Vamos improvisar
Trilhar um caminho a partir de uma entrada despretensiosa no Youtube e, de repente, virar sucesso de acessos e, consequentemente, de público tem se tornado uma fórmula repetidamente seguida por quem busca divulgar um trabalho. Com a Cia. Barbixas de Humor, que se apresenta nesta sexta, sábado e domingo no Cine-Theatro Central, não foi diferente.
A peça "Improvável: um espetáculo provavelmente bom" conta com quadros disponibilizados a cada quinta-feira no canal do grupo no Youtube, com cerca de 200 mil visualizações diárias. Sob a chancela de um mestre de cerimônia, os atores da companhia Elidio Sanna, Daniel Nascimento e Anderson Bizzocchi e convidados estimulam a participação da plateia. É dela que surgem as sugestões de cenas que vão ser realizadas no improviso pelos atores, temas para criação de histórias, além das frases que devem ser inseridas a esmo em meio a uma história. Na cidade, Daniel Nascimento não participa do espetáculo, que terá a participação dos atores Bruno Motta, Fábio Lins e Marco Gonçalves.
Em entrevista à Tribuna, por e-mail, Anderson Bizzocchi fala sobre a peça e o momento que vive o humor brasileiro.
Tribuna – Como um ator deve se preparar para o inesperado?
Anderson Bizzocchi – Estar aberto aos seus companheiros de cena e saber que a qualquer momento pode surgir algo que não está sob seu controle. Se houver frustração em qualquer um desses momentos, a cena não anda.
– Como o espetáculo é pensado e ensaiado?
– Não chamamos de ensaio, até porque tudo é improvisado. Dizemos que treinamos. Treinamos as mecânicas dos jogos, a interação com o convidado novo. O espetáculo sempre conta com convidados, por isso as variáveis aumentam, e é isso que torna a grande atração do espetáculo: pode dar tudo certo, como pode dar tudo errado.
– Como a plateia participa da peça, alguma vez uma cena foi impossível de ser realizada?
– Não diria impossível, mas talvez difícil. Muitas vezes, as sugestões são desafiadoras, o que é um grande estímulo para nós.
– Recentemente vocês estiveram no Canadá com Keith Johnstone, considerado o ‘pai do teatro de improviso’. Como foi o encontro e o que tiraram da experiência?
– Foi incrível. Guardadas as proporções, foi como ouvir dicas de piano com Beethoven ou Mozart. Keith já é um senhor de idade, mas ainda é extremamente lúcido e vive a improvisação e o teatro de forma intensa. Estar lá e entender as razões da criação de jogos que fazemos hoje, técnicas de atuação, ouvir dicas para evitar isso ou aquilo, foi algo para guardar.
– Vocês comandaram o programa "Quinta categoria", na MTV, e o ‘É tudo improviso", na Band. O que difere o espetáculo no teatro e na TV?
– No teatro, o público é mais quente. A resposta é imediata. Na TV, apesar de ter a plateia ali presente, o resultado final é destinado a pessoas em casa. Ambos são experiências ótimas, mas se formos comparar com música, fazer improvisação na TV é como um músico gravar um disco: é bom, mas ele quer ver o público ao vivo.
– Como são escolhidos os convidados de cada apresentação?
– Através de curriculum. Mentira. Há um grupo de pessoas que já treina conosco. Treinamos muito, estudamos muito e, antes de uma apresentação, sempre treinamos com o convidado.
– Vocês deram visibilidade para este formato de espetáculo na internet. Consideram este um caminho para divulgação mais eficiente do que outros? Por quê?
– A internet trata o espectador com respeito ou pelo menos deveria. Diferentemente da TV, o espectador é ativo. Na internet, você faz o produto, e o espectador assiste se quiser. Ele tem o poder de parar ou fechar o vídeo. A internet garante que sempre pode haver um público para a sua produção, o que é bárbaro. Você pode criar o seu conteúdo.
– Vocês ficaram conhecidos nacionalmente por conta do Youtube. Como foi a entrada no site e como alimentam o conteúdo do canal hoje?
– No começo foi sorte mesmo. Colocamos no Youtube para divulgar o trabalho, e um dia o site nos colocou na página inicial como "vídeos em destaque". A partir disso, as pessoas queriam saber onde estávamos nos apresentando e como elas faziam para assistir ao vivo. Percebemos que isso poderia ser um produto. Desde 2008, gravamos as apresentações, e toda quinta-feira um vídeo novo entra no ar no canal do Youtube.
– Estamos em uma época em que o politicamente correto está caindo sobre o humor, com comediantes sendo ‘monitorados’ e mesmo intimados a depor sobre alguma piada. Qual sua opinião sobre esse fato?
– O humor não deve ter restrição de assunto. Deve-se poder falar sobre qualquer coisa. Quem deve saber o limite e resultado da sua piada é o próprio comediante. Quando o limite vem de fora, algo está errado.
– Qual deve ser o papel do humor na sociedade?
– Gostamos da ideia de que o humor pode servir como crítica ou apontar um defeito da sociedade que pode ser corrigido, mas, antes disso, o humor tem que ser engraçado e fazer rir. Existem diversos tipos de humor, e todos eles devem possuir esse objetivo. Outras funções são consequência.
IMPROVÁVEL: UM ESPETÁCULO PROVAVELMENTE BOM
Hoje e amanhã, às 21h; domingo, às 19h
Cine-Theatro Central
(Praça João Pessoa, s/n°). 3215-1400









