Ecos musicais

Ao longo de 25 anos, Juiz de Fora foi se acostumando a relacionar inverno a música. Pelas ruas e avenidas, passavam entusiastas e veteranos da música erudita, carregando seus instrumentos, alguns grandes como o violoncelo, outros diminutos, como a flauta. Em um quarto de século, para que a cidade se familiarizasse com a rotina de concertos e oficinas. Após o anúncio do cancelamento da 26ª edição do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, foram muitos os lamentos entre os juiz-foranos. Do palco à plateia, será sentida a falta. Contudo, para a classe artística, o golpe pareceu mais profundo. Nas redes sociais, muitos foram os brados. No perfil do Facebook do violinista Luis Otávio de Sousa Santos, que na segunda-feira (1º) anunciou o cancelamento da apresentação da Orquestra Barroca do festival, muitas foram as mensagens de solidariedade.
Entre os que lamentaram o cancelamento do conjunto formado por músicos internacionais durante o evento, e que há 15 anos grava um disco de registro – elogiado e premiado no país e fora dele -, estão o pianista Max Uriante; o diretor da Escola de Música do Estado de São Paulo Paulo Zuben; o jornalista, professor e ex-crítico da “Folha de S.Paulo” João Batista Natali; e o colaborador da “Folha de S.Paulo” Irineu Franco Perpetuo. “Este ano as bruxas quebraram o cadeado”, escreveu o diretor artístico do Festival de Campos do Jordão Fábio Zanon. “É lamentável esta notícia que, cada vez mais, aprofunda o descaso das autoridades pela cultura em nosso país”, disse o compositor Ricardo Tacuchian.
Para Emmanuele Baldini Grande, spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), o período é bastante triste na música brasileira. “Vocês tocam só musicas de dinossauros extintos”, comentou ela no perfil de Luis Otávio. “Sabemos que a maior dificuldade não é a criação de novos projetos no Brasil, mas sim a manutenção dos existentes. Coordeno, há 12 anos, a Semana do Cravo na UFRJ, e todo ano é a mesma luta para a obtenção de verbas”, solidarizou-se o professor da UFRJ Marcelo Fagerlande. “Ficamos todos abatidos com a notícia. Mas vamos considerar que é apenas um brevíssimo hiato, uma retomada de fôlego, para no ano que vem recomeçar com energia renovada”, escreveu, também, a professora da Unirio Laura Tausz Rónai.
Contexto pessimista
De acordo com Nelson Rubens Kunze, editor da revista “Concerto”, uma das mais respeitadas no meio da música clássica no Brasil, o cancelamento é recebido como uma “tragédia”. “O festival tem uma importância enorme para a música clássica brasileira, é polo irradiador da cultura e da música antiga. Tem como diretor artístico o Luís Otávio de Sousa Santos, uma pessoa com nível internacional, com prêmios no exterior, uma das maiores autoridades em música antiga. Outro diferencial bárbaro desse festival é a abordagem da música colonial brasileira, tocada com instrumentos de época, em contraponto com as criações feitas na Europa no mesmo tempo”, avalia o especialista.
“Acho lamentável que tenha esse desfecho, que espero ser provisório. Espero que volte a ser realizado ano que vem. E, quando voltar, que seja para ser melhor, pois muito já foi conquistado. O evento tem 25 anos e uma geração conquistada graças ao que foi feito pelo pessoal de Juiz de Fora”, acrescentou Kunze, citando o triste momento para o gênero, que se vê diante do adiamento do Festival Amazonas de Ópera.
Em polêmico artigo publicado no último dia 30, na versão digital do jornal “O Estado de S.Paulo”, o crítico musical João Marcos Coelho lamenta o enfraquecimento da Filarmônica de Berlim e a extinção de formações importantes como a Camerata Aberta, de São Paulo, que sempre se portou para além de um conjunto, mas como um projeto de educação. Ainda assim, Coelho questiona o formato adotado pelas orquestras mundo afora nos dias de hoje. “Não dá para continuar formando músicos para tocar o repertório do passado e ter como meta pegar uma beiradinha na soleira da Casa Grande da vida musical europeia”, alfineta. O maestro Osvaldo Colarusso foi além em seu blog no site da “Gazeta do Povo”: “Nosso sistema de orquestras sinfônicas é uma xerox não autenticada de uma realidade que não tem nada a ver conosco. Nosso modelo de difusão musical necessita ser reinventado, mais próximo à nossa realidade. Quem possui o dom musical tem a obrigação de compartilhá-lo, sobretudo em um país tão carente como o nosso.”
Grande expectativa
Se o cenário resvala em pessimismos, em Juiz de Fora sobrevive a esperança de que o evento retorne com seu impacto. Presidente do Sindicomércio-JF, Emerson Beloti “lamenta não só do ponto de vista de perda de incremento no comércio da cidade, gerado pela chegada de turistas, assim como pela perda com relação à intensa movimentação, principalmente na região central, o que acabava por fomentar diversos setores da economia”. Contudo, muito além do cancelamento do festival, o que está em jogo, também, é a continuidade e o vigor da instituição criada há mais de 40 anos pela família Sousa Santos. Ainda que a UFJF se comprometa a encaminhar a instituição, mesmo com algumas reduções, existe desconfiança. “Se buscarmos em nossas lembranças, a origem da doação do Centro Cultural Pró-Música para a universidade se deu no intuito de eternizar esse patrimônio. Repito que a palavra mais adequada a este trágico momento é a de sucatear, pois preservar parece não mais fazer parte desta doação”, indigna-se Rodrigo Bastos, professor, por 24 anos, da escola de artes do Centro Cultural Pró-Música.
* Colaborou Júlio Black








