Para abrir passagem
Portas e paredes separam os mundos. O de fora, cada vez mais ágil e tecnológico, e o de dentro, incessante estimulador de sutilezas e reflexões. Tudo é uma questão de tempo. Para visitar exposições hoje, o espectador precisa estar disposto a abandonar o ritmo habitual, ainda que a arte se ajuste a novos diálogos. Estacar diante de um quadro, admirar sua beleza e enxergar suas entrelinhas exigem esquecimento das horas. Na prática, cotidiano e museu se misturam, circundados por inúmeras possibilidades. Uma delas é a noção de que o espaço fechado deve atrair o público. Nesse caso, o que pode ser feito pelos curadores?
O tempo, ao que parece, está mesmo no centro do debate. "O desafio é encontrar maneiras de fazer as pessoas permanecerem na mostra em um contato de qualidade com as obras", observa o curador Antônio Cava, responsável pela exposição "O universo gráfico de Glauco Rodrigues", que estará no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) a partir do próximo dia 9. Paulo Alvarez, do setor de expografia do Mamm, cita uma frase do francês Paul Valéry para ilustrar o assunto. "O escritor nos advertiu que enquanto o artista passa anos desenvolvendo a ideia, o espectador leva apenas alguns minutos em frente a ela. É uma discussão antiga."
Nessa luta contra o relógio, entretanto, não vale deseducar o olhar dos visitantes. Assim pondera Cava, ao comentar que os indivíduos já estão mergulhados na vida virtual e necessitam repor os instrumentos lúdicos de outras formas. Do contrário, bastaria assistir ao evento de casa. "A teatralização que ocorre ao vivo é essencial." A curadora paulistana Paula Braga também acredita que as galerias devam oferecer vivências diferentes das rotineiras. "Prefiro uma exposição que fale ao corpo. Valorizo muito o lado sensorial da arte. Acho que daí brota a experiência estética."
Não que a tecnologia e outros mecanismos de aproximação sejam um problema. Na opinião de Cava, imprescindível é que as obras não fiquem em segundo plano. Ele exemplifica, criticando os variados jogos de interação da mostra "O mundo mágico de Escher", a mais vista do planeta em 2011, de acordo com a Folha Online. "É uma proeza louvável, mas resta saber se o público se conectou com os trabalhos e os ‘levou para casa’." Conforme Paula, recursos como esses jamais substituirão o embate direto com a arte de qualquer vertente. Ainda assim, ela cita estratégias que considera interessantes, como os "audiotours" (guias de áudio) em formato MP3, que podem ser baixados pelo espectador em seu celular ou MP3 player.
Em algumas situações, certos estratagemas são fundamentais. O pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves, aponta "Clarice Lispector – A hora da estrela", em cartaz no Museu da Língua Portuguesa de São Paulo em 2007, como uma iniciativa que explorou diversas mídias e aguçou o interesse pela leitura. Segundo Antônio Cava, como a obra de um escritor não é visual, é necessário ampliar o espaço da literatura. No caso da exposição "Fernando Pessoa, plural como o universo", elogiada por Cava, o visitante pode ler, ouvir, apalpar e sentir as palavras de Pessoa e de seus heterônimos de diversas maneiras. O projeto foi inaugurado em São Paulo, em 2010, apresentado no Rio, em 2011, e em Lisboa, este ano. "Em muitos casos, as possibilidades tecnológicas são úteis. Mas ainda estamos na fase dos exageros, do ‘oba-oba’. Hoje, qualquer evento conta com uma TV tela plana, como se isso fosse símbolo da modernidade", assevera Cava.
Convite para deslocamentos
No Inhotim – Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico, em Brumadinho (MG), a tecnologia assume a função de facilitar a relação com o frequentador. "O instituto, porém, se afasta da ideia de usar essa ferramenta para digerir a arte", enfatiza Maria Eugênia Salcedo, coordenadora de arte e educação. De acordo com ela, a própria arquitetura do instituto, em uma área de 97 hectares, propõe um diálogo ativo, já que não há roteiro definido, e os caminhos são muitos. "Trata-se de uma proposta integradora, que não subestima o indivíduo." O Inhotim também não se preocupa em atrair espectadores, mesmo estando localizado a 60km de Belo Horizonte. "O que fazemos é lançar convites de deslocamento, tanto no sentido físico quanto no sentido de percepção da arte contemporânea", destaca Maria Eugênia.
Na visão de José Alberto Pinho Neves, uma exposição não pode fazer a leitura completa para o público, ainda que seja preciso estabelecer a comunicação. "Antes de tudo, deve ser definido o conceito da mostra. Mas a montagem serve para contextualizá-lo, não para destruí-lo." Ele questiona, por exemplo, a linha de "Tarsila do Amaral – Percurso afetivo", que esteve no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, pelo foco na estética e não na cronologia.
Maria Eugênia defende a noção do sujeito como propositor. Para ela, o contato com as criações fundamenta-se nas experiências. "A arte-educação pode auxiliar nesse vínculo", explica. Paulo Alvarez concorda, atestando que o museu Tate, de Londres, considera esse o setor mais importante de uma instituição. "Com trabalhos assim, passamos a conhecer os frequentadores", diz Paulo. E acrescenta: "as múltiplas funções dos departamentos devem estar articuladas solidariamente. Um curador nunca é totalmente independente, pois está atrelado a condições específicas".
Detalhes práticos
Segundo a museóloga Célia Maria Corsino, diretora do Departamento do Patrimônio Imaterial do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a contemporaneidade vem exigindo mais dos museus. "As pessoas querem ter outras informações, conhecer objeto e contexto." Como menciona Paulo Alvarez, alguns detalhes práticos ajudam a acolher e a orientar os visitantes, mas sem mastigar as mensagens – desde as cores das paredes e o formato das etiquetas até a caligrafia do espaço e o estilo do texto de apresentação. "Para montar ‘A mesa’, de Yara Tupynambá, eu só tinha duas opções para não interferir nos tons mineiros escolhidos por ela: branco ou preto. Optei pelo branco", exemplifica Paulo. Antônio Cava traz para o debate um caso em que o cenário se sobrepôs às obras: a parte dedicada ao barroco na "Mostra do redescobrimento". "As flores roxas de papel ficaram mais na memória do que as peças."
Para Paulo, o curador se assemelha a um diretor de teatro, que conta a história do acervo, dando ênfase ao que lhe parece mais adequado e tendo como personagens autores e obras. Cava amplia a metáfora, salientando a necessidade de seleção das melhores imagens, como faz um cineasta. Resta que "espetáculo" ou "filme", do lado de dentro, escancare ainda mais as portas para a passagem do público.









