Ouça agora

11 artistas nos cadernos e nas paredes


Por MAURO MORAIS

05/04/2015 às 06h00

Concebidas como objetos de arte, encadernações da Bodoque remontam cadernos do artista

Concebidas como objetos de arte, encadernações da Bodoque remontam cadernos do artista

Em tempos de tantos teclados – computador, celular, tablet e outros tecnológicos aparelhos – pegar papel e caneta é quase ação de saudosismo. É resistência. E como um ato desses, a exposição “A arte do ofício”, em cartaz na galeria Hiato – Ambiente de Arte até o próximo dia 11, se debruça sobre o valor do papel, do processo artesanal e da presença da arte em objetos cotidianos. “Talvez o principal seja, especialmente, a sensação de obsolescência do registro virtual. As coisas acontecem muito rapidamente na rede”, comenta Frederico Lopes, diretor da Bodoque – Artes & Ofício, que produz encadernações artísticas e faz restauros de obras em papel.

“Ao acompanhar os registros de nossas próprias vidas, por exemplo, pelo conteúdo das redes sociais, ‘autoeditáveis’, é possível perceber o quão volátil é o caminho que as opiniões, os momentos (registrados fotograficamente) e a própria vida tomaram. Pouca coisa permanece”, reflete Frederico, que, entre tesouras, colas, linhas e uma produção de arte, faz seus cadernos. “O processo artesanal vai na contramão desse ‘rolo compressor’ que tornou a própria vida um processo industrial rápido, eficiente e massificado”, completa ele, que agora apresenta 11 novos trabalhos, estampados por artistas de Juiz de Fora.

Reunindo as séries de dez (o que comprova o caráter artístico dos cadernos) e os originais dos artistas, além de outro trabalho representativo da carreira de cada um, a exposição acaba por contemplar procedimentos diferentes, como fotografia, pintura e desenho. Charleston Hokama, Fabrício Carvalho, Giuliano Alves, Guilherme Melich, Luiz Gonzaga, Matheus de Simone, Nina Mello, Petrillo, Ramon Brandão, Selma Flutt e Xurume formam um recorte que também ajudam a falar um pouco da cena das artes visuais do presente da cidade. Em comum, os trabalhos exalam certa preferência pela beleza das pequenas imperfeições.

Ateliê de bolso

“A ideia é valorizar essa produção, esses objetos de design que têm apelo estético muito refinado, além de divulgar e contribuir com os artistas de nossa cidade. Isso ajuda a formar um público frequente, porque mostra que a arte é algo mais fluido”, aponta Petrillo, artista visual e diretor da Hiato. “O objetivo é aproximar a arte, como campo do conhecimento, como conceito, do ofício, que envolve o fazer técnico, a relação direta do artista enquanto artesão, com o domínio técnico das possibilidades de transformação da matéria-prima. Queremos fazer obras de arte em suporte caderno”, reforça Frederico.

Para além do valor simbólico de um caderno de anotações, Frederico também destaca o papel que os mesmo sempre tiveram no sistema de arte. “O caderno sempre foi um companheiro fiel dos artistas. É ele o responsável por organizar ideias que deram origem a grandes obras de arte. Ele é o responsável por trazer à tona a genialidade aprisionada no imaginário do artista para a materialidade do mundo, onde todos podem tomar conhecimento. É uma espécie de ateliê de bolso”, diz. Numa metalinguagem, esses “ateliês de bolso” exibem e exaltam os ateliês reais, apresentando criações que podem, muito bem, ter brotado de um caderno.