Outras Ideias com Júlia de Oliveira

Júlia me diz que queria ser normal. Pergunto-lhe, então, o que seria isso. Ela titubeia. Engasga e acaba cedendo: “É complicado”. Logo em seguida desabafa: “Seria ter nascido com apenas um sexo. Fiz uma cirurgia que me deixou nos moldes fisiológicos normais. Mas falar em normalidade é cruel, porque pode ser muito chato”. O que, na verdade, Júlia de Oliveira reivindica não depende dela, mas dos outros. A mulher de longos cabelos tingidos de louro e gestos delicados deseja ser encarada naturalmente. Porém, a própria condição que a vida lhe impôs desde o nascimento também lhe serve como elemento singular para sua arte. “Penso que se tivesse nascido uma mulher normal ou um homem normal, poderia ter uma voz bonita, mas não tão extensa. Ter nascido assim trouxe alguns benefícios”, diz sorrindo.
Júlia nasceu intersexuada. “Cientificamente, fala-se hermafroditismo humano verdadeiro, que é ter os dois sexos”, explica. “É muito difícil para as pessoas entenderem, e sempre foi assim. Na infância, meus pais não souberam lidar com isso. A medicina, também, não tinha a evolução de hoje para poder orientá-los. Fui registrada como menino, e os médicos diziam para esperar chegar a adolescência. Eles me criaram com superproteção por medo da sociedade. Apesar disso, tive uma infância legal, vivi bem. Sentia-me um menino, já que tinha nome e me vestia como um”, diz ela, aos 38 anos, sentada em uma das cadeiras do Auditório Ondina Frederico Gomes, do Conservatório Estadual de Música Haidée França Americano, onde leciona canto.
Júlia se percebeu Júlia na adolescência. “Com a puberdade, aquela explosão de hormônios, meu corpo se modificando, minha cabeça ficou confusa. Foi o período mais conturbado da minha vida. Tinha muitas questões: ‘Vou namorar menino ou menina?’, ‘Sou menino ou menina?’. Nas aulas de biologia, quando falam como é o menino e a menina, eu pensava: ‘Opa, o que eu sou?'”, conta. Um dia, dando aulas para uma senhora de cerca de 80 anos, acabou desabafando. “Ela, que tinha uma mente superaberta, guardou aquelas histórias, e um tempo depois me disse que o filho trabalhava em um hospital do Rio de Janeiro que fazia esse tipo de cirurgia. Ele queria me indicar para a equipe médica de lá”, lembra-se. “Queria buscar ajuda. Não gostava mais de ser quem era, de não saber me enquadrar na sociedade”, emociona-se. Aos 22, depois de um longo processo de terapias como as que passam os transexuais, ela entrou para a sala de cirurgia. “A própria mentalidade me fez assumir. Até então, era muito andrógino. Teve um tempo em que vinha dar aulas com roupas masculinas e saía, depois, vestida de mulher”, destaca. A tal dubiedade, que sempre lhe afligiu, continuou a surpreender-lhe: “Quando comecei o bacharelado em canto lírico, já cantava no Conservatório, e todos elogiavam. Sentia que era o caminho que eu queria. Minha professora do curso, então, me indicou uma fonoaudióloga de São Paulo, para entendermos minha voz. Quando cheguei lá, ela viu que minha extensão vocal é enorme, são quatro oitavas. Consigo fazer as vozes masculinas que fazia antes, de tenor, e as vozes femininas, de soprano”.
Júlia, que canta muitas vozes, começou na música bem pequena e estreou vestida de anjo, pendurada em uma corda, cantando “Noite feliz” na igreja do São Benedito, bairro onde nasceu. “Meu primeiro espetáculo foi aos 3 anos. A partir dali, o padre sempre contou comigo nos ensaios do coral, e eu comecei a fazer aulas. Fiz violão, flauta doce, acordeom e muitos outros instrumentos. Quando estava trabalhando, as irmãs me atendiam no convento, para eu não parar. Lá, elas me indicaram a prova do Conservatório”, recorda-se ela, que já se formou em violão e órgão de tubos e desde 2002 é professora de canto coral, segundo curso superior que escolheu fazer, agora na UFJF. O primeiro foi zootecnia, na Universidade Federal de Viçosa, que fez durante o período angustiante. “Trabalhei com mergulho em Arraial do Cabo. Ia, voltava para dar aulas, e era muita luta. Como o trabalho com mergulho é de alta periculosidade e risco de vida, com dez anos de carteira assinada, pedi minha aposentadoria e passei a me dedicar apenas à música.”
Júlia hoje mora sozinha, na casa onde passou a juventude, no Parque Guarani. Convive bem com os pais, os dois irmãos e o companheiro com quem está há 19 anos. Não carrega nenhuma bandeira, mas também não se envergonha ao falar de seu percurso. Não escolheu se esconder, mas fazer no palco sua vida. “A música aceita a diversidade”, comenta. “Luto pela minha dignidade. Tenho muito orgulho da minha história, de tudo o que enfrentei, enfrento e enfrentarei”, ressalta. A única coisa que ela ainda não conseguiu foi ser Júlia em seus documentos. “Na época da cirurgia, entrei com o processo para retificação do registro, mas até hoje nada”, lamenta ela, contando diversos constrangimentos que precisa enfrentar. Mas Júlia persiste. É, naturalmente, uma mulher de verdades muito sólidas.








