Ouça agora

Criando no universo dos pequenos


Por AMANDA FERNANDES

06/11/2011 às 05h00

Um elefante apaixonado por paçoca de urubu. Um lobisomem de capa preta. Uma onça com bafo de… onça. Esses são alguns dos protagonistas da sinfonia reunida no CD Quando eu crescer, trabalho de estreia do grupo Éramos Três e que integra a apresentação dos mineiros hoje, a partir das 16h, no Teatro Solar. A apresentação, com entrada a R$ 2 (inteira) e R$ 1 (meia), integra o projeto Diversão em Cena, da Arcelor Mittal.

Pela primeira vez na cidade, o grupo, formado por Fernanda Sander (voz), Eduardo Borges (violão, guitarra e percussão), Filipe Guerra (violão, guitarra e baixo) e Jalver Bethônico (percussão e efeitos sonoros), embora jovem, já é detentor do prêmio de melhor CD infantil, concedido no 22º Prêmio da Música Brasileira, realizado em agosto no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Na cidade, eles contam com a participação especial dos músicos Francisco Cereno (percussão) e João Paulo Prazeres (flauta, saxofone e violão).

Com a experiência de professora de musicalização por 15 anos, dedicando-se a ensinar crianças até 6 anos, Fernanda Sander decidiu prestar atenção no que os pequenos falavam para criar as letras que integram o CD. Tenho uma preocupação pedagógica com o que escrevo. Para a criança, tudo é muito sério. Elas acabaram de chegar no mundo e ainda estão aprendendo a lidar com o corpo, com as regras de convivência. É um mundo cheio de descobertas, ressalta. Ela enfatiza que a música desempenha papel fundamental neste desenvolvimento. É um dos quatro sistemas simbólicos que o ser humano criou para se comunicar e compreender o mundo que os cerca, além da língua materna, a literatura e as ciências proporcionais. Não trabalhar com a música é deixar de lado uma dessas formas.

Para atingir a criança e estimular este desenvolvimento, Fernanda defende que os pequenos tenham verdadeiras experiências auditivas e sensoriais. Não adianta apenas colocar um CD ou DVD para que ela assista. É preciso cuidado com a escolha do repertório e todo um trabalho corporal para alfabetização musical. A escola deve participar disto. Segundo ela, a volta da obrigatoriedade do ensino de música nas escolas é positivo, mas ressalta a necessidade constante de qualificação desses profissionais.

Embora considere importante a música destinada às crianças, a professora critica os produtos enlatados, que, muitas vezes, roubam o espaço de produções independentes. O produto de massa possui um formato que nem sempre o independente consegue acompanhar, pois a produção é cara. Mas vejo que estão surgindo coisas novas com um trabalho feito diretamente para a criança.

Mas como agradar às crianças sem fazer os pais caírem no tédio? Conforme Fernanda, a resposta está em desenvolver a estratégia de linguagem na música, construindo surpresas poéticas e utilizando grandes imagens universais. Quando a criança gosta, normalmente os pais se entusiasmam ao vê-la aproveitando, mas para pegar o adulto é necessário ter uma elaboração maior no discurso, além de capricho nos arranjos e nas finalizações. Conforme Fernanda, é preciso diferenciar o trabalho a partir da verdade por trás das angústias e medos da criança, valendo-se de timbres elaborados.

A conquista do Prêmio da Música Brasileira jogou o grupo sob os holofotes. Ganhar foi surpreendente, mas acima de tudo, nos deu a certeza de estarmos trilhando o caminho certo e nos deu confiança, relata Fernanda, enfatizando que a honraria serviu parar aumentar a responsabilidade do grupo frente ao trabalho, antes visto apenas como um hobby, uma vez que o Éramos Três não é a principal fonte de renda e trabalho dos integrantes.