Além da imaginação

Haruki Murakami conta em ‘Sono’ (com ilustrações de Kat Menschik) história de mulher que não consegue dormir (Divulgação)
É a partir da perplexidade das impossibilidades que Haruki Murakami escreveu parte de sua obra literária, tornando-se o mais popular escritor japonês em todo o mundo e reverenciado por um séquito de leitores – principalmente – em sua terra natal. Autor de livros como a trilogia “1Q84”, “Norwegian Wood” e “O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação”, ele segue surpreendendo a cada novo lançamento. Este é o caso de “Sono”(Alfaguara), escrito em 1989, que chega ao Brasil apresentando uma trama tanto improvável quanto perturbadora em seu âmago. Passada em seu Japão natal, “Sono” mostra a história de uma mulher casada com um dentista bem-sucedido, mãe de um jovem garoto e com afazeres domésticos cotidianos (preparar as refeições, fazer compras, limpar a casa), sem maiores reclamações quanto à vida. Na sua existência confortavelmente ordinária, a única excentricidade foi o mês na época da faculdade em que sofreu de grave insônia, da qual guardou segredo. Anos depois, sem motivo aparente, ela volta a sofrer de insônia, mas em um nível ainda mais profundo: se antes a protagonista conseguia dormir poucas horas durante o dia, agora passa dias e noites sem fechar os olhos. Porém, o que seria um pesadelo para tantos é visto com naturalidade por ela, que mais uma vez prefere guardar para si a experiência de suas noites em claro, encarando a situação como uma oportunidade de aproveitar a vida e não ter que compartilhar esses momentos com ninguém. Sem dormir por mais de duas semanas, ela consegue se manter tão (ou mais) alerta que antes: aproveita as horas extras para dirigir pelas ruas vazias durante a madrugada, esticar o horário da natação e reler “Anna Karenina”, de Tolstói, entre outros pequenos prazeres. Animada com sua “nova vida”, ela passa a executar as tarefas cotidianas mecanicamente, sem prazer ou desgosto – apenas com indiferença. Até mesmo a relação com o marido é vista como mais uma “tarefa” a ser cumprida sem alegria ou tristeza, tornando-se algo que faz parte do dia a dia. “Depois que deixei de dormir, passei a considerar fácil administrar a realidade. De fato, cuidar da realidade é uma atividade muito simples. Era tão somente a realidade. Consistia apenas em tarefas domésticas. Era como operar uma máquina simples, ou seja, uma vez aprendido o processo, o resto era apenas repetição: apertar um botão aqui e puxar uma alavanca ali; acionar uma engrenagem, fechar a tampa e ajustar o cronômetro. Uma mera repetição”, reflete a personagem principal em determinado momento. A sensação de ausência e indiferença é realçada pela prosa de Murakami, direta e concisa, que guia o leitor pelo novo mundo de sua protagonista em uma história curta e igualmente instigante, do tipo que é impossível de abandonar até a última e surpreendente página. Já as ilustrações da artista germânica Kat Menschik oferecem ao leitor todo o mundo onírico que a dona de casa não consegue mais desfrutar.








