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‘Cinema de guerrilha’


Por MARISA LOURES

06/08/2013 às 07h00

A existência humana e os mistérios da vida e da morte. No cotidiano de uma pequena vila rural do interior do Brasil, famílias vivem isoladas do contato com o mundo exterior. Ora em conflito ora em harmonia, homem e natureza compartilham uma paisagem que parece esgotar o olhar. Com direção de Marcos Pimentel, "Sopro" nasceu na região de Juiz de Fora, mas foi ganhar fôlego em outras paragens antes de estrelar em sua cidade de origem. Rodado com apoio da Lei Murilo Mendes, o longa estreou na cena americana na sexta e no sábado, integrando a mostra competitiva do 5th Hollywood Brazilian Film Festival, em Los Angeles. Ainda na fase de finalização, foi contemplado com prêmios em Cuba, Bolívia, México e Suíça. Neste último, dedicado ao cinema autoral, "Sopro" tem o mérito de ser o primeiro filme brasileiro agraciado com o fundo de financiamento, de acordo com seu criador. "Quando você faz um trabalho, espera que ele chegue ao maior número de pessoas possível, mesmo tendo consciência de que esta tarefa não é fácil. Lanço a garrafa ao mar, esperando que a encontrem por aí", afirma Pimentel, adiantando que, antes de estrear na edição deste ano do Festival Primeiro Plano, a produção deve passar por Áustria, Suécia, França, Espanha e Suíça.

Ambientado nas pequenas localidades do entorno da serra de Ibitipoca, o documentário "Ibitipoca droba prá lá", do juiz-forano Felipe Scaldini, marcou presença no Festival de Cinema de Paulínia. Depois de serem exibidos aqui no município, os causos relatados por moradores e que deram corpo ao registro do estilo de vida das comunidades vizinhas à vila, figuravam entre as produções distribuídas pela Lume Filmes em mais de 30 salas de cinema do país, inclusive, capitais, como Rio, Curitiba e Porto Alegre. Um percurso audacioso, por romper com o sistema de circulação dos longas da cidade.

Embora algumas produções de Juiz de Fora tenham conseguido ultrapassar fronteiras, a cena local ainda é tímida. Poucos recursos, ausência de continuidade nos trabalhos e carência de qualidade técnica e roteiro são problemas enfrentados por produtores da região. "As pessoas estão falando de assuntos que dizem respeito a elas. As histórias refletem o que a sua geração está sentindo. As relações amorosas predominam", opina Aleques Eiterer, diretor e produtor do Festival Primeiro Plano.

Para Nilson Alvarenga, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora com atuação na área de comunicação e cinema, em um momento em que a tendência é o surgimento de pequenos novos grupos de estudantes se dedicando à criação de curtas, com quase nulas possibilidades de permanência na cidade depois de graduados, o tipo de trabalho desenvolvido por Pimentel ainda é um caso isolado por aqui. "Há um movimento de alunos se empenhando em produzir, mas a maioria, depois de formada, vai embora. O fluxo é instável. Claro que, paralelamente, existem pessoas como o Marcos fazendo um trabalho que permanece, mas isso ainda é um exemplo isolado", avalia Nilson. "Talento a gente tem, mas é uma questão que vai alem do realizador. É preciso ter movimento de mercado", complementa.

Contrário à expressão "cinema juiz-forano" por dar a ideia de um movimento que aponta para uma mesma direção ou, pelo menos, reúne características semelhantes, Pimentel prefere falar de uma cena que sinaliza para iniciativas solitárias e diversas. "Várias práticas audiovisuais coexistem dentro das fronteiras do município, e cada realizador tem suas características, estilo, conceitos, público, objetivos, expectativas. O momento é interessante. Temos realizadores com cabeças, perfis, idades e pretensões muito diferenciadas. Todos ansiosos para mostrar ao mundo as ideias impressas em seus filmes, vídeos, conteúdos audiovisuais. Esse é o panorama atual. Diverso e incerto."

 

Arte de poucos recursos

Numa cidade em que ainda se pratica "cinema de guerrilha”, conforme salientam Eiterer e Pimentel, o incentivo da Lei Murilo Mendes, que chega a R$ 28 mil para projetos de custo padrão, é um dos únicos caminhos encontrados por profissionais do município para a produção cinematográfica. O aporte, mesmo que válido, está longe de ser o ideal. Em 2012, dos 81 projetos aprovados no financiamento público, nove pertenciam à área do audiovisual, correspondendo a 11% dos contemplados. Neste ano, conforme divulgado pela Funalfa na última quinta-feira, das 263 propostas inscritas, 35 pertencem ao segmento, que aparece em terceiro lugar no número de concorrentes, atrás de literatura (73) e música (71).

