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Muito além dos sertões


Por JÚLIA PESSÔA*

06/02/2013 às 07h00

Tiradentes (MG) – O Brasil precisa abandonar a ideia de que só se faz cinema nacional no Rio e em São Paulo e que, em qualquer outro lugar, faz-se cinema regional. Os cineastas nordestinos têm um papel fundamental na mudança deste imaginário. A afirmação do crítico Jean-Claude Bernardet chama atenção para algo que pesquisadores, críticos e cinéfilos vêm discutindo, e que a programação da 16ª Mostra de Tiradentes reflete: qualquer possibilidade de renovação do cinema brasileiro passa, necessariamente, por uma análise da produção nordestina. E esse olhar deve ir além do senso comum de citar Glauber Rocha e o Cinema Novo, por exemplo, mas voltar-se para o que tem sido feito nos últimos anos.

Para o paraibano Taciano Valério, que abriu o festival mineiro com seu Onde Borges tudo vê e teve outro longa, Ferrolho, na mostra competitiva, o destaque de sua terra natal não aconteceu por acaso. O Nordeste sempre teve uma tradição forte de cinefilia e de cineclubes, que contribuiu para a formação de muitos realizadores como Marcos Villar, Cláudio Assis, entre tantos outros, que plantaram a semente do que está acontecendo hoje, um cinema de pensamento e de arte.

Em sintonia com Valério, Alexandre Veras, diretor de Linz – onde todos os acidentes acontecem, produção do Ceará que levou menção honrosa em Tiradentes, aponta que o investimento na formação dos realizadores nas últimas décadas tem grande responsabilidade no destaque dos nordestinos na cena nacional. Iniciativas como a Vila das Artes, um órgão municipal de fomento à cultura de Fortaleza, formaram muita gente, e isso se desdobrou, por exemplo, na Alumbramento Produções, que responde por uma parte significativa do que é feito no Nordeste. Esse agrupamento de pessoas dispostas a trabalhar criou a possibilidade de fazer cinema sem estrutura industrial e sem as amarras que ela pressupõe.

Na visão de Bernardet, um traço marcante desta cinematografia sem amarras é a reconstrução da identidade regional, algo que, para Taciano Valério, se reflete no fortalecimento da temática urbana nas produções. Temos todo um imaginário de sertões que foi muito explorado historicamente no cinema, mas a realidade é muito maior do que estes retratos. Até hoje, filma sim, no sertão, lugar de dificuldades, deslocamento e de encanto, mas o urbano vem crescendo cada vez mais nas narrativas. Filma-se em Recife, Caruaru, Fortaleza e João Pessoa como nunca, e isso é um aspecto fundamental da identidade que vem sendo construída pelo cinema.

Nestes cenários urbanos, segundo Bernardet, nacional e regional confundem-se, resultando em cidades universais. Atualmente filma-se uma história de amor no Nordeste em uma cidade que poderia ser em qualquer lugar do país, as características locais não são determinantes para a narrativa. Já Alexandre Veras ressalta que os elementos estéticos locais têm, sim, um papel decisivo na construção fílmica, mas já não possuem a obrigação de traduzir a identidade local. Os filmes dialogam com o espaço em que eles se materializam, e ele emerge em sua singularidade, com muita relevância narrativa, mas não precisa – pelo menos não mais- ser aquilo que norteia o filme.

Taciano pondera que, apesar das inovações de linguagem, temática e estética, além de investimento crescente dos governos nordestinos – citando os de Pernambuco e da Paraíba como exemplo -, ainda há entraves em se produzir fora do eixo Rio-São Paulo. Há uma questão política forte relacionada a editais e iniciativas de fomento, ainda concentradas no Sudeste, então muitos filmes procuram obedecer aos padrões ditados por este centro. O crescimento da produção fora deste eixo – e de seus preceitos estéticos e de linguagem – não agrada todo mundo, quando deveria promover um sentimento de pertencimento mais forte, de uma nação inteira com igualdade de condições para produzir.