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Acertando os ponteiros


Por Tribuna

04/01/2015 às 07h00- Atualizada 07/01/2015 às 09h01

Empresa americana conseguiu inventar o skate que levita (Hendo), mas apenas sobre placas de metal

Empresa americana conseguiu inventar o skate que levita (Hendo), mas apenas sobre placas de metal

Para marcar no calendário: 21 de outubro de 2015 é o dia em que, mais uma vez, a humanidade vai saber o quanto nossa imaginação é capaz de andar de mãos dadas com a realidade científica, ao alcançarmos o futuro retratado em “De volta para o futuro 2”. O filme de Robert Zemeckis, lançado no final de 1989 na esteira do sucesso da produção original, de 1985, viajou 25 anos no futuro (ou 30, se levarmos em consideração a cronologia da película) para criar uma trama rocambolesca em que Marty McFly e o doutor Emmett Brown saltam as décadas para impedir que a linha temporal seja arruinada pelo invejoso e ardiloso Biff Tannen. Com isso, foi preciso imaginar um futuro com carros voadores, combustíveis alternativos, filmes holográficos em 3D, TVs de tela plana… E, sim, os imortais e sonhados skates voadores, o mais desejado de todos os artefatos que poderiam ser encontrados em 2015, com grande chance de serem comercializados a partir justamente do próximo outubro, mesmo que com restrições de deslocamento.

Já é possível listar, antes mesmo da chegada de 21 de outubro, uma série de invenções vistas no misto de filme de ação/ficção científica que já se tornou realidade, assim como tantos outros filmes, séries, livros e histórias em quadrinhos tiveram seus acertos e erros com o passar dos anos (“Star trek”, por exemplo, antecipou coisas – mesmo que de forma indireta – como o telefone celular e a tomografia computadorizada). O já citado skate voador ainda não pode ser produzido para venda comercial, mas a empresa Arx Pax espera colocar o Hendo (nome da prancha flutuante) à venda em outubro, mês em que Marty e o Dr. Brown chegam à Hill Valley futurista. Em novembro, o supercampeão de skate Tony Hawk fez algumas manobras com o aparelho, mas nada muito radical.

O motivo para isso é simples: como estamos no mundo real, o skate (que usa a tecnologia de flutuação magnética, a mesma de alguns modelos supervelozes de trem-bala) só funciona em superfícies metálicas e por meros sete minutos, tempo de duração da bateria, e fica elevado a poucos centímetros do chão. E o preço também é para poucos, pois a previsão é de que o Hendo custe nada menos que US$ 10 mil (cerca de R$ 26 mil reais). A Arx Pax promete, ainda, criar uma pista de skate metálica para os felizes proprietários da prancha “voadora”, mas quem não morar nos Estados Unidos vai ter que se virar.

Ok, o skate voador está quase lá, não é como sonhamos e será para poucos por enquanto. Mas Zemeckis e o roteirista Bob Gale tiveram uma bela cota de acertos no 2015 deles. Para quem reparar, logo depois que eles chegam à Hill Valley futurista, é possível ver no beco em que o DeLorean fica estacionado fardos e mais fardos de laser discs e CDs que viraram lixo. Os primeiros – bolachões prateados que eram os ancestrais dos DVDs – tornaram-se peças de museu ainda na década de 1990, enquanto que os compact discs até estão vivos, mas sem a mesma força de outrora com o advento do MP3, Napster, a chamada pirataria, iTunes, streaming e afins. A câmera digital do Dr. Brown está um tanto quanto defasada, porque hoje o celular que faz fotos comanda o mercado fotográfico.

Os filmes em 3D já são uma realidade, mas a holografia vista em “Tubarão 19” continua sendo muito mais perfumaria do que algo prático. Ela ainda é utilizada para coisas banais, como colocar cantores mortos para cantar “ao vivo” e o rapper Will.i.am comentando na CNN a eleição do Obama. Televisores finos e de tela plana tornaram-se o padrão de computadores e televisores há bons anos, com recursos de conexão à internet, transmissão simultânea de programas e outras bossas. Videoconferência e internet em eletrodomésticos são outras previsões acertadas, assim como o uso de próteses biônicas – mas apenas para quem sofreu acidentes ou possui doenças, nada de jogadores de beisebol burlando as regras do jogo.

Quando Marty McFly Jr. chega à lanchonete e pede ao monitor um refrigerante, é a tecnologia de comando de voz que está presente ali; os videogames jogados com os movimentos do usuário são lembrados pelos guris que ridicularizam o McFly mais velho quando ele se diverte com um fliperama dos anos 1980. Os óculos hi-tech usados pelos filhos de Marty já foram apresentados pelo pessoal do Google, mas ainda engatinham. Identificação eletrônica pelas digitais já é utilizada, por exemplo, em alguns caixas eletrônicos, e os drones podem ser adquiridos por qualquer pessoa com um pouco mais de dinheiro. Os tablets já fazem parte do nosso cotidiano há quase dez anos, e a convergência de mídias é algo cotidiano – o melhor exemplo disso vem dos nossos smartphones.