Na lista de trabalhos a serem lançados com o incentivo até o início de 2014, estão os filmes "Entre parênteses", dirigido por Felipe Saleme e Diogo Zanotti, além de "Habita-me se em ti transito", de Guilherme Landim. Enquanto, no primeiro, quatro histórias se desenrolam em Juiz de Fora no período que vai das 6h às 18h, o segundo é um documentário que mostra a relação de moradores de rua com o espaço urbano. A expectativa de Landim é que a criação siga para festivais em Ouro Preto, Pernambuco, Rio e São Paulo.

"As produções têm melhorado tanto em quantidade quanto em qualidade. Acredito que seja por causa da mídia digital. Todos os trabalhos têm tido uma aceitação muito boa em festivais. A nossa luta é querer que o recurso da cultura aumente cada vez mais, e não existe uma unanimidade entre a classe artística de que determinada área tenha um teto maior", assevera Fernanda Amaral, coordenadora da Lei Murilo Mendes.

Na avaliação de Pimentel, por falta de uma tradição de patrocínios, o cinema desenvolvido na cidade é específico, de baixo orçamento e moderadas estratégias de distribuição. "É um trabalho hercúleo convencer empresários locais a investirem em cinema, mesmo através de leis de incentivo e renúncia fiscal. Então, ficamos restritos à Lei Murilo Mendes e à guerrilha. Um trabalho em que você faz o que conseguir sem orçamento algum. Põe dinheiro no bolso, pede para a família, vende carro, pede ajuda para os amigos. Isso se observa em todas as partes do país e do mundo. A vontade de contar a história fala mais alto, e você embarca nessa", afirma Pimentel.

"Não existe um mercado em Juiz de Fora. Falta estímulo. As produções são mais culturais, artísticas. Acho que a cidade não tem ambição de ser um polo de produção cinematográfica.Também não sei se é necessário, e nem se isso vai acontecer algum dia. Em Paulínia, por exemplo, criaram um, mudou a administração, e o polo acabou" observa Eiterer.

Já otimista com as possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias e com o entusiasmo dos tempos atuais, Diogo Zanotti enxerga um panorama de mudanças para a produção juiz-forana. "A gente tem encontrado pessoas interessadas em fazer um trabalho profissional, embora haja desafios. Não é um cinema que dá para ganhar dinheiro, mas é possível ver uma série de pessoas se articulando em torno de projetos culturais. Há um núcleo pensante, que faz cinema não só por amor. O aparecimento de produtoras voltadas para isso configura uma mudança no cinema da cidade. Basta produzir para encontrarmos empresas que estejam dispostas a apoiarem."

 

 

 

Independente, mas com qualidade

"Movirtualizar-te", de Guilherme Landim e Cláudia Rangel, está a um passo de seguir para o Festival Internacional de Cinema da Bienal de Curitiba. Na sinopse, um vírus de computador faz infectados filmarem e fotografarem tudo o que veem pela frente. Segundo Landim, que é mestrando em estética, redes e tecnocultura pela UFJF, em Juiz de Fora, de forma geral, não existe uma busca pela profissionalização. Os trabalhos, com exceções, são efêmeros. "É preciso sair do amadorismo e do coleguismo. Não é porque é independente que tem que ser ruim. Em BH, vejo que o pessoal corre atrás, vivencia e ganha a vida com o que faz. Os poucos produtores daqui são criativos, pesquisam, procuram festivais, têm boas referências, bons roteiros, e isso precisa ser trabalhado em grupo para adquirirmos força e estabelecermos uma produção reconhecida. Outra busca que acredito ser crucial à nossa produção audiovisual é o fato de trabalharmos para o público, não apenas fazendo filmes direcionados a festivais. Não basta apenas ter uma bela fotografia, uma técnica apurada se não afetarmos o espectador", sentencia o jovem diretor.

Fazendo coro com o estudante, Alvarenga acrescenta que, além da qualidade técnica de captação de imagens e de som, há uma carência de bons roteiros. "É preciso pensar na história que estou querendo contar. Isso faz o diferencial. É importante pré-visualizar o filme. A falta de planejamento acaba gerando produtos com uma cara mais amadora", diz o professor.

"Hoje em dia, todo mundo tem acesso a uma câmera. O grande diferencial é o conteúdo. Um filme se destacará por conceitos, ideias e mensagens contidos nele. A maioria das pessoas possui acesso aos meios de produção, mas vivemos uma crise conceitual. Esse é o grande paradigma dos nossos tempos", acrescenta Pimentel, para quem a criação de um Polo Cinematográfico só se "faz com vocação, investimentos, vontade política e planejamento a longo prazo". "Sem a comunhão destes quatro fatores, não dá certo. Se uma das pernas se romper, o barco naufraga. Juiz de Fora já tentou implantar isso no fim dos anos 90 e não foi para frente. Como os investimentos na área são muito baixos ou inexistentes, não vejo forma de que esta iniciativa dê certo no cenário atual."