Tá na rede!
"Nascemos, vivemos por um momento breve e morremos. Tem sido assim há muito tempo. A tecnologia não está mudando muito este cenário." A frase é de Steve Jobs, grande empresário do mercado digital, morto em 2011, e data de uma entrevista concedida à revista "Wired" em 1996. Embora a revelação do nome do autor pressuponha um conhecimento de causa, é possível desafiar a afirmação, bastando apenas observar as últimas décadas. Apesar de termos, invariavelmente, o mesmo início e o mesmo fim que Jobs descreve, os "breves" dias de nossa passagem pela Terra têm sido cada vez mais impactados pela tecnologia, sobretudo sobre o uso da internet – seja em computadores, tablets, smartphones ou qualquer outro suporte.
Prova dessas transformações é a grande adesão do público a produtos audiovisuais não apenas veiculados pela web, mas produzidos especificamente para este formato. No Brasil, o melhor exemplo atual é o fenômeno "Porta dos fundos", humorístico que reúne diversos nomes com experiência não somente na comédia, mas também em produções online. "Resolvemos apostar na internet no presente, e não como uma promessa de um futuro na TV ou outro meio. Então decidimos fazer um produto de qualidade, escrito, dirigido, atuado, editado, enfim, completamente voltado para a internet", conta o ator e roteirista Fábio Porchat em entrevista à Tribuna.
Na visão de Porchat, protagonista de "Spoleto", um dos episódios mais aclamados da série – que ironiza o tempo de atendimento da rede de restaurantes e levou a uma parceria com a marca -, a liberdade de expressão que a internet possui é o maior trunfo do meio. Para ele, a exploração deste recurso pode estar iniciando um processo de reinvenção da televisão. "Acho que ainda demora para haver uma transformação do cenário atual, mas a TV está começando a acordar para a importância da internet. Um sinal disso é a contratação do Marcelo Adnet, um cara super ligado à internet, pela Globo, e o fato de vários canais de televisão já terem sondado a gente", diz Fábio, garantindo que o grupo pretende se manter como está: priorizando a web.
Já a atriz Letícia Lima, estrela de diversos episódios da "Porta dos fundos", a maior autonomia autoral proporcionada pela rede permite que o trabalho dos atores seja visto com outros olhos. "A gente pode ousar mais, falar de assuntos que a TV, principalmente a aberta, não permite. E o público da internet assiste aos vídeos ou episódios na rede porque quer, porque gosta mesmo, e não porque a TV está ligada de bobeira em casa. Isso faz com que as pessoas prestem mais atenção no seu trabalho, o que normalmente é muito gratificante."
Idealizador do humorístico "Qu4tro coisas", veiculado no Youtube, o publicitário Pablo Peixoto, formado em comunicação social pela UFJF, acrescenta que essa liberdade do meio acabou delineando um formato comum a algumas produções, esperado e apreciado pelos internautas. "É um certo descomprometimento com a qualidade, que acaba sendo estético. Na internet você tem mais espaço para errar, o público gosta de ver algo meio mal feito, porque passa um ar de honestidade, de verdade, coisa que a TV com seus padrões de qualidade não possui." Desde a criação do canal, em 2011, o "Qu4tro coisas" atingiu rapidamente a meta inicial de Pablo, de obter 20 mil "views" (visualizações) para cada vídeo, além de já ter sido indicado como "videocast" do ano pelo Youpix, o maior prêmio de cultura de internet do Brasil.
Apesar da grande popularidade da comédia, outros gêneros vêm conquistando os internautas brasileiros. Um deles é o drama de ficção científica "3%", inicialmente concebido para a TV, que se passa em um mundo onde as pessoas podem se inscrever em um processo seletivo em que apenas 3% são aprovados e aceitos em um mundo melhor. "Após a exibição do piloto na TV, decidimos investir na internet, postando o piloto, dividido em três vídeos menores, no Youtube e o sucesso foi imediato. Acho que um dos motivos pelos quais o "3%" funciona tão bem na web é este público naturalmente ávido por participação e interatividade, que especula, cria significados, quer saber o que acontece… isso tudo aliado a um universo narrativo rico e misterioso", opina a diretora Daina Giannecchini.
Já outro hit do gênero é "2012- Onda zero", também uma ficção científica, aborda o transporte para um planeta devastado, como previram as profecias apocalípticas para o ano passado. A produção foi criada especificamente para a internet e, segundo o diretor Flávio Longoni, o maior desafio do meio é a fidelização do público, algo que exige linguagens e formatos específicos. "Fizemos pesquisas e ficou claro que teríamos que fazer algo novo, com tempo de duração e narrativa exclusivos. Diferente da TV e do cinema, onde você senta no sofá ou poltrona para assistir a exibição e já existe aquele clima de apenas absorver o que está sendo transmitido, na web o internauta já está no computador com a mãozinha nervosa, pronto para clicar em alguma coisa. Se não conquistar o publico nos primeiros 20 segundos, ele não voltará mais."
Apesar de reconhecer e apreciar a maior liberdade de expressão e o baixo custo nas produções online, Pablo Peixoto aponta limites para estas duas vantagens. "Quem quer lucrar tem que, mais cedo ou mais tarde, se comprometer, por isso acho importante criar um modelo que permita a inserção publicitária naturalmente, sem parecer empurrado goela abaixo do público. Além disso, e também por isso, ainda que você consiga escrever, gravar, postar a distância, acho que estar fisicamente em São Paulo me deu oportunidade de fechar negócios e fazer contatos que seriam impossíveis em Juiz de Fora, onde morei por anos. Portanto, uma presença física é tão importante quanto uma digital."
Já Fábio Porchat destaca que um dos problemas é o fato de a internet ser vista como uma mídia experimental, inferior às outras, por uma grande parte da população. "Falando de forma generalizada, as pessoas ainda não a levam muito a sério, existe um certo preconceito que relaciona a internet a produções feitas sem qualquer profissionalismo. Isso é verdade até um certo ponto, mas não reflete a realidade como um todo. Nosso trabalho tem tentado mudar essa visão, e acho que estamos conseguindo fazer as pessoas olharem a web de uma forma mais profissional, sem que tenham que deixar de rir."
Pablo também argumenta neste sentido, destacando uma certa hegemonia da TV sobre as produções voltadas para a rede, mesmo acreditando que estas estejam contribuindo para a criação de uma cultura de espectadores online. "Hoje a garotada julga que a internet se conecta melhor com eles que a televisão. Porém, a TV ainda tem um fascínio e um glamour muito grande. Tacitamente, chegar na TV é como um diploma de que você ‘venceu na internet’. O formato do ‘Qu4tro coisas’, por exemplo, é bem televisivo, tanto é que estamos negociando com um canal de TV paga a transmissão prioritária e semanal dos websódios."









