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‘Não temos medo de experimentar’


Por Amanda Fernandes

06/11/2011 às 05h00

São 12 álbuns em 27 anos de carreira. O último deles, "Kairos", saiu no final de junho deste ano e vem colecionando boas críticas. Com planos de lançar, em 2012, um filme sobre toda a carreira, o Sepultura parte neste mês para uma turnê por países como Alemanha, Dinamarca, França, Inglaterra e Holanda.

Em entrevista à Tribuna, por telefone, o baixista Paulo Júnior enfatizou a vocação da banda por buscar se renovar e experimentar novas sonoridades. No último Rock in Rio, a banda evidenciou essa vertente, apresentando-se com o grupo de percussão francês Les Tambours du Bronx no palco Sunset.

– Tribuna – No Rock in Rio, vocês tocaram com o Les Tambours du Bronx, que também participa do "Kairos". Como começou a parceria? Tem planos para frente para essa dupla?

– Paulo Júnior – Planos a gente sempre tem, mas a parceria começou quando tivemos uma chance de tocar juntos há alguns anos em um festival na Europa. Durante nossas conversas, acabamos fazendo uma "jam" e daí surgiu a ideia de trabalhar em conjunto. No nosso último disco, tivemos a chance de fazer uma música juntos e, a partir disso, pensamos no projeto do show do Rock in Rio. Foi um casamento perfeito e a primeira vez que fizemos um show completo. Surpreendeu a todos e a nós também. Tivemos propostas para o próximo verão da Europa, a ideia é viajar junto.

 – Quem foi ao Rock in Rio ver o Sepultura reclamou do palco Sunset. Era muita gente querendo ver o show em um espaço pequeno. Não seria o caso de estar no palco principal?

– O palco Sunset não é um palco ‘B’ como muita gente acha que é. É o palco da mistura de artistas nacionais e internacionais. A proposta é aumentar o espaço já para o próximo festival e, gradativamente, ficar do mesmo tamanho que o palco Mundo. Lá só se apresentaram músicos de longa carreira e músicos consagrados no meio, então não era, de forma alguma, um placo B.

– Você falou do próximo Rock in Rio. O Sepultura vai participar da próxima edição?

– Espero que sim, foi o que nos disseram. Com certeza vamos ter ideias para apresentar coisas novas.

– O show com o Les Tambours du Bronx enfatizou a mistura de sons e ritmos característica do Sepultura?

– O Sepultura sempre foi uma banda de heavy metal que experimentou tudo em seu tempo. Não forçamos nada, deixamos as coisas acontecerem. Na Virada Cultural de São Paulo, tocamos com a Orquestra Experimental de Repertório. Com Les Tambours, foi mais industrial. Se tiver algo que combine com a gente e achamos que vai dar certo, vamos experimentar. Nunca tivemos medo nem nos importamos muito com críticas. Sabemos o que fazemos e confiamos no nosso trabalho.

– Kairos é uma expressão grega que quer dizer "momento especial, de grande mudança". Qual é a razão desta escolha como nome do álbum?

– É um momento muito forte e especial do Sepultura. Vamos completar 27 anos de banda em dezembro, passando por altos e baixos. Atravessamos a era do vinil, do K7, do CD, agora estamos na era do download, e o Sepultura está firme e forte. A intenção é continuar, sobreviver a todas as críticas e curtir esse momento especial que está acontecendo. O disco fala de amigos, trabalho, da gravadora. É como se fosse uma autobiografia e reflete toda a nossa história.

– É um álbum bem ágil, forte e acelerado, com bastante pegada de trash metal. É uma volta às origens do Sepultura da época de discos como o "Arise"? Qual o conceito que vocês querem passar com o álbum?

– O "Kairos" tem sim uma inspiração nessa sonoridade, que faz parte do conceito do disco, mas ao mesmo tempo traz coisas novas. Está mais cru, com músicas mais retas e com mais guitarras. Voltamos àquela época em que sentávamos juntos para escrever o solo. Nos inspiramos em nossa história, mas, ao mesmo tempo, estamos nos reciclando.

– Você falou desse resgate na forma de fazer o "Kairos". Como é a forma de compor da banda?

