Para um 2026 com mais cultura: investimentos, circulação artística e união da classe
Profissionais do setor cultural de Juiz de Fora avaliam principais mudanças durante 2025 e apresentam necessidades da área
A cultura de Juiz de Fora esteve em destaque ao longo do ano: com a construção do Polo JF Cine e a reabertura do Mercado Municipal, a cidade passou por um momento de “reavivamento” e de cumprimento de demandas antigas do setor. Ao mesmo tempo, sofreu baques: o fechamento de antigas casas noturnas ampliou a dificuldade de apresentação dos artistas. Pesquisas a nível nacional mostraram a quantidade de leitores diminuindo e o avanço desenfreado da Inteligência Artificial sobre a área. Enquanto nomes como Pri Helena e RT Mallone, vindos da cidade, ganhavam o mundo (em Hollywood, pelo filme “Ainda estou aqui”, ou na Netflix, pelo reality “Nova cena”) e colhiam os frutos de seu trabalho, muitos outros artistas da cidade ficavam desamparados pela falta de incentivo. Entre contradições e necessidades de avanço, profissionais do setor cultural de Juiz de Fora relataram as principais mudanças que sentiram ao longo de 2025 e projetaram as perspectivas para um 2026 melhor.
Stéphanie Fernandes (produtora musical)

“O cenário da música em Juiz de Fora atravessa um momento cada vez mais delicado. Casas de shows estão fechando ou operando no limite, sem apoio financeiro contínuo do poder público e sem a existência de editais voltados à manutenção desses espaços, que são fundamentais para a cena cultural. Sem casas, não há circulação artística.
A conta não fecha: a oferta de eventos é alta, mas o público tem pago menos por ingressos, o que precariza toda a cadeia da música. No campo da música alternativa, a situação é ainda mais crítica. Editais locais frequentemente consideram esses artistas como “sem relevância” para justificar os valores solicitados, ignorando que é justamente por meio do fomento que se constrói qualidade, alcance e profissionalização.
É sintomático que artistas de Juiz de Fora com reconhecimento no cenário nacional ainda encontrem pouca valorização na própria cidade. Pensar 2026 exige políticas culturais que entendam a música como trabalho, criem mecanismos de sustentação para os espaços e apostem em processos de médio e longo prazo, não apenas em ações pontuais.
Em termos de tendências, a chamada nova MPB “indie” segue em expansão e deve continuar ganhando força, impulsionada por artistas que transitam entre o popular e o alternativo, com forte identidade autoral. Ao mesmo tempo, percebo um retorno do rock, marcado tanto pela volta de grandes nomes quanto pelo fortalecimento de novos artistas que vêm conquistando espaço a partir dessa retomada sonora, apontando para um cenário mais diverso e menos homogêneo”.
Pedro Carcereri (cineasta, escritor e ambientalista)

“Para além dos atrasos nos investimentos que são constantes na política cultural do município, o nosso cinema ainda carece da atenção construtiva e conceitual do nosso poder público, da nossa imprensa e dos nossos centros de conhecimento. É preciso trabalhar o orgulho de cineastas e das obras da nossa cidade, com autoestima e ufania para construir um caminho de dignidade na produção e na fruição cinematográfica de Juiz de Fora. O momento de retomada do cinema em âmbito nacional e que reverbera internacionalmente, com as conquistas recentes de grandes obras brasileiras, me traz um pensamento constante: é tempo de valorizar nossas narrativas, nosso jeito específico de contar histórias. O maior desafio é a desburocratização e o completo entendimento da cadeia de produção cinematográfica pelo poder público, que é e deve ser o maior financiador e articulador da cultura de um país — mas essa é outra discussão.
O cinema cria oportunidades de emprego, fluxos de capital e a produção de obras artísticas altamente acessadas por grandes públicos de locais diversos: em festivais, mostras, canais de televisão e streaming. Movimentou no ano passado mais de setenta bilhões de reais e gerou mais de seiscentos mil empregos no Brasil. Investir em um potencial econômico como esse envolve esforço tributário, fiscal, econômico, político e social. Já vimos esforços muito mais efetivos para setores industriais que nem sequer concluíram suas implantações em nossa cidade. Pelo seu potencial desenvolvimentista, a indústria cultural e a cinematográfica deveriam ser levadas muito a sério pelos poderes públicos estaduais e municipais, aproveitando a chegada de recursos pontuais de fontes como a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), acessando investimento por leis de incentivo fiscal e aplicando subsídios à indústria cultural.
O incentivo ao estudo e à reflexão acerca das narrativas da região, ao desenvolvimento de novos roteiros, à produção recorrente de obras de curto e longo formato e à distribuição e divulgação das obras realizadas em nossa cidade têm que permear as mesas das tomadas de decisão da prefeitura, da grande mídia e dos cursos de cinema e audiovisual do ensino superior da cidade. O aumento na produção, distribuição e premiação de curtas-metragens financiados pelas Leis Paulo Gustavo, Aldir Blanc e Murilo Mendes e a gravação de um longa metragem de âmbito nacional em Juiz de Fora em 2025 são sintomáticos de que o mercado está aquecido e consegue absorver esse crescimento esperado. É sempre difícil se ver no espelho, entender as falhas e propor análises realmente certeiras e construtivas sobre si. Em 2026 espero que tenhamos incentivo para continuar olhando”.
Erick Veríssimo, Laís Aguiar e Pablo Melo (membros do Coletivo Causos Gerais)

