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Para afiar a imaginação


Por RAPHAELA RAMOS

05/10/2011 às 07h00

Não apenas romances e poesias. O ato de ler também se ajusta ao teatro. Afinal, a dramaturgia está inserida na literatura, e a tragédia, como garantiu Aristóteles em sua "Poética", sempre existiu por si mesma, independentemente da representação e dos atores. Desde 2003, o coordenador geral do projeto "Teatro lido", Marcos Marinho, aposta no interesse do público pelo texto teatral. "As pessoas são atraídas por possibilidades de conhecer obras raras e de exercitar a imaginação", comenta Marinho, prestes a lançar nova maratona. Para ele, ao final de cada leitura encenada, os espectadores têm sua montagem particular desenhada na mente, mesmo que as apresentações recebam figurinos, cenários e adereços. "Sempre há brechas para a criatividade da plateia."

Neste ano, a primeira performance, marcada para hoje, pretende valorizar ainda mais a palavra. A peça "Despropósito", do argentino Leonel Giacometto, será lida em português e em espanhol. Segundo Marinho, a proposta já integrou outras edições e surgiu depois que muitos espectadores demonstraram curiosidade em conhecer os textos no original. Para colocar a ideia em prática, o coordenador precisa garimpar narrativas curtas e atores acostumados com o idioma dos "hermanos" latino-americanos. Ao lado de Angélica Joppert, Aliciane Rodrigues e do próprio Marcos Marinho, o não ator Ricardo Mendes participa da leitura de estreia, com direção de Gabriela Machado. Como explica Marinho, depois de acompanhar diversas versões do "Teatro lido", Ricardo, que domina o espanhol, acabou indo para o palco. "Muitos espectadores se oferecem para participar. É interessante observar como a iniciativa atinge o público."

Pérolas

Com apoio da Lei Murilo Mendes e do Restaurante Estação Gerais, a edição 2011 irá apresentar nove dramaturgias contemporâneas de diferentes estilos e países: Brasil, Argentina, Chile, Equador, Colômbia e Costa Rica. A curadoria, assinada por Marinho e pelo ator José Eduardo Arcuri, precisou pinçar os textos entre muitos enviados pela instituição cubana Casa de las Américas e pelos próprios autores – muitos não traduzidos para o português. A tarefa se mostra mais desafiadora a cada ano, já que, segundo o coordenador, a rede de relacionamentos tem aumentado. Tempos atrás, ele teve a oportunidade de apresentar o projeto em uma mesa de debates latino-americana do Festival Internacional de Teatro Palco & Rua (FIT) de BH. Por lá, reuniu inúmeros contatos e textos. Desde janeiro, mais de cinco livros chegaram pelo correio, além de incontáveis e-mails.

Na programação, estão incluídas pérolas como a peça "Levados", de Rafael Martins, um jovem e ainda desconhecido dramaturgo do Nordeste. A comédia "O planeta das macacas" também revela o trabalho de um escritor quase anônimo do interior, J. Silva. Descoberta por pesquisas para uma coleção do Prêmio Cena Minas, a narrativa é representante da categoria circo-teatro. Apesar dos variados gêneros, as obras selecionadas expõem um tema recorrente: a travessia. "Sem querer, ele foi surgindo. As histórias falam de passagem e exílio", comenta Marcos Marinho.

Muitas mãos

Desta vez, mais de 80 artistas participam das leituras, entre atores, encenadores e tradutores. Para lapidar as performances, cada um a seu modo, foram convocados os diretores Zezinho Mancini, Toninho Dutra, Sérgio Arcuri, Renata Rodrigues e Gabriela Machado, além do próprio Marinho. No ofício da tradução, estão o coordenador e as convidadas Gabriela Machado, Renata Meffé, Ana Paula Carvalho e a equatoriana Manuela Barahona. A produção executiva é de Heloisa Marinho.

 

TEATRO LIDO 2011

Toda quarta, às 20h30

Até 30 de novembro

Mezcla

(Rua Benjamin Constant 720)

3083-2351