A paleta ainda pulsa
Entre os quase onipresentes flashes e as variadas performances, parece que a arte contemporânea se relaciona com o efêmero, com a complexidade do abstrato e, em algumas vezes, com o hermetismo dos discursos subjetivos e inalcançáveis. Mas essa é apenas uma camada e em nada se reduz ao definitivo. A arte contemporânea nasce como resposta ao esgotamento do ensimesmamento da arte, com as modalidades canônicas – pintura e escultura – explorando-se, investigando suas naturezas até o avesso, adverte o professor, curador e crítico Agnaldo Farias, em seu livro A arte brasileira hoje. Como pontua o filósofo norte-americano Arthur Danto, em seu polêmico Após o fim da arte, multiplicidade, apesar de palavra desgastada, reflete as obras do presente, tanto em relação às mensagens contidas, quanto aos suportes e materiais utilizados. Os pincéis ainda não foram aposentados.
As setes telas que prestam tributo a Rafael Abib, morto em 2008, representam não apenas uma parcela da produção do jovem artista de 25 anos, mas a representativa escolha pela pintura diante de um universo estreitamente relacionado às técnicas mais experimentais. Existe nessa seleção traços de um menino que estava à procura de seu estilo, à beira de encontrá-lo, analisa o pró-reitor de Cultura, Gerson Guedes, que propôs a exposição como estreia do projeto Arte sobre a mesa. Priorizando o desenho, a pintura e a escultura, a ação leva ao Restaurante Universitário do Campus da UFJF mostras provisórias de artistas da instituição.
Com fortes influências do cubismo e algum diálogo com o impressionismo, Abib iniciou-se na pintura em um curso livre da Casa d’Itália e logo optou por se aperfeiçoar no Instituto de Artes e Design, do qual era aluno quando se despediu. Alguns trabalhos dele são formatados pelo traço e outros pelas experiências da cor. O Rafael estava perseguindo o encontro da técnica com a própria expressão subjetiva, comenta Guedes. Hoje percebo uma invasão de figuras prontas, uma fuga do traço, da elaboração da imagem, seja ela abstrata, seja figurativa, reflete o pró-reitor, reconhecido pintor da cidade.
De acordo com Guedes, essas imagens prontas, em sua maioria fotografias, feitas em incessantes cliques, não evidenciam a artesania do artista. É importante existir uma personalidade estética, daquelas que não prescindem da assinatura. O estilo, por si só, responde a autoria, pontua, otimista em relação ao retorno das paletas e dos pincéis. O resultado plástico – a fatura – da pintura é tão importante quanto a imagem gerada ou utilizada, pois é o que desperta no público um outro tipo de sensibilidade, mais sutil, que vai muito além da compreensão da imagem. Causa uma estranha sensação de presença e comunhão, de se estar presente e na companhia do artista, comenta o artista Guilherme Melich, formado em Artes em 2008.
Dono de pinceladas vigorosas, capazes de conter camadas de tinta, dando densidade às figuras projetadas, Guilherme Melich estreitou seus laços com a pintura através da obra do pós-impressionista Vincent Van Gogh. Suas pinturas despertaram algo que eu não conhecia em mim, uma sensibilidade pictórica, que foi ficando cada vez mais aflorada à medida em que eu estudava história da arte e ia conhecendo outros artistas. Após experimentar outras linguagens na academia, o jovem decidiu-se pela pintura, lugar onde encontrou uma forma de andar pela arte. É a maneira mais plena que encontrei para ‘dizer’ as coisas. E o que digo é, basicamente, que estou vivo, que existo, sinto, percebo, e, por fim, compartilho minhas experiências, observa Melich, sabendo-se portador de uma voz artística cheia de tensão, mas nem um pouco verborrágica.
E diante de um universo mais sombrio, em que os pigmentos mais escuros são, com alguma constância, preferidos, não há a antiga imagem do pintor em seu ateliê à meia luz, com um cavalete à frente e trabalhando em pinceladas quase dançadas. Para mim, pintar não é algo fácil ou agradável. A tela me desafia o tempo inteiro, até que eu vença, ou seja vencido. Luto para que aquele amontoado de matéria tome vida e exista por conta própria. É na artesania que se dá a batalha da expressão. Não vejo romantismo nisso, aponta.
Nascido em Uberaba, Região do Triângulo Mineiro e formado em artes pela Universidade de Brasília, Fábio Baroli também não é adepto da pintura retratada em tons líricos pelo quadro Alegoria da pintura, do holandês Johannes Vermeer. As cenas realistas, feitas em pinceladas largas, lhe exigem expressividade. Em meu trabalho, procuro falar simultaneamente da pintura como linguagem, da apropriação como método e do erotismo como tema, utilizando a fotografia e o conceito de colagem para elaborar novas sentenças visuais, figurativas e narrativas, explica ele, um dos indicados ao Prêmio Investidor Profissional de Arte (Pipa), de 2012.
Seres (!) híbridos
Considerado um dos expoentes da pintura contemporânea, representado por grandes galerias do país e com exposições na região Sudeste e Nordeste do Brasil, Fábio Baroli sugere um dos possíveis caminhos da tela e das paletas. Suas imagens indicam ação ou descortinam intimidades, perseguindo uma verdade ou, apenas, alguma verossimilhança. E, para isso, ele se lança no espaço híbrido do presente, onde fotografia, performance e outras expressões conversam sem que haja problema algum. Sou fruto de uma geração que recebeu como herança uma forte retomada da pintura, sobretudo, figurativa. Me percebo como pesquisador que desenvolve seu trabalho, na tentativa de ser coerente com minhas propostas em pintura, buscando compreender o período contemporâneo e estabelecer diálogos com a história da arte, comenta.
De acordo com Agnaldo Farias, em seu A arte brasileira hoje, o momento atual aponta para um retorno de questões e fórmulas antes vistas como ultrapassadas – a pintura e a escultura figurativas, de conteúdo político, mitológico etc – até o florescimento de expressões híbridas, quando não inteiramente novas, como as obras que oscilavam entre a pintura e a escultura, os happenings e as performances; as obras que exigiam a participação do público; as instalações; a arte ambiental, entre outras.
Entre a abstração e a figuração, num entre-lugar, o brasiliense Rodrigo Bivar, outro grande nome da pintura contemporânea brasileira, não se propõe a perfeição do realismo, mas a realidade em suas feições múltiplas. Os quadros de Rodrigo Bivar nascem de imagens capturadas em fotos de viagens, retratos de amigos e cenas na praia. Embora capte segmentos do universo que o rodeia, o pintor afirma explicitamente que sua intenção não é refletir o mundo; ele compreende a pintura como um meio para se deslocar de um lugar a outro, diz a crítica Laura Marmor em ensaio sobre a obra de Bivar. As imagens capturadas por ele encontram-no em um constante vaivém, como um paparazzo irritante ou um voyeur indiscreto, completa. De forma radical, pintar é representar, segundo sua forma dicionarizada. E as paletas juvenis sabem disso. Os pincéis de hoje são, de fato, vozes em cena.









