De Nova Orleans ao ‘jás’
"Todo mundo sente o blues." Em poucas palavras, o premiado multiinstrumentista Johnny Sansone, filho pródigo de Nova Orleans, uma meca do jazz e do blues, resume o sentimento que permeia o JF Vijazz e Blues. Aberto hoje com Johnny e o consagrado João Donato, prata acreana da casa, o festival traz na sexta os espanhóis da Cosmosoul e o bluesman carioca Big Joe Manfra, que dividem o palco do Cultural. No sábado, a programação reverencia os músicos locais, com apresentação de Márcio Hallack e Dudu Lima no Museu Mariano Procópio, que recebe, no domingo, o Juarez Moreira Trio, da capital mineira, e o gaitista americano Peter Madcat.
Criado em 2007, o Vijazz tem origem na cidade de Viçosa, com a proposta de ampliar o alcance cultural do jazz e do blues. Com o sucesso da iniciativa, o evento acabou sendo descentralizado, levando atrações também a Juiz de Fora e às cidades mineiras de Ponte Nova, Araxá e Belo Horizonte.
Segundo o compositor, pianista e arranjador João Donato, são festivais como o Vijazz que mantêm o jazz vivo ao redor do mundo. "Não é uma realidade restrita ao Brasil. Mesmo nos Estados Unidos, os músicos de jazz acabam trabalhando em bandas de outros gêneros para sobreviverem. O jazz não toca muito no rádio, na TV, nas casas noturnas, não é popular, apesar de ser imbativelmente apaixonante", conta ele, que pronuncia "jás", deixando a assinatura brasileira no estilo.
A brasilidade também fica impressa nas notas musicais de Donato. Vencedor do Grammy latino de 2010 na categoria "melhor disco de jazz latino" por "Sambolero", o músico é famoso por temperar o jazz clássico de tradição estadunidense com pitadas de vertentes latinas diversas. "É algo intuitivo, orgânico, uma mistura de tudo que ouço e acabo expressando em jazz, que permite essa liberdade de criação como nenhum outro gênero."
Embora tenha especificidades que o distingue do jazz, como o uso de diferentes escalas de acordes, o blues também abre espaço para improvisos e incursões criativas. "É isso que o torna atemporal. O ‘feeling’ do blues está presente em diversos gêneros contemporâneos, do rap ao hip-hop. Parece que, de tempos em tempos, o blues se funde a outros estilos e cria uma nova tendência musical, e é isso que o mantém no topo", observa Johnny Sansone, vencedor do prêmio de canção do ano no Blues Music Awards 2012, pela intensa "The Lord is waiting and the devil is too", pelo diálogo entre a gaita e os vocais de Sansone, ambos estrondosos.
Na abertura do Vijazz, diversas raízes musicais se encontram, se misturam e deságuam em diferentes leituras do jazz e do blues. João Donato trafega à vontade por clássicos internacionais como a bela "Speak low", imortalizada por artistas do timbre de Billie Holiday e Chet Baker, e por autorais de diversos períodos da carreira. Entre estas, figuram "Minha saudade", gravada em 1955, que ganhou letra de João Gilberto, também parceiro em "Glass beads". "Tenho me divertido muito ao fazer um repertório tão variado, que não costumo tocar. Os músicos estão contentes, e, por isso, estamos todos cumprindo nosso papel primordial: levar alegria às pessoas. É revigorante. Vou fazer 80 anos e me sinto um garoto."
Já Johnny Sansone vai do lamento à voracidade, e todos os caminhos levam ao blues. A contemplativa "In my dream" destila emoção ao falar sobre Nova Orleans, ao passo que "The night the pie factory burned down" narra com sincero sofrimento o incêndio de uma confeitaria. O choro blueseiro explode em arranjos vibrantes em canções como "Sang with the gipsy" e "Ranton with Stanton, mostrando a versatilidade do artista. "Toda vez que subo ao palco, sinto uma responsabilidade de manter viva uma tradição que me foi passada, assim como transmiti-la a outros jovens artistas. Estou muito feliz pela oportunidade de levar meu trabalho ao Brasil, e não conterei esforços para que cada pessoa se sinta tocada por nossa música."
JOÃO DONATO E JOHNNY SANSONE
Hoje, às 20h
Cine-Theatro Central
(3215-1400)









