Guilherme Arantes faz show no Central em dezembro

No show, o cantor traz seus clássicos, além das músicas de seu disco recém-lançado “A desordem dos templários”


Por Cecília Itaborahy, sob supervisão do editor Marcos Araújo

04/11/2022 às 07h00- Atualizada 04/11/2022 às 11h49

GUILHERME ARANTES 3 credito Marcia Gonzalez
Guilherme Arantes: “O amor é a forma que consigo expor o meu olhar. Eu olho o mundo sobre o prisma afetivo” (Foto: Márcia Gonzalez/ Divulgação)

Uma hora de uma conversa que foi muito além do que eu esperava para aquele momento. A ideia era mesmo entender o segredo de um hitmaker que marcou a geração, por exemplo, da minha mãe, entre os anos 70 e 80, sendo trilha sonora de várias novelas globais. Queria saber qual era a forma daquilo tudo, como ele conseguiu ultrapassar até as gerações e chegar na minha. Guilherme Arantes, no entanto, me mostrou mais: ser um cara que entende qualquer assunto, de maneira aprofundada, filosófica e, sobretudo, amorosa. Ele é um músico que canta o amor. E sabe disso: disse, logo no final da conversa: “O amor é a forma que consigo expor o meu olhar. Eu olho o mundo sobre o prisma afetivo”. São essas canções de amor, de esperança e, porque não, de uma fossa solitária que o cantor, compositor e pianista traz ao palco do Cine-Theatro Central, em dezembro, a partir das 20h, em sua turnê Guilherme Arantes in Concert.

Descobrir Guilherme Arantes é perceber o grande letrista que ele é. E não só isso: afinal de contas, acompanhado de seu piano, com aquela voz típica, com um timbre que o acompanha na fala, suas letras ganham um caráter tão próprio que é mesmo o que marca. Mas pode ser que seja o conteúdo de suas canções seu grande trunfo. Isso explica o fato de ele ter sido regravado por diversos cantores brasileiros. A Música Popular Brasileira soube e ainda sabe beber e aproveitar de Guilherme Arantes: artista sem pausa.

Ele, que tira inspiração da própria vida e de tudo o que o cerca, lançou recentemente um disco: “A desordem dos templários”. São 12 faixas reflexo de uma temporada em Ávila, na Espanha, onde fez o isolamento social rodeado por um ar medieval histórico e pelas montanhas cobertas de gelo. Esse cenário pronto é o cenário de pensamentos e angústias que afloraram no pensamento de Guilherme Arantes. De começo, pouca inspiração. Mas, lendo, acompanhado de seu Kindle, as ideias vieram à tona e facilmente se transformaram em tema e em canção. Ele olhava o mundo, dentro de casa, naquele momento, a partir de uma perspectiva milenar e secular, com distância do Brasil. “Redescobri minha imaginação fértil”, ele conta.

Esse foi um momento de olhar para sua própria trajetória. Deparar-se com quem foi o Guilherme Arantes e quem ele é agora. Mas esse mundo desconhecido, essa nova descoberta, o fascina. “Tenho fascínio pelo desconhecido. O que é recorrente é digerido com facilidade. Já o desconhecido me coloca em um sentimento jovial de descoberta. É daí que veio a imaginação fértil”, explica. Para ele, “A desordem dos templários” é um disco onírico, de sonhos e pesadelos, e, por isso, o título. “Grande parte das letras foram escritas durante a madrugada, escura e gelada, na pandemia, no silêncio de um refúgio.” É uma atmosfera nova ao próprio Guilherme Arantes, que deixa em segundo plano as músicas de amor. Mas desbravando esse novo é que ele encontra o lugar onde se sente melhor. Ao mesmo tempo, no disco, ele resgata algo instaurado anos atrás, quando ainda fazia parte da banda Moto Perpétuo: um rock progressivo instrumental com assinatura contemporânea.

O tempo

Olhar para o sucesso é perceber, também, as evoluções e as diferenças, tanto geracionais quanto da própria vida. “Na nossa trajetória, a gente vai entendendo o que é o forte, o que não é, qual é o nosso borogodó.” Ele acredita que evoluiu. Isso porque teve tempo para isso. É necessário tempo para a fruição. “Nesse estágio da minha vida, estou curtindo minha própria história. E vejo que esse êxito musical é apenas uma parcela pequena da minha história. Eu fui me redescobrindo com esse olhar biográfico. Mas, para isso, é preciso ter silêncio, isolamento, tempo, privacidade. Me permiti ter um espaço criativo para o julgamento crítico. Isso de ter que produzir para produzir dinheiro faz com que o artista seja escravo do próprio sucesso”, reflete.

Guilherme Arantes emplacou diversas trilhas sonoras. “Meu mundo e nada mais” é do disco que o debutou na carreira solo e foi direto para a novela. Mas, agora, anos depois, o mundo e a vida são outros. “Fazer aquele sucesso foi ótimo para a minha carreira. Mas nunca foi projeto da vida toda. Não é só de nostalgia que eu vivo. Tem que ter os desafios. Mas posso dizer que estou chegando aos 70 anos ‘vivinho da silva’.”

O Guilherme que emociona

Nas outras vozes, a música de Guilherme Arantes foi ganhando outros sentidos. “É um mistério essa transformação da música. E só faz sentido quando o pessoal, o íntimo é compartilhado com o coletivo e se torna universal. E fazer isso é um privilégio”, conta. Ele ainda recupera a história de “Meu mundo e nada mais”: “Essa música é do meu universo pessoal, uma reflexão angustiada de um adolescente que se tornou um sucesso”. Essa estreia solo, de certa forma, definiu tudo o que viria depois: “Eu já começo a carreira com uma reflexão existencial”. Mas o que mais o toca é saber que suas letras são capazes de emocionar as pessoas. “Não tem preço o choro na música. Isso não tem como valorar. É mais que os likes. Enquanto eu chorar com as músicas de outras pessoas, estou vivo.”

Sua turnê de agora é, sim, um resgate de toda essa história. Mas é também esse momento da fruição: atentar-se à canção e, quem sabe, dar lugar ao choro. Além de suas clássicas, ele traz ainda algumas que fazem parte do “A desordem dos templários”. Uma orquestra de câmara o acompanha na reprodução das músicas. “Juiz de Fora é como o coração do Brasil, um lugar profundo”, finaliza ele, animado com seu retorno à cidade e o contato com os juiz-foranos.