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Legado artístico dos Bracher


Por EDUARDO VANINI

04/09/2011 às 07h00

Quando foi idealizado, em 1963, o prédio que abriga o Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) era para ser apenas um espaço provisório, destinado à reitoria da UFJF, que aguardava a transferência para o campus em construção, na Cidade Alta. Ao saber disso, o então estudante de arquitetura Décio Bracher bateu o pé, diante da constatação de que, no Brasil, as coisas provisórias tornam-se permanentes. Foi então que concebeu o projeto do espaço como é conhecido hoje, já adequado para acolher atividades culturais. Quase 50 anos depois, a família Bracher, que tem o sobrenome impresso na história artístico-cultural da cidade, é lembrada por duas exposições em cartaz no Mamm. A "Louçarte" exibe 18 peças utilitárias e decorativas produzidas na fábrica de louças de propriedade da família, que leva o nome da mostra, enquanto "Nívea Bracher: paisagens, retratos, naturezas" revive a trajetória da artista por meio de quadros que exibem sua produção plural ao longo da carreira.

A história da Louçarte começou em 1953, quando o visionário professor e engenheiro Waldemar Bracher ajudou a solucionar um problema técnico na fábrica de louças portuguesas Vistal, que ficava no Bairro Fábrica. Ele se encantou com a beleza do processo de produção e se uniu a três portugueses para fundar a Louçarte, instalada no número 307 da Avenida Sete de Setembro, em frente à Igreja de São José, no Bairro Cerâmica. Na ocasião, toda a família se empenhou no empreendimento. Os irmãos Décio, Celina e Nívea foram contratados como pintores, ao lado de nomes como Dnar Rocha, Wandyr Ramos, Nilton Martelli, Nazira Zeiden e José Exaltério.

"Era uma fábrica fantástica, com a melhor equipe de técnicos e artistas que se podia imaginar", recorda Décio. Entre os integrantes, ele destaca os irmãos portugueses Manuel e José Marques, "que eram verdadeiros gênios da pintura universal e produziam coisas dignas de museu". Uma delas é o vaso recoberto por florais, concebido por Manuel, que Décio considera um exemplo de art nouveau, embora o autor não soubesse disso. A peça é um dos destaques da exposição, assim como um jarro de autoria do próprio Décio, feito com uma técnica inovadora. Em vez de pintar, ele deixava a tinta escorrer sobre o objeto, agregando um efeito marmorizado que valorizava a forma do exemplar.

Na opinião dele, a qualidade possibilita a afirmação de que a melhor louça do Brasil era produzida em Juiz de Fora. Ele acredita, inclusive, que, se a fábrica ainda existisse, a cidade estaria entre os principais centros de produção desses artigos no mundo, como Limoges, na França, e Alcobaça, em Portugal. O fascínio pela qualidade dos trabalhos que saiam da inventiva fábrica era tanto que Décio impedia a venda dos exemplares mais primorosos. "Tive visão de colecionador e fiquei com muitas peças."

Segredo de estado

O processo de produção dos artigos era guardado a sete chaves. E isso chegou a render jornadas noturnas na fábrica, para que os segredos não vazassem. Diferente de outros produtores, na Louçarte, as pinturas eram sempre feitas a mão, impossibilitando que existissem duas peças iguais. Além disso, os desenhos eram feitos sobre a massa, que só depois recebia o vidro, permitindo um visual ainda mais refinado. Como relembra Décio, as peças passavam por um primeiro cozimento em caixas abertas, expostas à temperatura de mil graus. Em seguida, o material era polido e lixado, recebendo os desenhos em aquarela. Feito isso, passavam por um banho de vidro moído e água, sendo colocadas em caixas hermeticamente fechadas, seguindo para uma segunda queima, dessa vez, a 800 graus.

"Se houvesse um furinho qualquer na caixa da última fase, o fogo entrava no recipiente e ‘defumava’ a louça, deixando-a negra. O fogo consumia o óxido, e a tinta voltava ao estado metálico. Mas isso era fantástico, apesar de ser considerado erro. Tenho um exemplar guardado que está na exposição." Esse "erro’, na verdade, era consequência de algo que deixava o trabalho na Louçarte ainda mais excitante. Como conta Décio, quando as peças começavam a ser retiradas, a equipe não tinha a menor ideia dos resultados finais.

Caçula da família, o pintor Carlos Bracher se emociona ao relembrar das experiências vivenciadas na fábrica, iniciadas quando ele ainda tinha 12 anos. Ele não consegue destacar um fato do qual sinta mais falta, já que a saudade abrange o ambiente como um todo. "Foi como a alegria de um nascimento, de vir à vida. Todos que passaram por lá ficaram marcados por um espírito de real irmandade e amizade." Como gosta de definir, a Louçarte equivale ao eixo conclusivo do que veio a ser as bases de sua vida, enquanto pintor e pessoa.

