Qual a melhor trilha para ler um livro?
A leitura, dizem, abre as portas da imaginação. Nas páginas dos livros, é possível encontrar mocinhos e bandidos, romances e traições. Histórias se desenrolam como filmes na cabeça de quem se lança no mundo das letras. O filme mental vindo das páginas, muitas vezes solitário e silencioso, ganha notas e tons no mundo imaginário. Mas e se for possível juntar uma obra literária e dar à ela o tom de outra, com notas reais? Afinal, qual álbum seria a trilha perfeita para o livro? A proposta, embora pouco usual, já pode vir a se tornar realidade. A Booktrack, empresa americana de tecnologia, vem desenvolvendo aplicativos para dar uma trilha sonora para livros vendidos para tablets.
Paul Cameron, cofundador e chefe executivo da Booktrack, disse em entrevista para o "New York Times" que isso proporcionará uma forma mais envolvente de ler. "O áudio melhorará a experiência e a imaginação dos leitores." O primeiro título a ser lançado será "The power of six", de Pittacus Lore. "Romeu e Julieta" e "Os três mosqueteiros" estão entre os próximos lançamentos. O som será reproduzido pelo próprio dispositivo de leitura – leitor de e-book ou tablets – e poderá ser pausado e ajustado a todo tempo.
A ideia remete, segundo o publicitário Filipe Machado, a uma das mais famosas lendas do rock. Reza a teoria – jamais confirmada – que "The dark side of the moon", lançado em 1973 pelo Pink Floyd, se colocado para tocar a partir do terceiro rugido do leão símbolo dos estúdios MGM no filme "O mágico de Oz", lançado em 1939, ocasiona a sincronia perfeita para a obra, funcionando com uma trilha sonora não-oficial, porém perfeita. Embora leve em conta a lenda, Filipe destaca que, além de trilha para o filme, "The dark side of the moon" serve como acompanhamento para o livro, lançado nos Estados Unidos em 1900, pelo escritor americano L. Frank Baum. "The wonderful wizard of Oz" é o primeiro volume de uma série 14 livros que relata as aventuras da menina Dorothy Ventania (Dorothy Gale, no original), do Kansas, na terra mágica dos tijolos amarelos. "É uma sincronia total e impressionante. O álbum cabe realmente como trilha, que recomendo, para o livro e para o filme. Possui diversas músicas e passagens sobre relacionamentos entre pessoas, conquistas, dilemas psicológicos retratados na história."
Instigado pela questão, o professor da Faculdade de Comunicação da UFJF, Cristiano Rodrigues, escolheu dois artistas infinitamente distantes geograficamente, mas, segundo ele, emocionalmente próximos: o escritor porto-riquenho Francisco Font Acevedo e o cantor e MC paulistano Criolo. "O livro ‘La belleza bruta’, de Francisco Font Acevedo, publicado pela Editorial Tal Cual, é uma obra de 15 relatos/contos que misteriosamente se comunicam e surpreendentemente se completam. Sua brutalidade é colocar na frente dos nossos olhos os comportamentos limites do submundo de San Juan, ou de qualquer grande cidade do mundo. O escritor explora os limites mais perversos, violentos, sádicos e surpreendentes da experiência humana. Através de situações extremamente cruéis, os personagens trafegam numa linha tênue entre violência e paixão, som e fúria, culpa e redenção.
Nada mais lírico e lindo do que ler essas ‘verdades inconvenientes’ ao som da força e da poesia do MC Criolo, que, no seu CD ‘Nó no ouvido’, nos oferece uma coletânea de melodias extremamente cruéis, líricas e violentas. Criolo consegue no mesmo CD cantar rap, reggae, bolero, balada e um repente moderno e urbano em que a violência, as drogas, a dor e o amor estão presentes em cada melodia. Como nos contos de Acevedo, as canções do CD se comunicam e se completam misteriosamente e há na dificuldade de ‘explicar gírias’ das duas narrativas uma eminência de outra fala, de um novo falar, que não nasce nas universidades, nos partidos políticos, nas instituições estabelecidas, mas nos confrontos diários dos seres urbanos em busca de visibilidade, amor e afeto."
Dando asas à sua imaginação literária e musical, o músico e poeta Knorr acredita que para o clássico "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, o som do Quinteto Armorial casa perfeitamente. "Eles têm um trabalho de síntese entre a música erudita e as tradições populares do Nordeste, e que tinha entre os seus integrantes nada menos que Antônio Nóbrega e Antônio José Madureira, por exemplo. E ainda por cima contava com o aval de Ariano Suassuna", justifica.
A série "Fazendo meu filme", da mineira Paula Pimenta, que virou febre entre as adolescentes, foi a escolha da escritora Carol Sabar. A história de Fani, uma garota que se descobre apaixonada pelo melhor amigo quando ela está de partida para Londres, para um ano de intercâmbio fora do país, remete ao álbum "Let yourself in", do brasiliense Tiago Iorc. Uma canção no CD, "My girl", recorda Carol do amor de Fani por Pedro. "O primeiro amor em sua melhor versão, com altas doses de suspiros, romantismo, descobertas e anseios, me faz lembrar a música. O álbum todo, aliás, é uma excelente pedida para embalar as histórias de amor tão clichês."









