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‘Tangolomango’: Frestas do carnaval


Por MAURO MORAIS

04/06/2013 às 07h00

Há personagens que já nascem clássicos, como a singular Macabéa, criada por Clarice Lispector no livro A hora da estrela, de 1977. O exterior, feito em tintas fortes desenhando uma retirante pobre e esquisita, contrasta com o interior delicado e questionador da clássica criação. Em seu mais recente romance, Tangolomango(Record, 127 págs.), o jornalista por formação e escritor premiado Raimundo Carrero desenvolve, ao estilo de Macabéa, uma mulher clássica já nas primeiras linhas que a descreve: Ela anda pela calçada naquele passinho miúdo, miúdo e ligeiro, de quem vai ao encontro do destino, na manhã ensolarada e de raros ventos na longa, fria, larga e solitária avenida do centro do Recife.

Ela, tia Guilhermina, já apareceu em O amor não tem bons sentimentos, de 2008, mas a família à qual pertence, formada pelo casal Everaldo e Dolores, foi apresentada em Maçã agreste, de 1989. Ambas as obras pertencem ao projeto Quarteto áspero, no qual Carrero cria e desbrava as feridas de uma família, explorando todos os descompassos possíveis, como o incesto e a depravação, tratados na naturalidade e sensibilidade das memórias de uma tia inquietante.

Construído em curtos capítulos, todos com títulos poéticos e certeiros, o livro – de dicção leve e repleta de repetições que garantem sonoridade e ritmo -, se passa num dia na vida da tal tia, que em momento algum assume-se só pelo nome. O tempo todo Guilhermina é tia. Originalmente substantivo, nas palavras do autor, a palavra se transforma em adjetivo. Dedicada, tia Guilhermina criou o sobrinho Matheus e entregou-se a ele num amor quase carnal, expresso em sensuais banhos onde se tocavam sob os cuidados do pudor. A questão toda era não desejar nem se deixar desejar, reflete o narrador pouco antes de revelar: Dia a dia, tarde a tarde, noite a noite, o conflito ia se repetindo.

Bloco na rua e na certeza de ser feliz

Apesar de trafegar em espaço vulnerável, Carrero não se deixa envolver em polemismo ou vulgaridades. A mulher é reconhecível e pertence a um cotidiano muito próximo do real. Suas imperfeições e seus pontos de beleza são apresentados como a reafirmar que os seres humanos são mesmo um território ambíguo e plenamente fértil. Tia Guilhermina gostava muito de ficar sozinha. Mesmo quando conversava estava sozinha, mergulhada na mente e mergulhada no coração, mergulhada no profundo silêncio de si mesma. Sem necessitar de palavras ou gestos.

Dona de uma discrição incompreendida, mas admirada, pelo vizinhos, a tia tocava as valsas de Capiba, Nélson Ferreira, Lourival de Oliveira e até mesmo Listz para o sobrinho. Mas todo o recato se torna festa ao chegar o carnaval. Mesmo na aflição de poder ver Matheus atrás das grades – que deverá ir a um novo julgamento pelo estupro e assassinato da mãe e da irmã -, tia Guilhermina sai às ruas de Recife e vê todas as bandas passarem. Da nudez à embriaguez, a aparentemente frágil senhora se esbalda na algazarra (um dos sinônimos e justificativa para o título). Da calçada da mercearia ria andando para casa. Aliás, fora o que fizera desde a manhã quando saíra do bairro da Torre para o centro da cidade, andando e andando com a certeza de que teria um dia feliz.

Escrito após um acidente vascular cerebral (AVC), que comprometeu a fala e alguns movimentos de Raimundo Carrero, Tangolomango é considerado pelo autor sua grande obra. Inicialmente ditado para a sua terapeuta ocupacional, o livro foi, posteriormente, tomado pelo escritor e todo digitado com o dedo indicador, numa tarefa árdua, porém renovadora, segundo apontou em muitas de suas entrevistas. Para o crítico e escritor José Castello, o livro é constituído por sutilezas. Em meio aos solavancos da vida, Tia Guilhermina – sempre arrastada pelos sons do carnaval do Recife – procura caminhos para ser. Enquanto o mundo a atormenta, ela se eleva e expõe sua alma branca pelas ruas. Uma alma que nos envolve e que nos devolve uma imagem bela, embora cruel, do existir, comenta Castello em ensaio do livro para o jornal O Globo, confirmando a hora da estrela de tia Guilhermina.