O que ainda não aconteceu (mas deveria?)

O exercício de futurologia também tem suas bolas fora. Todo mundo (até em “Blade runner”) acreditava que os japoneses dominariam o mundo, e são eles que ditam as regras econômicas de 2015 em “De volta para o futuro 2”. Como se sabe, todavia, anos de profunda estagnação econômica colocaram os nipônicos para escanteio, e hoje quem disputa a liderança mundial com os Estados Unidos é a China.

Outra previsão equivocada é a de que os aparelhos de fax estariam presentes nos lares da mesma forma que os computadores e a televisão: atualmente, é difícil encontrar quem ainda utilize a traquitana. Carros voadores – e utilizando lixo orgânico, ainda por cima – são imaginados há mais de um século, e até agora as highways aéreas ainda vivem no campo da ficção. Previsão do tempo com 100% de acerto? Nada. Comida desidratada é coisa para astronauta: a micro pizza que se transforma numa gigante em apenas dois segundos ainda é um sonho. O papel que não acumula poeira ninguém sabe, ninguém viu.

Se existe algo que os oráculos sempre erram é quanto à moda. Muito antes de “Star trek”, por exemplo, escritores, figurinistas, cineastas e estilistas sempre dão com os burros n’água ao imaginarem a roupa de amanhã. As gravatas duplas e roupas ajustáveis a autossecantes são verdadeiras peças de ficção (a primeira, então, que jamais se torne realidade). O cadarço automático de tênis é uma boa ideia, mas ainda não aplicável. Já os equipamentos “vestíveis” que aparecem no filme eventualmente surgem pela cabeça de algum estilista/cientista metido a “descolado”, mas continuam sem aplicação cotidiana.

E até no esporte Robert Zemeckis resolveu dar seus pitacos. Segundo o filme, o time de beisebol Chicago Cubs será o campeão da World Series de 2015. O detalhe é que a equipe não vence o campeonato desde 1908, e seus torcedores até são conhecidos como “os adoráveis perdedores”. Quem acompanha a Major League Baseball sabe que a franquia, pelo menos no papel e em retrospecto, está muito longe de ser uma das favoritas ao título. Mas vai que…

Um pouco mais de tecnologia, faz favor

A chegada do “futuro” do filme “De volta para o futuro 2” é assunto que pode ser discutido tanto por fãs quanto por pessoas ligadas à tecnologia, ficção científica em geral e até mesmo especialistas em física. Há espaço, inclusive, para discutir a moda imaginada para 2015. Este é o caso, por exemplo, da produtora de eventos e nerd de carteirinha Thamiris Carvalho, e que por isso mesmo é ligadíssima em física. “Eu quero agradecer ao cosmos por não termos a mesma aparência daquele filme, o que eram aquelas roupas? E os gadgets? Ainda bem que tivemos um Steve Jobs (um dos fundadores da Apple) para falar que ‘menos é mais’, e a moda saiu daquela coisa anos 1980 estranha”, comenta Thamiris, para quem o filme tem uma série de aspectos a serem elogiados, a despeito do “desastre” da moda. “O filme bebe de muita fonte do sci-fi que veio antes. E isso é bacana, pois está como referência/homenagem em toda a trilogia e não como uma simples cópia. Acho muito bacana já termos comando de voz, o Google Glass (ainda tímido), a volta do 3D, essas bugigangas todas que não vivemos sem (smartphone, tablet, notebook).”

Thamiris lembra que, por muito tempo, dois de seus sonhos de consumo eram o skate voador usado por Marty McFly e uma viagem (impossível) para o Parque dos Dinossauros. Agora, o sonho de consumo impossível para 2015 seria uma máquina do tempo – mas não num equipamento qualquer: “Depois de tudo isso eu queria mesmo era uma TARDIS (a nave/máquina do tempo de ‘Doctor Who’). Mas nada de largarem a bendita na minha mão, eu só iria querer tirar umas férias com Doutor, viajar pelo espaço-tempo é muita responsabilidade. Mas acho incrível poder ter a chance de visitar o passado, o futuro e outras civilizações”, completa a produtora de eventos, para quem o mundo está mais para o 2019 de “Blade runner” que para o 2015 de “De volta para o futuro 2”.

Para o cantor Edson Leão, o invento futurista que mais gostaria de ver como realidade em 2015 resolveria um dos grandes problemas de nosso tempo: a mobilidade. “O teletransporte é uma das frustrações deixadas pelos ‘futurólogos do passado’ que parece a mais urgente a ser sanada. Principalmente para Juiz de Fora, afinal de contas essa parece atualmente a única solução realista para o problema de trânsito da cidade”, diz ele. Quem também se preocupa com o trânsito caótico de nossos dias é o baixista Marcelo Castro, do Silva Soul. “São muitas possibilidades, a criatividade do mundo da arte para pensar o futuro sempre foi gigante. Não sei qual a melhor ou a mais divertida, mas o que está fazendo falta hoje em dia é aquele trânsito do desenho ‘Os Jetsons’, os carros voando, e todo o tráfego funcionando de forma eficiente…”, imagina Marcelo.

