‘Tríade’, livro de Júlio Polidoro, traz existencialismo, metafísica e memória para poesia
Em entrevista à Tribuna, poeta conta inspirações e temáticas que guiaram livro lançado no final de 2025, 47 anos depois de sua primeira publicação

47 anos separam a primeira publicação de Júlio Polidoro na poesia de “Tríade”, livro lançado no final de 2025. A obra simboliza um processo de retomada das publicações impressas, que já começaram com “Daroês”, de 2024, mas não de retomada da escrita. Isso porque todos esses anos foram repletos do exercício: desde 2004, quando lançou “Outro sol” – contemplado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, sob o selo da Nankin Editorial e Funalfa -, Júlio postou diversos poemas nas redes sociais, especialmente Facebook, Instagram e YouTube. Sua poesia mistura elementos do existencialismo, metafísica e, especialmente, de memória, para provocar reflexões e criações originais.

Tribuna: De que maneira “Tríade” difere das suas publicações anteriores?
Júlio Polidoro: Em relação às publicações anteriores, penso que “Tríade”, a rigor, mantém os eixos centrais de minha poesia, talvez com um acréscimo maior de leituras um pouco fora das especificidades da poesia, em especial textos da tradição sufi e outras vertentes afins — mas sempre lendo poesia, também.
Temáticas recorrentes são inevitáveis. Aliás, certa vez, em uma conversa informal, [Fernando] Fiorese comentou que “passamos a vida toda escrevendo o mesmo poema”. Sempre me lembro desse comentário e o considero pertinente. O último verso é o próximo… E os temas recorrentes e inevitáveis são as questões que, desde sempre, nos inquietam: a morte, o sentido da morte, quem ou o que é Deus (segundo Rosa, as duas questões capitais para o homem). Essas temáticas estiveram, estão e estarão presentes.
Seus poemas misturam existencialismo e uma reflexão sobre o tempo e a transcendência. O que te desperta interesse por essas temáticas e de que maneira sua poética se relaciona com elas?
A perspectiva existencialista é um estranho contraponto. Ao mesmo tempo em que, sob tal enfoque, minha poesia assume — ou pretende assumir — a responsabilidade sobre seu próprio existir, outra vertente vem colidir com ela: a vertente metafísica, a questão ontológica, a crença, a descrença, o diálogo com algumas escolas de conhecimento, um esboço de fé e, ao mesmo tempo, um certo pessimismo em relação a tal esforço.
Houve um tempo em que acreditei piamente em coisas como reencarnação, lei do carma, ação e reação. Já não tenho convicção, mas gosto da possibilidade. Gosto de pensar que é possível, assim como gosto de acreditar em inspiração.
Por conta da pretensa busca por conhecimento esotérico, andei afastado dos meus pares dos tempos do folheto “Abre Alas” e da revista d’”lira”, sem nunca os perder totalmente de vista. Mas, justamente quando me reaproximei e ia compor o conselho editorial da d’”lira” e voltar a publicar minhas colaborações, a revista encerrou suas atividades. Uma pena. Com meu retorno ao livro impresso, a partir de 2024, tenho experimentado a alegria do convívio — ainda escasso, para mim — com esses velhos parceiros e amigos, desde o início dos anos 1980: Fernando Fiorese, Edimilson de Almeida Pereira e Iacyr Anderson Freitas.
Você percebe outros temas nucleares na obra? Sente que eles permaneceram ao longo da sua carreira como escritor?
A memória. Apesar de subordinada ao tempo, ocupa um nicho especial na minha produção.
O livro é dividido entre “A rosa e o vento”, “Transe” e “Vinte poemas afluentes”. O que compôs essa estrutura e como foi feita a seleção dos poemas?
A rigor, nunca fui um organizador disciplinado do meu trabalho. A disposição textual não se orienta, na maior parte das vezes, por algum projeto preestabelecido. Vou juntando material e, a certa altura, dou-me por satisfeito e considero o conjunto pronto para um livro. Com “Tríade”, não foi diferente.
A respeito de minha oficina poética, Edimilson [de Almeida Pereira] escreveu, no prefácio de meu segundo livro, “Pequenos assaltos”: “a irregularidade é a ordem do belo” ou “Pequenos assaltos exemplifica a ordenação nascida da desordem”. Pode-se dizer que meu processo criativo, assim como a forma como disponho os poemas constitutivos de uma nova obra, não mudaram muito: é mais ou menos o mesmo modus faciendi.
Como os poemas incorporam referências ao estoicismo, ao hinduísmo, ao yin e yang e ao oracular?
Durante meu tempo “recluso”, li bastante coisa: Yogananda, Paul Brunton, Osho, Ramana Maharshi, livros da FEEU (Fundação Educacional e Editorial Universalista), Jorge Adoum. Frequentei a Rosacruz (AMORC e Fraternitas), centro kardecista, Umbanda, União do Vegetal, Ananda Marga, Ponte para a Liberdade, Suddha Dharma Mandalam e outras denominações. Do estoicismo, talvez uma certa simpatia — assim como por Camus, quando apresenta Sísifo como um sentenciado que desafia os deuses, cumprindo sua pena com altivez sempre maior, a cada chegada ao cimo, mesmo sabendo que a pedra rolará novamente.
Você se identifica com movimentos poéticos atuais? Qual é o papel da experimentação na sua obra?
Não sou um leitor compulsivo, voraz, hoje em dia. Já fui. Tenho lido coisas novas e relido outras. Mas a maior parte das novas leituras não diz respeito a novos autores, e sim a vários que já me são familiares. Portanto, não posso dizer que me identifico com qualquer tendência ou movimento atual, por puro desconhecimento.
Quanto ao papel da experimentação em minha obra, bem, depende da amplitude do conceito. Em alguns momentos, realizei, sim, algumas experiências, mas devo dizer que ainda não encontrei, nem vi, ou conheci algum outro formato que tenha me convencido ou impressionado mais do que a palavra escrita, a qual permanece sendo, a meu ver, a ferramenta mais eficaz para a criação literária.