Apesar da expressiva produção, a fábrica, que tinha dificuldade em atender ao elevado número de pedidos vindos do Rio Grande do Sul, enfrentava problemas com a falta de infraestrutra local. As louças eram fabricadas por meio de um processo artesanal relativamente lento, com um sistema de quatro fornos interligados para que o calor passasse de um para o outro, permitindo a economia de carvão. E isso era possibilitado por uma ventoinha, movida a energia elétrica. Entretanto, como o abastecimento de energia era interrompido duas ou três vezes por semana, o andamento da produção acabava prejudicado. Além disso, o negócio começou a ficar sem capital de giro, trazendo necessidade de auxílio de bancos e empréstimos particulares. Em 1957, após quatro anos de uma promissora trajetória, a Louçarte encerrava as atividades.

Pinceladas de sensibilidade

Nos tempos de estudante, a artista plástica Nívea Bracher gostava de contemplar a cidade refletida na janela da Escola Normal, de onde era aluna. "A cidade do reflexo ficava multifacetada de cores, parecendo um prisma. Era muito lindo." Essa admiração já apontava indícios daquilo que, mais tarde, seria considerado por ela uma das maiores virtudes do artista: capturar o que, na maioria das vezes, o olhar humano não pode ver. Graças a esse posicionamento, Nívea construiu um repertório pautado em uma visão crítica sobre espaços urbanos e paisagens, permeado por sentimentos e emoções. Em "Nívea Bracher: paisagens, retratos, naturezas", 54 telas da artista, entre pinturas a óleo e acrílica e desenhos a carvão, convidam o expectador a lançar um novo olhar sobre o cotidiano.

Entre os quadros que integram a mostra, um dos favoritos de Nívea faz parte da série "Sol das almas", de 1965, em que ela retratou a Igreja de Padre Faria, de Ouro Preto. O título faz referência à luz solar diferenciada que banha as paisagens ao final das tardes invernais. Essa perspectiva, conforme avalia, agrega um fulgor diferente às imagens, proporcionando um brilho único. Outra obra importante é "Esperando o tempo passar", da década de 1960, em que a imagem de um menino observando a passagem do trem é uma metáfora para a transição do tempo diante dos olhos do observador. A exposição traz, ainda, uma das primeiras telas concebidas pela artista, "Natureza morta", de 1959, inspirada em um quadro que faz parte do acervo do Museu Marino Procópio, no qual eram retratadas mangas. "A gente ia muito ao Mariano Procópio. Quando fui pintar essa tela, a imagem desse quadro veio com muita força a minha mente."

Algumas das telas guardam, ainda, histórias curiosas. Nívea possui, em sua formação, fortes influências do pintor impressionista francês Monet, e o quadro "Giro das flores", de 1993, transborda essa referência. A artista conta que essa tela chegou a ser impressa em camisetas, e uma delas foi usada pela sobrinha, durante uma visita à exposição do artista, no Rio de Janeiro. Como eram vendidas lembranças com a arte de Monet no local, a sobrinha foi surpreendida por uma pessoa que queria saber onde havia conseguido a camiseta que vestia. "Lembro-me de ela ter dito: ‘essa aqui é da minha tia’", diverte-se Nívea.

Tempos áureos

Organizador da exposição, o pró-reitor de Cultura da UFJF, José Roberto Pinho Neves conta que a mostra parte da ideia de resgatar o período mais importante da Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, entre as décadas de 1950 e 1960. Na época, a entidade era frequentada por grandes nomes das artes plásticas da cidade. Essa movimentação, inclusive, desencadeou a criação da famosa Galeria de Artes Celina, em 1965, no segundo piso da Galeria Pio X. Pinho Neves destaca que Nívea sempre esteve à frente desses movimentos, mas o reconhecimento de seu trabalho ainda está aquém do ideal. "Ela estava na vanguarda da cidade, em um período em que a pintura ainda era dominada por homens. Suas obras figuram, por exemplo, na coleção de Gilberto Chateaubriand."

Para relembrar a artista, a exposição não foi pensada como uma retrospectiva, mas como uma revisão, em que o público verá a evolução de Nívea em paisagens, natureza morta e retratos. Estes últimos, inclusive, revelam a própria relação da artista com o mundo das artes na cidade, com retratos de personagens como Roberto Gil, Joyce Schubert e os irmãos Carlos, Paulo e Décio.

LOUÇARTE

NÍVEA BRACHER: PAISAGENS, RETRATOS, NATUREZAS

De terça a sexta, das 10h às 18h; sábados, domingos e feriados das 13h às 18h. Até 9 de outubro

Mamm (Rua Benjamin Constat 790)