A desenhista e cartunista Lu Freesz prefere sonhar com o que viu no filme, mesmo. “Queria ter o carro e o skate. O primeiro para voltar no tempo quando quisesse, e o segundo porque adoro skate desde criança, e o dele flutua! Sem perigo de agarrar, se cansar e precisar empurrar.” O também cartunista e desenhista Douglas Zimmerman tem sonhos de consumo parecidos. “Meu sonho de criança era ter o skate voador e o tênis que amarra sozinho. Eu vi o projeto do skate que flutuava no Kickstarter (site de crowdfunding), mas achei meio sem graça. Dizem que a Nike prometeu um tênis desses para até 2015. Vamos ver!”

O músico Fred Fonseca, do projeto 4zero4, espera pelo dia em que as viagens no tempo e o teletransporte sejam realidade, além da comida em cápsula que só precisa de água para ficar pronta. Mas ainda há tempo para filosofar sobre o futuro que nós eventualmente sonhamos. “Acredito que os filmes são norteadores da realidade possível. Li uma vez que não se sabe ao certo se de fato o futuro surge ou é uma síntese das artes possíveis se inovando e sendo criativas ao ponto de revelar um amanhã possível. Vide a moda, roupas extravagantes se tornam cotidianas”, lembra. “Alguns modelos em filmes de ficção científica são usados hoje, e na época eram tidos como démodé e ridículos, os celulares e suas possibilidades de videochamada eram vistos em séries como ‘Star trek’. Por vezes, vemos a sensibilidade da sociedade desejar o impossível, e muitas vezes o impossível vive no campo das ideias… Tornar viáveis as possibilidades fantásticas é justamente inserir o espectador naquele contexto e gerar essa intimidade. A única coisa que não aprendemos com os seriados e filmes que despertam possibilidades e vontades é o convívio mútuo e pacífico como o visto em ‘Star trek’ nos anos 1960, quando o apartheid comia solto nos Estados Unidos.”

Falando de física em ‘De volta para o futuro’

Para o doutor em física teórica Thaes Costa Soares, professor do Instituto Federal Sudeste MG, campus Juiz de Fora, a questão da viagem no tempo é complexa não só pela física em si, mas também por envolver questionamentos filosóficos. “Pensar nas viagens no tempo, ao estilo tradicional do que vemos em ficção científica, implica em pensar, por exemplo, que o acontecimento passado ainda vive no passado, bem como as possibilidades de futuro já estejam existindo no futuro. Mas a física contemporânea nos coloca muitas questões acerca da natureza do tempo, a Teoria da Relatividade nos mostra que a passagem de tempo se faz de forma relativa, dependendo das velocidades envolvidas e, ainda, que o tempo se comporta como mais uma dimensão do espaço, em um conceito que chamamos de espaço-tempo”, explica.

“Isso nos remete de forma quase que natural à possibilidade de uma viagem no tempo. Mas devemos chamar a atenção para o fato de que a física se faz não apenas com uma teoria, há várias outras que geram visões diferentes, às vezes conflitantes. Temos a mecânica quântica, o modelo padrão da física de partículas, a termodinâmica etc.”

Enquanto se discute a possibilidade e a viabilidade das viagens temporais, Thales destaca que Robert Zemeckis foi inteligente em colocar em prática a sua “teoria”. “Segundo o filme, a velocidade de 88 milhas por hora acionaria um dispositivo chamado de ‘capacitor de fluxo’, que levaria à viagem no tempo. Só que Doutor Brown não entra em detalhes sobre o seu funcionamento, apenas diz que geraria muita energia. Saindo um pouco dos filmes, metaforicamente falando, a viagem no tempo acontece a todo momento em nosso mundo, com as partículas do mundo sub-atômico, seja de reações nucleares naturais, como as que ocorrem em estrelas, seja nos aceleradores de partículas, como o LHC. Eu costumo brincar com os meus alunos que o LHC é uma ‘grande máquina do tempo’ em plena atividade.”

Thales, que também é colaborador do Centro de Ciências da UFJF, não discorda totalmente de quem considera uma “viagem no tempo” a teoria segundo a qual um astronauta, viajando a velocidades altíssimas, retornaria à Terra mais jovem do que aqueles que por aqui ficaram. “Acho que poderia concordar com isso. Mas, novamente, é um transcorrer do tempo diferente para ambos. Ele chegaria em 2015, o nosso ano, mais jovem, mas para quem ficou não seria a mesma data. É o Paradoxo dos Gêmeos que o Einstein coloca. Qual é a data certa, afinal? Mas ele não seria tão mais jovem assim porque, por maior que seja a sua velocidade, é muito pequena comparada à velocidade da luz. Penso, novamente, que nosso complicador são nossas convenções de tempo. Eu gosto muito de uma frase de Santo Agostinho, que também sempre repito aos meus alunos quando discutimos sobre tempo, espaço e outros conceitos complicados: ‘se não me perguntas sobre o que é o tempo, eu sei. Mas, se me perguntas já não mais sei'”, destaca.