Sons que transcendem fronteiras
Se pudesse ser mapeado, tal qual as extensões de terra do globo são delimitadas, o Cosmosoul certamente seria um território sem fronteiras, incapaz de ser classificado, dividido. Um lugar onde o soul encontra o R & B e outras vertentes da black music, com um certo sotaque de jazz contemporâneo e influências tão setentistas quanto modernas. Sediada em Madrid, a banda é a atração principal de hoje no Cultural, como parte integrante do JF Vijazz e Blues, seguida por show do blueseiro carioca Big Joe Manfra.
O nome da banda emerge de sua própria essência cosmopolita, já que o multitalentoso quinteto tem integrantes de diferentes cantos do mundo. A voz do grupo, Alana Sinkëy, é nascida em Portugal e criada em Guiné-Bissau. Vizinho, o guitarrista Abel Calzetta é de Buenos Aires, enquanto o baixista Miguel Pablo Sanz é o único originário de Madrid, onde a banda é baseada. Completam a cartografia o tecladista Sergio Salvi, da cidade italiana de Nápoles e baterista e percussionista Akin Onasanya de Lagos, Nigéria.
O emaranhado de referenciais territoriais e musicais vem arrebatando o público e a crítica de Madrid, coroadas por prêmios como os de
grupo revelação e melhor grupo de música negra do prêmio Guilles, um dos mais relevantes da música espanhola. Nos dois álbuns da banda, ambos independentes e gravados nos Estados Unidos, sobressai a refrescante proposta do grupo, traduzida em canções compostas em inglês e português.
Entre as primeiras, chama atenção a faixa-título, Sunrise, balada harmônica quase sem percussão, destacando os poderosos vocais de Alana. Falantes do idioma, os brasileiros serão facilmente conquistados pela charmosa É você, que convida a dançar sem perder a elegância musical. Uma vez atendendo ao chamado da pista, a batida de Sunday groovy nights mantém o desejo de manter o corpo em movimento ao passo que os pianos marcados de Living in the city convidam a relaxar enquanto tomam conta de qualquer ambiente.
Carregado de influências do rock’n roll, do jazz e do funk (o que tem raízes na black music, não o dos pancadões), Big Joe Manfra dá sequência à noite, completando o balaio de referências musicais. Segundo o músico, uma das maiores referências do blues brasileiro, sua música é marcada pelo caráter mutante, efêmero, típico do gênero. É uma influência do jazz, que foge à concepção pop de o público do show ouvir a música igualzinha à versão do disco. Quando gravo, aquele é um retrato musical de um momento. Ao vivo, a música vai ser outra, dependendo da plateia, da emoção, do clima.
Na visão do músico, o público de blues é diferenciado dos apreciadores de outros estilos musicais. São pessoas interessadas, que pesquisam, vão atrás dos eventos, viajam para ver os artistas. Por isso, os festivais são prestigiados, e é sempre muito prazeroso participar deles. Mesmo assim, segundo o artista, mostrar o repertório autoral ainda é difícil para muitos músicos. Existe uma tradição de revisitar grandes clássicos do blues, as pessoas querem ouvir isso. É muito difícil fazer um repertório completamente autoral em shows, mas não posso reclamar, porque como participo de festivais há muitos anos, uma quantidade considerável de músicas minhas é conhecida.
Com quase 20 anos de carreira, Manfra tem dois discos solo gravados, além do Blues etc (com o gaitista Jefferson Gonçalves), do Live in Rio (gravado ao vivo em solo carioca com o gaitista americano Peter Madcat) e o DVD Big band ao vivo, gravado em Juiz de Fora, onde o guitarrista foi habituée nos palcos. Fiquei uns dois anos tocando só em Juiz de Fora, mesmo morando no Rio. Foi onde comecei meu trabalho do zero, e ele sempre foi aceito. É onde as pessoas conhecem o que faço e pedem as minhas músicas, meu lugar preferido de tocar, conta ele, que já rodou o país e o mundo em festivais de referência de blues.
JF VIJAZZ E BLUES
Cosmosoul e Big Joe Manfra
Hoje, às 23h
Cultural Bar
(Av. Deusdedit Salgado 3.955)