“Juiz de Fora é uma cidade onde a cultura pulsa nas ruas, nos bairros e nas memórias que atravessam gerações. Em 2025, o coletivo Causos Gerais completou 5 anos de atuação, com produções de documentários, mostras de cinema, formações, oficinas, entre outras linguagens artísticas, sempre voltadas à preservação e valorização das culturas tradicionais e populares. Reconhecemos que o coletivo se fortaleceu graças às políticas culturais, cada vez mais potentes desde a retomada do Ministério da Cultura (MinC) em 2023. As atividades realizadas não teriam sido possíveis sem as políticas e programas que surgiram nesses últimos três anos. Logo, em 2026 convidamos todos os agentes culturais, coletivos, associações, pontos de cultura e público a defendê-las conosco.
Entre as ações que fizemos esse ano no município, podemos destacar a realização da 3ª edição da Mostra SACI, as filmagens para o documentário “Nossa Senhora do Livramento”, gravado em Sarandira (distrito rural de Juiz de Fora), e o evento de celebração dos 5 anos do coletivo, reunindo uma programação diversa com artistas, grupos culturais locais e apresentando também amostras e anúncios do que vamos trazer com potência no ano que está por vir.
Reconhecemos que o coletivo também se fortaleceu graças às parcerias e conexões feitas com instituições públicas, como a UFJF, o IF Sudeste, o Programa Nacional dos Comitês de Cultura e a FUNALFA, e com outros coletivos e agentes culturais da cidade. E, para 2026, precisamos defender a união entre a classe para, juntos, garantirmos a permanência das políticas culturais e a descentralização de seu acesso.
Reforçamos o desafio de garantir que os editais sejam verdadeiramente acessíveis para todos, especialmente para os mestres e mestras da cultura popular, comunidades periféricas, rurais e tradicionais, que muitas vezes são afastadas dos recursos por barreiras de linguagem, burocracia e tecnologia. Assim, Juiz de Fora poderá consolidar um ecossistema cultural mais plural, inclusivo e sustentável, onde a memória, a criatividade e os povos da cidade sigam pulsando.”
Vinícius Cristóvão (ator e produtor cultural)

“Juiz de Fora tem uma classe teatral extremamente talentosa. Temos atores e atrizes brilhantes, diretores criativos e de vanguarda, artistas comprometidos com pesquisas sérias e diversas linguagens. A verdade é que a qualidade do que se produz aqui não fica atrás de nada do que se faz nos grandes centros. Já passou da hora de deixarmos para trás o complexo de vira-lata, essa sensação de que só o que vem de fora é bom. Não é. Juiz de Fora tem potência, tem pesquisa, tem rigor artístico e tem profissionais que merecem visibilidade.
Ao mesmo tempo, percebo que a classe teatral na cidade é pouco articulada em comparação com outras áreas artísticas, como a do o cinema ou até mesmo a da dança, que têm mais propostas em uníssono. A diversidade de grupos, linguagens e propostas é maravilhosa e necessária — o teatro só ganha quando existem todos os tipos de teatro. Mas essa diversidade, hoje, convive com uma fragmentação que enfraquece o campo. Cada grupo, cada artista, cada produtor parece estar um pouco isolado em sua própria bolha, tentando conciliar criação com a sobrevivência cotidiana do ofício — que já é árduo por si só.
O que eu sinto falta é de um elo de ligação. Algo real, concreto, que una os grupos, artistas e produtores das artes cênicas da cidade em torno de objetivos comuns. Ainda não alcançamos uma articulação ampla o suficiente para fortalecer o setor como ele merece. Meu desejo é que, em 2026, consigamos construir esse elo. Não uma utopia, mas uma articulação prática, que permita convergir diferenças, linguagens e trajetórias em prol do fortalecimento da classe teatral de Juiz de Fora.
Também estamos vivendo um momento importante: artistas locais têm despontado nacionalmente, levando o nome da cidade para grandes produções e festivais. Isso mostra que Juiz de Fora tem um ecossistema artístico potente e que precisa participar mais ativamente dos circuitos nacionais — seja de festivais, mostras, programadores culturais ou espaços de circulação que permitam que nossos espetáculos atravessem fronteiras.”
Otávio Campos (poeta e editor da Macondo)

“Um dos maiores desafios da literatura hoje é driblar a Economia da Atenção da Internet. Ler exige um tipo de atenção que se perdeu diante do excesso de telas; nossa mente se acostumou a receber várias informações ao mesmo tempo, em fluxo contínuo e veloz. Concentrar-se em uma leitura linear tornou-se, portanto, um exercício difícil, que nem todos estão dispostos a fazer.
Nesse contexto, dados como os da última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que apontam a queda recorde no número de leitores no país, não surpreendem. Também é sintomático ver que a série de livros para colorir Bobbie Goods aparece no topo da lista de livros mais vendidos de 2025. Ao mesmo tempo, vemos editoras tentando emular a velocidade da internet: lançamentos constantes, em escala industrial, enquanto poucos leitores efetivamente absorvem os textos. Como editor de poesia, sinto-me preocupado com esse ritmo. Um livro de poemas merece ser lido devagar, na contracorrente da pressa digital.
Quando uma editora publica dois livros de poesia por mês, o que está em jogo muitas vezes é mais um fetiche pelo objeto-livro e pela lógica de mercado do que respeito pelo texto e pelo leitor. Surge então um leitor que tenta “dar conta” de todos os lançamentos como se estivesse consumindo conteúdo on-line, o que resulta em leitura superficial e antiliterária.
A tendência para o próximo ano parece manter essa alta produtividade e baixo engajamento de leitura. Mas há caminhos alternativos: publicar plaquetes — pequenas publicações com menos textos, porém com unidade conceitual — permite acompanhar a economia de atenção sem sacrificar a qualidade literária. É um modo de dizer ao leitor: leia devagar”.