– O processo do Sepultura é bem simples. Tocamos juntos sempre, mas, geralmente trazemos para o estúdio de ensaio ideias de momentos de inspiração que podem acontecer em qualquer lugar, em casa, no trânsito. Hoje, com a tecnologia, isso é muito mais fácil.

– Como foi trabalhar com o produtor Roy Z?

– O Roy é um nome bem forte que surgiu na época. Ele é uma pessoa que soube captar a força que temos ao vivo, que é justamente onde está a nossa força, por onde somos conhecidos e reconhecidos. O produtor é a pessoa que precisa compreender a atmosfera do momento e transpor a sonoridade para o HD. Ele captou o "momento Kairos", que vai ficar marcado para a eternidade. Somou também o fato de ele ser uma pessoa com experiência de estrada, não sendo apenas um produtor de estúdio. Conseguimos uma sintonia que está refletida no álbum.

– Vocês fizeram um cover de "Firestarter", do Prodigy, um som mais eletrônico. É uma tendência para o Sepultura ou uma experiência apenas para este disco?

– Foi uma música que surgiu na hora, quando começamos a tocar algumas coisas diferentes. Colocamos a música como uma faixa extra e escolhemos uma banda que influenciou o Sepultura, mas que não fosse diretamente voltada ao metal, fora das influências mais clássicas e óbvias, para surpreender.

– Como você avalia o cenário do metal nacional hoje? Há boas bandas surgindo e com possibilidade de sucesso?

– Hoje o mercado, não só no Brasil mas também no mundo, está uma explosão tão grande com essa tecnologia do ‘faça você mesmo’ que você fica perdido. Sou um roqueiro das antigas. Hoje nenhuma banda nova tem me entusiasmado, talvez por conta de serem todas muito parecidas. Acham uma fórmula, e todos começam a copiar. No começo, acho que também copiávamos, mas é necessário criar uma identidade da banda, como nós fizemos. Isso realmente leva tempo. Antigamente era mais fácil conhecer as coisas que iam surgindo. Hoje, a cada minuto, aparecem bandas novas na internet, e você não consegue acompanhar. Não sabemos quem é quem.

– O trailer do filme do Sepultura foi divulgado na última semana. Como é o filme e o que os fãs podem esperar?

– A intenção do filme é mostrar a história do Sepultura. Não apenas a parte musical, que a maioria das pessoas conhece, mas um pouco mais do outro lado da banda, nosso lado família. Queremos atingir principalmente um público que não conhece o Sepultura. Muita gente acha que somos "filhos do capeta" e somos pais de família.

 – O filme vai abranger todas as fases do Sepultura?

 – Essa é a ideia. A história tem que ser a história completa, não pode ser apenas a minha história.

 – É um tendência que está rolando, bandas lançados documentários. Foi uma inspiração ou a ideia do filme partiu de vocês?

– Foi nossa. Acho que, com 27 anos de carreira, temos alguma história para contar. Não queremos que seja apenas um DVD de um show qualquer, a ideia do filme é algo mais amplo.

– Qual o segredo para manter a banda na ativa no Brasil e no exterior depois de 27 anos e com a saída de integrantes ao longo desse tempo?

– O segredo é acreditar no seu trabalho e ter perseverança. Às vezes, você tem que engolir algumas coisas, mas nossa defesa é a nossa música e o palco. É ali que provamos o que somos ou não. Não somos de ficar falando. Nossa resposta às críticas vem diretamente do palco. É ali que você responde a qualquer coisa e tem a resposta do público.

 – Todo mundo fala sempre isso, mas há chance de uma reunião da formação clássica com você, Iggor, Max e Andreas? O assunto incomoda?

– Não me incomoda, mas a minha resposta é não. Quem está hoje na banda é quem representa o Sepultura. Não estamos presos a nada do nosso passado, fazemos o que gostamos de fazer. E para mim não há qualquer atrativo ou vontade de estar junto do Max e do Iggor. Isso, se fosse acontecer, como já falaram e fizeram previsões, iria ser só por causa de dinheiro. E estou em outro patamar. Acho que dinheiro é consequência do trabalho, e acredito muito no que está aqui hoje. Se depender de mim é não, e há muito tempo.