O que não está no porta-retrato
Às gargalhadas, Rodrigo Souza diz não ter contado nenhum segredo na exposição "Conte-me um segredo", que inaugura nesta quinta-feira (4), às 20h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM). Nos mais de 200 papéis com confidências anônimas coletadas no Calçadão entre os dias 15 e 19 de abril desse ano, um deles chamou atenção especial do artista: "Não durmo de luz apagada". Segundo ele, revelando o que deveria se manter secreto, o relato foi feito por um garoto de 11 anos e demonstra muito bem a tônica de sua proposta. Vestido com um colete com a inscrição que dá nome à mostra, semelhante às vestimentas utilizadas por compradores de ouro na cidade, Souza perseguiu a intimidade de desconhecidos, na tentativa de apresentar a forja das imagens sociais. A ação e a mostra receberam o incentivo da Lei Murilo Mendes.
Entre o engraçado e o angustiante, os textos transbordam em curiosidade: "Não sei mexer na internet", diz um deles; "Traio meu namorado", afirma outro; "Odeio coentro mas nunca contei pra minha sogra não ficar chateada", confidencia outro. "Esses segredos falam das normas sociais, de uma montagem que a gente faz da imagem que queremos passar", analisa Souza, apontando para a força de um relato aparentemente simples: "Ainda amo Cirlene". "Isso é extremamente doloroso", comenta o artista, que entre a academia e a sisudez dos cubos brancos prefere assumir-se pesquisador.
Apresentados em uma instalação, os segredos dividem espaço com 19 fotografias semelhantes às 3×4, oficialmente reconhecidas como imagens de identificação, e ainda um vídeo com imagens e áudio da intervenção urbana. "Desejava criar uma experiência que afetasse a dinâmica da rua, levando uma sensibilidade para o cotidiano", relata Souza. Do espaço urbano, democrático por natureza, para a galeria, os segredos fazem referência ao próprio convívio, lugar de encontros do mosaico no qual se configura uma identidade. "Ao mesmo tempo em que você quer mostrar, você se auto-edita. Somos uma construção", afirma.
Muitos dos segredos se baseiam em relatos sobre sexo ("Ainda sou virgem com 25 anos, e já faz 2 anos que não beijo na boca", ou "Já fiquei com um carteiro que foi fazer uma entrega na minha casa"), revelações sobre o uso de drogas e confissões sobre orientação sexual. O que não pode ser dito, apesar de desejado, também chama bastante atenção: "Odeio ganhar roupas de presente. Sempre troco. E falo que amei", ou "Eu matei um pintinho". E são nas amenidades que o jornalista e mestrando em artes pela UFJF aproxima-se de uma das tendências da arte contemporânea, que expõe a realidade em seu potencial ficcional.
Exposta no Centro Pompidou, na França, em 2007, na Bienal de São Paulo de 2008, e transformada em livro no mesmo ano, "Histórias reais", da francesa Sophie Calle, é uma das grandes obras contemporâneas a abordar a experiência pessoal no campo das artes. Em relatos e fotografia, Sophie se desnuda investigando a arte por trás do tangível. Reconhecida internacionalmente, a artista também se expôs em "Cuide de você", mostra que reuniu interpretações de artistas para a carta em que encerrava sua relação amorosa. No Brasil, o coletivo carioca Opavivará também aposta na realidade para ocupar as galerias. Uma das referências de Rodrigo Souza, o trabalho do grupo de artistas já propôs, em ação de 2011, uma grande cadeira de praia para que os cariocas descansassem durante a rotina da grande cidade. A arte, ali, servia como deslocamento do que poderia ser banal, a fim de incentivar a reflexão.
O que o pesquisador propõe em "Conte-me um segredo" é a valorização dos aspectos invisíveis, a desordem do habitual, a confecção da identidade. Enquanto alguém revelou: "Sofro com problemas de auto-estima e me corto a três anos", outro parecia brincar: "Sou apaixonada pelo meu professor de Rotinas Administrativas! Quero dormir com ele!". Em momento algum o espectador é envolvido na forja das verdades. Certamente, existem, ali, mentiras. Mas mesmo as inverdades configuram a imagem social, fazem parte da experiência de estar na rua.
CONTE-ME UM SEGREDO
Abertura nesta quinta (4), às 20h. De terça a sexta, das 9h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 21h. Até 28 de julho. CCBM (Av. Getúlio Vargas 200)









