Arte lúcida
Para um jovem estreante, a contemporaneidade é vista como causa natural. A atualidade pertence, diretamente, ao momento da produção. Já para uma artista veterana, produzir em comunhão com o tempo em que se vive torna-se um desafio a mais no processo criativo. Ainda mais árduo é o exercício de revisitar décadas de produção e perceber a permanência do adjetivo contemporâneo. Somando oito décadas de vida, seis delas dedicadas à arte, a carioca Anna Bella Geiger inaugura hoje, às 20h, no Espaço Cultural Correios, a mostra "Circa MMXI", na qual revisa sua trajetória e confirma sua estreita ligação com o presente. Em breve visita à cidade, a artista irá guiar o público durante o vernissage.
Termo utilizado pela artista em seus vídeos, "circa" tem origem latina e se assemelha ao termo "acerca de", numa referência direta ao discurso temporal latente na obra de Anna Bella. Somando passagens por grandes capitais, como Salvador e Rio de Janeiro, a exposição foi inaugurada em 2011, ano em que a artista completava seis décadas de produção. Em turnê pelo Brasil, a mostra inaugura, em Juiz de Fora, as comemorações pelos 350 anos dos Correios, que, ainda esse ano, trará à cidade uma exposição com obras de Oswaldo Goeldi, além do projeto literário "Lê pra mim?", no qual atores globais fazem a leitura de livros infantis.
Exposta logo na entrada da galeria, a obra "Am. Latina" enfileira quatro desenhos feitos em crayon e lápis de cor de formatos semelhantes, mas retratando coisas bastantes diferentes: um amuleto, uma mulata, uma muleta e a América Latina. Não fosse a data em que foi criada – 1977 – a obra poderia se prestar às mais recentes críticas sociais. Mas para ler e ver a artista nascida no Rio de Janeiro é preciso abstrair datas, compreendendo a contemporaneidade em sua dimensão, na urgência do artista em perseguir a lucidez. "O artista fala desses tempos porque, lá dentro dele, ele tira coisas que ou revelam ou não revelam algo. Se não revela, passa adiante e não é uma obra de extrema importância. Se revela, o desafio é entrar cada vez mais nesse pensamento que não é formal e não é uma linguagem", explica Anna Bella, apontando para a verborragia que se escondem nas paredes da galeria.
Produzido entre os anos 1978 e 2009, "Variáveis" resgata a cartografia, temática frequentada no final da década de 1960 e no decorrer dos anos 1970, para questionar a ordem política e social no mundo. Lançando mão da serigrafia e do bordado à máquina, a artista impacta pela utilização de uma técnica pouco usada, mas rica em força dramática. Igualmente vanguardista, a obra "Zona portuária", de 2010, reúne imagens do Google Earth, de um barco em alto mar, do movimento da água viva e de um cardume se deslocando, ao som de uma canção do uruguaio Jorge Drexler, para contar as transformações de uma importante área da capital fluminense.
Nomeando sua criação que versa com os mapas como "geopoética" – "a obra não é só para ser vista pelo olho" -, Anna Bella transita no limiar que separa a contestação do lirismo, ora tendo à mão o humor, ora o drama. "Não quero fugir nem escapar, eu quero falar sobre o momento político no Brasil. E através da cartografia eu começo a colocar o simbólico, o metafórico, para ser entendido numa leitura desse teor", afirma, para logo ressaltar: "Aí o meu trabalho começa a apresentar mais do que uma sintonia, uma vontade de falar sobre o momento, não de uma maneira panfletária, mas colocando questões geográficas e históricas do Brasil e da América Latina".
Tendo iniciado seus estudos no ateliê da gravadora e pintora Fayga Ostrower, Anna Bella despertou para a arte através da abstração. Influência percebida na seção "Polaridades", Fayga também serviu à aluna como pensadora. "Ela compreendeu profundamente a abstração. Abriu mão de todas as ferramentas que tinha para fazer uma boa obra", aponta Anna Bella, que decidiu abandonar a fase abstrata, em favor do que o crítico Mário Pedrosa chamou de "fase visceral", na qual pinturas revelam, num quase tom figurativo, vísceras do corpo humano. "Elas contrastam com o que eu era dentro da organização abstrata", explica.
Frequentadora dos mais diferentes suportes, a artista se diz militante de um discurso, mas não de uma técnica. "A minha coerência não é do uso sistemático de um tipo de técnica", diz, dando relevo às indagações sobre a própria natureza do trabalho de arte presente em suas criações. "Essas mudanças que ocorreram no meu trabalho durante esses 60 anos não é somente natural. Não fui e não sou uma artista que tem sua coerência numa questão formal. A coerência está muito mais numa questão de conceito, de ideia", explica.
Dona de um tom de voz doce, a artista se diverte quando questionada sobre a dificuldade de revisitar sua história. Apesar de intrigante, a retrospectiva, segundo ela, foi um bom exercício para perceber a coerência no vasto percurso. "Esses trabalhos eu considero mais representativos, como se fossem apontar não para os melhores, mas para aqueles que mostram como as minhas coerências são através da leitura dessas passagens e fases", reflete, sorrindo com frequência e exaltando a naturalidade em ser contemporânea.
Professora no ateliê de gravura em metal do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro nos anos finais da década de 1960, Anna Bella também aponta para as salas de aula – hoje ela leciona no Parque Lage o curso "Arte e reflexão", no qual investiga o processo criativo – como um dos espaços que lhe fazem estar atenta ao momento. Além de contemporânea, Anna Bella também pode ser percebida como forte influência na obra de nomes da arte nacional atual, como Daniel Senise, Andréa Fachinni, Alex Topini, Rosana Ricalde, entre outros.
Segundo o crítico de arte Adolfo Navas, a trajetória de Anna Bella pode ser compreendida como um arquipélago, palavra que remete à multiplicidade e à variedade contida no percurso da artista. Já para o crítico Fernando Cocchiarale, todo o trabalho equivale a uma constelação, leitura preferida de Anna Bella: "Na constelação fica melhor visto. Em certos momentos, se for pegar um período de tempo, algumas coisas ali estão brilhando diferentemente ou estão apagadinhas. Tem que se ver a constelação para entender o que eu ando fazendo".
Circa MMXI
Abertura hoje, às 20h
Espaço Cultural Correios
(Rua Marechal Deodoro 470 – Centro)
Até 16 de março









