculo “Totatiando”. Zeca Baleiro, por sua vez, segue em turnê com sua banda e com o “Baile do Baleiro”, além de ter lançado esta semana o primeiro de dois discos direcionados ao público infantil, “Zoró [Bichos esquisitos] Vol. 1”. Em setembro, ele já havia lançado o livro de crônicas “A rede idiota e outros textos”, com material de sua coluna entre 2008 e 2013 na revista “Isto É”. “As coisas vão sendo levadas em paralelo, tanto por mim quanto por ela. Vive-se uma nova realidade, quase ninguém pode se dar ao luxo de ter um projeto só – o que é ótimo. Gosto do caos, da confusão, da desordem criativa… É assim que surgem as melhores coisas”, acredita.

Com a agenda lotada e shows marcados por todo o país, a pergunta é irresistível: o espetáculo vai resultar na famosa dobradinha CD/DVD? Nenhum dos dois tem pressa em pensar no assunto. “Essa turnê não tem hora para terminar, a verdade é essa. Sempre existe a possibilidade de resultar num CD ou DVD, mas não temos pressa”, diz ele. “Estamos meio hippies, deixando rolar, mas já fazendo alguns planos. A música ‘Fox baiano’ foi gravada em estúdio e deve começar a tocar por aí”, complementa a autora de “Enquanto durmo”.

Como ainda há tempo e espaço, uma última pergunta (ou duas) a Zeca Baleiro: ele teve de ouvir muitas piadas por ter escrito uma canção homenageando o ator inglês Stephen Fry? E o homenageado chegou a ouvir a canção? “Gerou piadas sim, mas nada depreciativas. O fato é que sempre o associam a mim. Ele ouviu, e depois disso trocamos uns poucos e-mails. Ele disse achar a canção charmosa” (risos).

ZÉLIA DUNCAN E ZECA BALEIRO

Nesta quinta-feira, às 21h

Cine-Theatro Central

(3215-1400)