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Juiz de Fora pelos olhos da fé


Por LEONARDO TOLEDO

04/08/2011 às 07h00

A exemplo de outras cidades da região, Juiz de Fora foi uma cidade que cresceu em torno de uma capela: primeiro no antigo Morro da Boiada (atual Bairro Santo Antônio), depois na Avenida Rio Branco. Testemunha e personagem da história do município, a Igreja Católica exibe, pela primeira vez, seus registros dessa trajetória na exposição "Juiz de Fora: Nossa história é de fé, nossa Igreja tem arte – dos primórdios ao jubileu áureo da Arquidiocese", aberta no salão térreo da Catedral Metropolitana. A exibição inédita, com entrada gratuita, faz parte das comemorações pelos 50 anos da elevação à condição de arquidiocese. "Quisemos contar a história dessa presença religiosa da Igreja, desde os primórdios da cidade até hoje", explica o arcebispo metropolitano Dom Gil Antônio Moreira. "É uma história religiosa e também civil", complementa.

Com curadoria e projeto de exposição de Paulo Alvarez, a mostra traz a público exemplares de arte sacra, indumentária, fotografias e documentos pertencentes ao acervo da arquidiocese, alguns pouco conhecidos pela população, a exemplo da carta manuscrita do Papa Pio XII, congratulando Dom Justino José de Santana, primeiro bispo de Juiz de Fora, pelos 50 anos de sacerdócio.

Na opinião de Dom Gil, a coleção merece o interesse não só dos juiz-foranos, mas dos mineiros em geral, uma vez que o acervo refere-se também à história de outros municípios. Esse é o caso da carta enviada pelo imperador Dom Pedro II, em 1826, autorizando a criação da paróquia de Santa Rita, em Santa Rita do Ibitipoca.

Outro destaque da mostra é a imagem de Santo Antônio, que protagonizou uma das histórias mais pitorescas do folclore juiz-forano. Reza a lenda que a imagem do padroeiro teria se recusado a mudar de endereço, de sua capela original no Morro da Boiada, para outra na Avenida Rio Branco – que mais tarde daria lugar à Catedral Metropolitana. Repetidas vezes, a peça teria reaparecido na antiga localidade depois das procissões que a conduziam ao novo templo.

Na música, nas artes, nas letras

A exposição também mostra como a religião esteve presente em diferentes tipos de produção cultural. "Quando criamos coisas bonitas, procuramos a perfeição, algo que está apenas em Deus. Temos alegria em mostrar o jeito de evangelizar pela arte. Música, pintura e poesia são veículos da ação da Igreja. Não são fins, mas são meios", reflete Dom Gil. É o caso da música litúrgica composta pelos padres verbitas Bauhman e João Baptista Lehmann. Cantado até hoje no Santuário Nacional em Aparecida do Norte, o "Hino a Nossa Senhora Aparecida" tem letra do poeta Belmiro Braga. Outro momento marcante dessa trajetória são os exemplares da imprensa católica, como os jornais "Lar católico" e "O lampadário", importantes mananciais para a pesquisa histórica em Juiz de Fora.

Além de estar presente na exposição, a diversidade desse legado será contemplada em outras três atividades que comemoram os 50 anos da arquidiocese. No dia 14, às 18h, uma missa na Catedral, presidida por Dom Gil, contará com a orquestra e o coral do Pró-Música, que interpretarão obras litúrgicas do padre mineiro José Emerico Lobo de Mesquita.

Já o patrimônio arquitetônico legado pela Igreja será contemplado de duas maneiras. Visitas guiadas percorrerão locais como o Seminário Santo Antônio, a Biblioteca Redentorista e a capela do Colégio Santa Catarina em datas pré-agendadas por telefone (3229-5467). Já no dia 19, no anfiteatro do Pró-Música, acontece o I Seminário de Bens Culturais da Igreja de Juiz de Fora, que contará com a participação de estudiosos e profissionais do ramo, vindos de todo o país.

Flagrantes do passado

As curiosidades também estão nas fotografias, que recuperam a Juiz de Fora do passado. Uma imagem feita na década de 1850 registra a antiga e singela Capela de Santo Antônio, que existia antes da Catedral Metropolitana. Em 1925, as câmeras flagraram a chegada de Dom Justino à cidade, na procissão que o conduziu da Praça da Estação à Catedral. A memória do bispo, aliás, também é homenageada com a exibição da cátedra, do genuflexório e de paramentos utilizados por ele.

Conforme o arcebispo, a ideia é que essa primeira exposição abra caminho para novos eventos do gênero e, futuramente, para a criação de um museu sacro na cidade. Conforme Dom Gil, Dom Clóvis Frainer – arcebispo de Juiz de Fora entre 1991 e 2001 – chegou a fundar o Museu Dom Justino, mas a coleção permanece guardada. Antes de chegar à público, seria necessário encontrar espaço adequado e providenciar a organização museológica do material. Esforço que, segundo Dom Gil, seria de grande proveito para cultivar a memória da cidade. "Não conhecer as raízes pode comprometer a árvore inteira", opina.

 

I EXPOSIÇÃO DE ARTE SACRA

Visitação de terça a domingo, das 10h às 20h. Até 20 de setembro

Catedral Metropolitana (Av. Rio Branco)