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Faroeste caboclo do Apocalipse


Por JÚLIO BLACK

06/03/2015 às 06h00

Mulher busca vingança em

Mulher busca vingança em “Soledad”, faroeste futurista filmado em Pernambuco

A história envolve amor, sexo, violência, traição, vingança. E morte, muita morte, tudo embalado pelo ritmo flamenco e cigano em um mundo pós-apocalíptico com todo clima dos clássicos western spaghetti, em que os mais fortes não perdoam e atiram primeiro. Ao contrário dos clássicos do gênero, porém, quem não perdoa e busca sua vingança é uma mulher, a principal personagem de “Soledad”, curta-metragem filmado em Pernambuco no ano passado e que agora busca os recursos para a pós-produção a tempo de participar dos festivais em todo o país.

O curta, dirigido por Flávia Vilela, Joana Gatis e Daniel Bandeira, conta a história de sua protagonista (a própria Joana Gatis) ao lado d’O Forasteiro (o alemão Peter Ketnath, de “Cinema, aspirinas e urubus) em um mundo devastado, em que passam o dia caçando e matando criminosos. Após ser traída pelo amante, porém, é chegada a hora da vingança. Para dar um clima agreste ao western made in Brazil, a maioria das filmagens foi realizada em janeiro de 2014 na Janga, uma conhecida praia na cidade pernambucana de Paulista, e também em Olinda.

Integrante do triunvirato de diretores, Flávia Vilela conta que a ideia para o curta surgiu em 2010, em um sonho de Joana. “Ela contou o sonho para mim, e sugeri que escrevêssemos o roteiro. Ele acabou se transformando em um faroeste quando ela se mudou para Recife (Pernambuco), e foi lá que conseguimos a verba de R$ 100 mil, em 2013, por meio do Funcultura, a lei de incentivo à cultura da cidade”, relembra. “Quando o Daniel veio participar do projeto, ajudou muito. Mesmo sendo uma história feminina, nós queríamos um personagem masculino de destaque. Ele surgiu com O Forasteiro e reescreveu o roteiro. Nós pensamos muito nas situações, mas não na ação, e foi isso que ele incluiu na história.”

Para quem já teve a oportunidade de assistir ao curta – ainda que faltando alguns detalhes para ser considerado 100% pronto -, “Soledad” carrega uma forte carga de tensão, erotismo, violência e drama, num raro faroeste filmado na praia e que, ao mesmo tempo em que emula os westerns estrelados por Clint Eastwood, também inclui na trama um visual pós-apocalíptico que não faria feio em “Mad Max”. A trilha sonora de Clayton Martin, da banda Cidadão Instigado, ajuda a criar o clima de faroeste deslocado no tempo que “Soledad” possui. “A gente sempre gostou muito de faroeste, consideramos que este é inspirado nos dias atuais. O Clint Eastwood inspirou o visual do Forasteiro. O Peter se interessou pelo roteiro e veio da Alemanha para filmar. A gente queria que O Forasteiro fosse diferente de todo mundo que vivia ali, tanto que ele é o elemento motivador da história, o cara mais moderno, que tem uma moto.”

Com pouco mais de 20 minutos de duração, o curta é marcado pela ausência de diálogos e a marcante trilha sonora, além dos tiros ocasionais. “O filme já nasceu sem fala, a gente queria contar a história assim.”

Apesar de todo o trabalho intenso, “Soledad” ainda não pode ser considerado finalizado, precisando de mais R$ 30 mil para a pós-produção. Para fechar a conta, a equipe do curta-metragem vai lançar no próximo domingo uma campanha de arrecadação no site www.catarse.me, que permanece no ar até 8 de maio. “Nós tivemos uma direção de arte muito bem trabalhada, com a Dani Vilela e o Diogo Costa. O Pedro Sotero (diretor de fotografia) trabalhou em ‘O som ao redor’, e o Alessandro Correa, de Juiz de Fora, fez os storyboards.

Quando as filmagens terminaram, demos uma parada, agora terminamos a montagem e partimos para a campanha. Queremos terminar o filme a tempo de participar dos festivais ainda este ano. Esse curta foi um trabalho de equipe, consideramos que ‘Soledad’ é de todo mundo que participou”, destaca Flávia. Segundo ela, o escritor Xico Sá e o ator Gregório Duvivier escreveram dois textos sobre o curta que serão lançados com a campanha. Dependendo do valor oferecido, o apoiador pode receber em troca mimos como desenhos inspirados no filme, cartazes e até mesmo o crédito de apoiador ou patrocinador.

A paixão pelo cinema surgiu para Flávia quando ela morou em Juiz de Fora, entre 1999 e 2006. A mineira de Serranos fez comunicação social na UFJF. “Quem despertou minha paixão pelo cinema foi o professor Cristiano Rodrigues. Com ele e outros alunos, fiz um documentário (‘Conquista na fronteira’), decidi largar o jornalismo e fiz um curso em Cuba, onde realizei outro documentário (‘Elegua’)”, diz a jovem cineasta, que trabalhou como segunda assistente de direção em longas como “Hoje eu quero voltar sozinho” e busca colocar na praça, agora, sua primeira obra de ficção.