Arte eternizada no papel

“Agora temos a honra e a satisfação de apresentar a exposição ‘Coleções em diálogo: Museu Mariano Procópio e Pinacoteca de São Paulo’, reunindo os acervos das duas instituições. O museu, localizado em Juiz de Fora, possui um dos mais notáveis conjuntos de obras de arte histórica fora do eixo Rio-São Paulo.” Com essas palavras, Ivo Mesquita, diretor técnico da Pinacoteca de São Paulo, abre o catálogo de mesmo nome da mostra com obras pertencentes à casa fundada por Alfredo Ferreira Lage e em cartaz no museu paulista desde novembro de 2014. A publicação será lançada oficialmente nesta quinta-feira, na Pinacoteca (financiadora da empreitada), em uma mesa de debates com Maraliz Christo, Arthur Valle, Ana Paula Simioni e as curadoras Valéria Piccolli e Fernanda Pitta, especialistas e autores de textos que integram a obra.
Prevista para ocupar o espaço até 22 de março deste ano, a exposição continua por lá até 19 de abril. Segundo Fasolato, a estimativa é de que mais de 400 mil pessoas tenham transitado pelas galerias durante o período. “A receptividade está ótima, e o projeto está mobilizando Juiz de Fora, pois tem até grupos de visitas indo daqui à Pinacoteca para ver as obras. A circulação das coleções dos museus é muito comum na Europa. É a oportunidade de haver uma fruição para além dos limites da cidade ou do espaço em que a instituição está circunscrita”, observa o diretor do Museu Mariano Procópio, Douglas Fasolato.
As 286 páginas do catálogo, que ganhou luxuosa encadernação de capa dura, permite eternizar no papel pinturas, desenhos e esculturas relevantes para a história da arte brasileira. Nele, estão trabalhos de Nicolau Facchinetti, Henri Nicolas Vinet, Benno Treidler, Hipólito Caron, Henrique Bernadelli, Rodolpho Amoêdo, Antonio Parreiras, Silva Porto e Queirós, Pinelo Llull, Charles François Daubigny, Belmiro de Almeida, entre outros. A venda está sendo realizada no local e na loja virtual do site http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca-pt/ a
R$ 60. Idealizado para encantar os olhos de leigos e iniciados em arte, o catálogo, com tiragem de mil exemplares, traz as 42 obras, incluindo as mais de 30 que receberam rigoroso tratamento de conservação e restauração, custeado pela Pinacoteca.
Trajetórias semelhantes
Em texto da obra, Fernanda Pitta e Valéria Picolli escrevem sobre a ideia de dispor o acervo juiz-forano ao lado de peças da Pinacoteca. “Ao confrontar seu próprio acervo com obras vindas de outras instituições, a Pinacoteca busca ampliar as possibilidades de interpretação do conjunto de obras exposto, de modo a atender uma de suas mais relevantes missões: a produção sistemática de conhecimento sobre e a partir das coleções que conserva”, afirmou a dupla, cuja opção curatorial de agrupar os trabalhos a partir de três pontos principais – “A pintura de paisagem”, “Programas decorativos e imagem para a nação” e “Representações do feminino” – foi adotada no catálogo. Pós-doutoranda em história pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Sonia Maria Fonseca desperta a atenção do leitor para “A paisagem francesa no Museu Mariano Procópio”, ao iniciar seus escritos sobre “À beira do Oise” (1878), de Charles-François Daubigny. “Vislumbramos uma paisagem fluvial tomada ao anoitecer, em um lugarejo com sua igrejinha e algumas casas no entorno, com lavadeiras e gansos no ir e vir de uma encosta. (…) O céu crepuscular manchado de tons de cinza, branco e nuances de amarelo, representando a luz fugidia, que se reflete sobre a água em uma pequena vila francesa retratada na penumbra, é um cenário recorrente na obra da maturidade de Daubiny.”
A seção seguinte traz Maraliz, também organizadora da publicação, os pesquisadores Robert Daibert Junior, Maria do Carmo Couto e Arthur Valle com observações sobre “Programas decorativos e imagens para a nação”. É nessa parte que nos deparamos com a emblemática tela de Pedro Américo, “Tiradentes supliciado”, de 1893. “Foi concebida por Pedro Américo não como tela isolada, mas como parte de uma narrativa sobre a Conjuração Mineira estruturada na forma de tragédia, onde o herói é punido pelo erro de acreditar na elite intelectual mineira”, conta Maraliz, doutora em história pela Unicamp.
Continuando a percorrer o rico recorte, Ana Paula Cavalcanti Simioni, Valéria Mendes Fasolato, Carlos Lima Junior, Samuel Mendes Vieira e Maraliz apresentam obras produzidas por artistas mulheres ou que evidenciam a representação da mulher artista. “A coleção de Alfredo Ferreira Lage, gestada nessa cultura finissecular, possui um conjunto significativo de obras dedicadas às múltiplas representações sobre a feminilidade”, sentencia Ana Paula Cavalcanti Simioni, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Culturas e Identidades Brasileiras da Universidade de São Paulo. Nas linhas traçadas pela estudiosa, merecem especial atenção o “Retrato de Maria Amália Ferreira Lage” (1939, mãe do colecionador), assinado pelo pintor português José Júlio Souza Pinto, e “O segredo” (1907), escultura em bronze, confeccionada por Nicolina Vaz de Assis, que figura um anjo sussurrando palavras nos ouvidos de uma imagem feminina.








